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Bak Gordon: arquitetura nova

Eis o segundo livro sobre a obra de Ricardo Bak Gordon desde 2009, o arquiteto de 58 anos segundo a qual "o território urbano é absolutamente estimulante", com a encomenda a determinar o desafio.

Vasco Rosa
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Segundo livro sobre a obra do arquiteto Ricardo Bak Gordon desde 2009, Novas Casas Portuguesas — um título com uma mui graciosa piscadela de olho… — reporta-se todavia a projetos de residências unifamiliares concebidas a partir de 2003, porquanto integra as duas casas em Santa Isabel, seguramente uma das suas obras de referência e a maior de todas (c. 400 m2 construídos num lote de 1261 m2). As demais correspondem a edificações que vão de 265 m2 (Foz do Douro, 2018-19; v. foto neste artigo) a 500 m2 (prédio da Rua dos Remédios à Lapa, 2012-16), e quase todas em Lisboa, ainda que, no mesmo período, o atelier tenha projetado outras casas numa geografia mais ampla, por exemplo no Monte Estoril em 2017, além das que já fizera em Tavira, Olhão, Boliqueime — como ainda antes disso, entre 1993 e 2006-8, em São João do Estoril, Lagoa de Óbidos, Capuchos de Leiria e Cabo da Roca.

A essa concentração citadina não será alheia a afirmação do arquiteto de 58 anos segundo a qual “o território urbano é absolutamente estimulante”, pois só a encomenda determina o desafio colocado ao projetista diante dum lote preciso e concreto, ele próprio inseparável duma envolvente específica e condicionante. De facto, a ampla diversidade das intervenções possíveis em contexto urbano está bem expressa nestes sete casos, o melhor será dizer nas casas apresentadas neste livro, muito embora a escolhida para a capa seja a Casa Azul, o Monte dos Patos nos arredores de Grândola, um projeto de 2016 concluído em 2021 e de todos o mais recente, a par do da Foz do Douro, de 2018-21.

De fora desta escolha (e o sítio do atelier é ainda omisso quanto aos trabalhos desenvolvidos em 2025) ficam duas casas na zona oriental de Lisboa, uma em Almancil, três em Galamares, Nafarros e Guincho, e uma em Sesimbra, projetadas em 2021-22 porém todas elas ainda em construção, e ainda três prédios na Lapa, também na capital, de 2023-24, trabalhos dos últimos anos que não deixariam — ou deixarão em próxima publicação — de nos mostrar mais completamente a panóplia de programas e de decisões construtivas, e a contínua inquirição artística daí decorrente, pois parece haver, por parte de Bak Gordon e dos seus colaboradores, uma pesquisa cada vez maior visando o recurso à cor como “matéria construtiva de espessura mínima” (sic), a aplicação de rebocos estanhados e mais panos parietais ou fachadas azulejares ou de madeira onde antes se preferiu sobretudo betão armado aparente, e também forte aposta nos jogos de sombra em espaços exteriores, de que a Casa Azul é o exemplo maior, como as fotografias de Francisco Nogueira captam competentemente.

O projeto Candal para um gaveto em Lisboa, todavia ausente deste livro, afigura-se porventura como contraponto absoluto — vinte anos depois — das famosas casas em Santo Isabel, “um lugar dentro de outro lugar”, como já foi escrito, e, pelo que é permitido saber, síntese de novas tendências da arte de Gordon. Antecedendo as páginas dedicadas a cada obra, numa fotografia congregam-se todos os elementos matéricos e cromáticos nela aplicados, exibindo de antemão os recursos implicados em cada projeto. Tal evidência do sortido de soluções postas em cima do estirador (se ainda houver um…) para uma década de arquitetura não pode deixar de ser notada, pois surge pela primeira vez na bibliografia sobre Ricardo Bak Gordon.

Depois dos livros em que figuram textos e conversas de e com Ricardo Carvalho e o italiano Federico Tranfa, e até uma página de Pedro Cabrita Reis, é Nuno Tavares da Costa (1975-) — coordenador de projeto no atelier RBG desde a sua fundação em 2002 — quem assina a apresentação destas Novas Casas Portuguesas: “A natureza ajustada ao humano”, pp. 5-9. Porém, uma boa dose de prosa poética não é o que mais se espera duma abordagem preambular deste tipo, mesmo que a invocada felicidade dos moradores seja sempre merecedora de consideração e nada tenha de improvável quando estão excluídas todas as demais condicionantes desse bem-estar. “Há nestas casas uma indagação impaciente pelo belo, persistente, como se este fosse necessidade. […] Tudo no seu sítio, a conversar, a cantar, organizado numa elegância simples e autêntica. Num eros em busca pela beleza e pela verdade” (Tavares da Costa, pp. 6 e 7).

Ao contrário, que sortuda pode ser uma cidade que vê edifícios degradados ou já em ruínas serem substituídos por construções concebidas por uma elite de arquitetos portugueses com projeção internacional e reconhecidamente capacitados para criar um patamar de contemporaneidade onde prevaleceu uma construção ainda oitocentista ou anterior, senão mesmo feita, na segunda metade do século passado, em grande parte por construtores patos-bravos de má memória. Mesmo quando tais casas novas possam merecer reparos num aspeto ou noutro, o facto de essa revolução qualitativa estar em marcha por ação de promotores imobiliários e de ateliers de arquitetura é já — definitivamente — um passo em frente que faltava dar, diante da inércia de grandes proprietários como o Estado, o Município e a Santa Casa da Misericórdia. Nesta perspetiva, idealmente o presente livro da Caleidoscópio deverá ser lido em confronto com quaisquer outros que rastreiem a obra de outros arquitetos mais ativos na renovação e reabilitação de Lisboa, em particular nos bairros em que a obra de Ricardo Bak Gordon está mais presente. E — eventualmente, e porque não? — face a obras de arquitetos estrangeiros chamados a projetar numa cidade posta em particular evidência internacional, como sobejamente reconhecido.

As novas casas portuguesas apresentadas neste livro diferem bastante umas das outras, pela conformidade aos lotes em que se fixam, no geral estreitos e longos, permitindo a criação de pátios, como em São Francisco de Borja, na Lapa (pp. 34-43), ou de jardins e piscinas, como nos Remédios à Lapa (pp. 10-17) e na Costa do Castelo (pp. 18-33), que tira máximo partido do declive da colina e das vistas sobre a cidade antiga e o rio. Na Foz do Porto, porém, tratou-se de acrescentar um novo edifício a uma casa jardinada de finais do século XIX, de contemporaneidade ressaltada pelo betão à vista pigmentado nas paredes e nos pavimentos e pelas requintadas caixilharias de latão oxidado (pp. 70-81) e que se enquadra muito bem — à perfeição, diria mesmo — com os diferentes ambientes circundantes. No gaveto entre a Rua de São Félix e a Rua das Praças, em Lisboa, a casa unifamiliar de cinco pisos todos acima do solo (o primeiro para entrada e estacionamento, o superior, recuado, abrindo terraço sobre o Tejo) e cada um deles com uma função específica, porém desprovida de elevador, pode vir a criar incomodidades aos seus habitantes, mas representa um bom exemplo da renovação urbana de qualidade por que há tanto tempo esperamos.