João Gonçalves ainda não tinha sequer apitado para o final da partida no Dragão e já os Aliados e a zona da Ribeira do Porto começavam, paulatinamente, a pintar-se de azul e branco. À medida que a partida se aproximava do fim, deixou de ser a conta-gotas. Rapidamente se tornou numa torneira aberta de adeptos a chegarem a ambos os locais. Simultaneamente, André Villas-Boas, ainda no relvado do Dragão, prometia um “São João antecipado”. Prometeu e cumpriu. Foram milhares os adeptos que esperaram por este momento – mais do que quatro anos, uma vez que a última conquista do FC Porto no Campeonato foi em 2021/2022. A esta espera juntou-se uma pausa de duas semanas nas celebrações, com o FC Porto a querer reservar para este sábado (e madrugada de domingo) os festejos oficiais do 31.º título de campeão.
Fora do Dragão, os festejos começaram na Ribeira, num momento de celebração inédita. Tradicionalmente, a festa era feita exclusivamente na Avenida dos Aliados. Este sábado estrearam-se no Douro: a comitiva azul e branca na água; uma mancha de milhares de adeptos em terra. Antes sequer dos novos campeões nacionais chegarem, já a festa tinha começado. Muitos sorrisos, muito azul e muito branco – zero clareiras humanas. A chegada do FC Porto à ponte Luís I foi anunciada pelo som do fogo de artifício lançado de barcos, da própria ponte e das margens do rio. Terminaram com um bruá que foi ganhando cada vez mais força e lançou o início da festa. Música, saltos e luzes. Como aquelas que foram elevadas nos céus do Porto, com a camisola número 2 (a de Jorge Costa) e ser uma delas.”Sempre connosco”, lia-se. Nem num momento de maior euforia, já com algum álcool e charutos à mistura, o Bicho foi esquecido.
O que era um barco, passou a ser, entretanto, um trio elétrico – o veículo temático que levou os novos campeões do Douro aos Aliados. As cores não mudavam: azul e branco, por todo o lado. Eram essas as cores que preenchiam os passeios da Avenida Dom Afonso Henriques, uma das vias que a equipa utilizou para chegar ao palco instalado junto da Câmara Municipal do Porto e onde alguns adeptos aguardavam a equipa desde as 14h, garantiam aos microfones do Porto Canal. Nem a longa espera tirou força à festa no centro da cidade. Foi, aliás, em crescendo que a festa se encaminhou até ao grande palco.
Os picos da festa superavam-se, repetidamente, uns aos outros. “Um sentimento incrível” – foi assim que Dominic Prpic descreveu a conquista do Campeonato do FC Porto e o ambiente à boleia do trio elétrico que leva os dragões aos Aliados. O defesa central azul e branco garantiu “lembrar esta noite para o resto da vida” e disse que quer continuar na equipa na próxima época. “É a melhor noite da minha vida”.
Um dos pontos altos da noite foi a chegada da equipa ao longo palco que atravessava toda a Avenida dos Aliados e que abria caminho até à escadaria da Câmara Municipal do Porto, onde estava o presidente da Câmara, Pedro Duarte, para tirar uma fotografia com os novos campeões. Lá fora, um mar azul e branco em apoteose, que tinha recebido minutos antes a equipa na avenida – abriram caminho o capitão Diogo Costa e o técnico Francesco Farioli, que lideraram o pelotão de entrada no palco. Os dois traziam o tão desejado troféu, cada um responsável por cada aba.
Lá dentro, falaram Pedro Duarte e, depois, André Villas-Boas. O autarca disse que “o FC Porto é mais do que um clube” e que “representa toda a região, o trabalho, o esforço e o mérito”. “O FC Porto representa a alma tripeira, a raça, espírito e o caráter do Porto”, concluiu Pedro Duarte, antes de oferecer um prato comemorativo a André Villas-Boas, em nome da autarquia. O dirigente do clube retribuiu elogios e agradeceu a organização do evento na Invicta. “O que vimos hoje foi, provavelmente, a maior festa de sempre do FC Porto. Desde que saímos do estádio à Ribeira, até à sua casa. Quero também agradecer a este grupo único de jogadores. Deram-nos muitas alegrias, lideradas pelo mister Francesco Farioli, uma pessoa que transformou cada um deles”, afirmou o presidente do FC Porto, antes de dar uma medalha de campeão a Pedro Duarte e uma camisola comemorativa da conquista, pelas mãos de Francesco Farioli e de Diogo Costa, que subiram a um púlpito dentro do edifício.
Seguiu-se a reentrada no longo palco, agora para, de forma definitiva, para uma comemoração sem hora marcada para o fim. Houve Samu a declarar-se “tugão”, Gabri Veiga a dizer que não teve a “sorte de nascer portista” e a garantir que vai “morrer portista”. Pablo Rosario, além das posições que faz em campo, jurou que “também podia conduzir o autocarro” do FC Porto e Fofana revelou que o seu melhor momento da época foi provavelmente o golo apontado frente ao Sporting. Nem a pausa nos festejos, nem a espera de quatro anos de espera fizeram parar uma festa que prometeu e cumpriu ir pela noite fora. Foi o próprio Francisco Moura que avisou no palco dos Aliados: “Hoje é direta”.
Seguiu-se um momento emotivo, com direito a homenagem a Jorge Costa. A imagem do Bicho foi projetada na fachada do edifício da Câmara Municipal do Porto, ao som de Gavin James. “You’re in my head, always. Always” [Estás na minha cabeça, sempre. Sempre], cantou Gavin James, numa emotiva homenagem. Em baixo, emocionados, estavam jogadores e adeptos, que cantaram junto do cantor irlandês, a uma só voz. O ambiente passou rapidamente da euforia para a emoção, na memória a Jorge Costa, cujo nome foi gritado repetidamente por jogadores e adeptos, também a uma só voz.
Já com toda a gente recomposta, a festa prosseguiu depois de ser cantado o hino do FC Porto, com uma roda formada pelos campeões nacionais em torno do troféu que fugia há quatro anos dos dragões. Este é o 31.º e há quem prometa — dirigentes e jogadores — que, no próximo ano, a festa vai repetir-se ali mesmo, nos Aliados.