A adaptação que Radu Jude fez de Diário de uma Criada de Quarto, romance de Octave Mirbeau, publicado em folhetim na viragem do século XIX para o século XX, e que serviu de inspiração a Renoir e Buñuel (entre outros), é uma das mais inteligentes e descarnadas versões cinematográficas de um texto clássico dos últimos tempos e um filme necessariamente polémico a nível político, fiel ao aspecto subversivo do livro.
A criada do título do filme de Jude, romena que deixou filha menor no seu país, ao encargo da avó, e que veio para Bordéus servir família endinheirada, é definitivamente mais dona do seu nariz e vítima de si própria que de qualquer outra coisa, contornando com malícia qualquer enésima versão estafada da luta de classes em que a corrupção dos ricos verga os pobres à sua condição. E até se acrescenta mais: numa Competição de Cannes em que os pobres, até agora, ainda não tiveram espaço no ecrã (está tudo muito “abastado” no concurso pela Palma de Ouro), é revigorante encontrar uma personagem assim.
Radu entra assim la (larga) lista de cineastas estrangeiros em Cannes que trabalharam recentemente em França e com dinheiro francês (tal como se assinalou neste texto). A proposta do filme chegou do produtor franco-tunisino Saïd Ben Saïd, a partir de um texto que há muito despertara a atenção do cáustico cineasta. Foi tiro e queda. Radu não é cineasta de temas nem de causas, é um iconoclasta, costuma reduzir a pó tudo o que é cliché. A diáspora romena no Ocidente não é propriamente o seu prato favorito. E contudo, há muito que ele tem vindo a reflectir sobre o mundo do trabalho e os novos explorados da economia em que vivemos, criaturas que fazem das tripas coração para ganhar a vida. Um quarto da população romena trabalha hoje no estrangeiro.
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Le journal d’une femme de chambre, mais do que uma adaptação, é um diálogo com o livro de Mirbeau transposto para uma espécie de filme que relaciona, com particular escárnio, o Ocidente e o Leste da Europa. Gianina (Ana Dumitrascu), a criada que toma o lugar da Célestine original, está em permanente contacto, através de video-chamada, com a família na Roménia, em especial com a filha menor, que aguarda desesperadamente a chegada da mãe para as férias natalícias que se avizinham. O problema é que essa viagem acabará por ser posta em causa e, entretanto, é do filho dos patrões (e dos caprichos destes) que Gianina tem que tomar conta.
Os patrões, interpretados por Mélanie Thierry e Vincent Macaigne, estão, de resto, bem identificados: representam uma burguesia francesa muito “sensível” a causas sociais e que gosta de mostrar-se preocupada com as condições de trabalho da mulher que lhes limpa a casa e faz almoço e jantar, além de tudo o resto. Mas a boa causa socialista é só aparência. Quando surge um acontecimento inesperado e estala o verniz, os patrões, para salvaguarda do seu conforto, vão antes optar por um cinismo chantagista e intolerável.
Outra ideia brilhante de Radu é a de que Gianina, nos seus tempos livres, entra em contacto com a comunidade romena daquela cidade, em especial com uma encenadora, sua conterrânea (Ilinca Manolache), que ensaia, precisamente, uma versão teatral, brutificada e grotesca do romance de Mirbeau. Este jogo de espelhos acaba por trazer uma leitura completamente nova da personagem, que alimenta o círculo vicioso em que tombou.
Veredicto: um Radu Jude conciso de objectivos e económico na duração (94 minutos bastam). O romeno está em excelente forma.
Um doce adeus: “Merci d’être venu”
Há um momento no seu novo filme em que Alain Cavalier, 94 anos, se deita na cama esguia de um quarto de hotel (filmou-se durante uma apresentação de um filme seu algures em França) e evoca a Santa Teresa do seu filme Therèse, Prémio do Júri em Cannes 1986, êxito de bilheteira e também a última vez que o cineasta realizou uma obra cinematográfica, digamos, “convencional”, dentro do sistema.

Farto desse sistema e da imposição dos produtores, Cavalier criaria a partir dali algo novo, um cinema sem actores tal como os entendemos e sem equipas tradicionais, atento aos gestos do documentário e, mais importante, ao diário íntimo, procurando, como quem respira, aquilo que pode haver de épico nos banais movimentos do dia-a-dia. O advento do digital, na viragem do século e do milénio, acabaria por favorecer esta prática. O que é fascinante é que nunca está prática cedeu à auto-complacência. Cavalier, com a sua voice over calorosa, desenvolveu a partir daqui uma nova forma de cinema confessional e sem paralelo. Nestas últimas quatro décadas, foi por esta via que continuámos a ter notícias dele.
Esta forma de filmar ganhou peso quando Cavalier encontrou a sua actual companheira, Françoise Widhoff, em meados dos anos 90: ele realizou e ela produziu La rencontre, filme diarístico que era uma forma de partilha mútua. Merci d’être venu é o último episódio dessa linha e um filme muito ocupado por Françoise; provavelmente — deseja-se que não, mas é o próprio cineasta que o deixa entender — o seu derradeiro capítulo. E Cavalier não veio a Cannes, ao contrário do que esperava Pierre-Henri Deleau, fundador da Quinzena dos Realizadores (que hoje é dos “Cineastas”) e histórico director artístico desta secção, entre 1969 à 1998. Mas enviou Merci d’être venu, como quem manda uma última missiva.

É um doce adeus, lúcido e limpo, a esta forma tão generosa de ter sabido observar, amar e estar próximo de nós, com uma imensa alegria de estar vivo e, em simultâneo, ciente de que tudo na vida acaba. É um filme com uma enorme carga emocional, mas alheio a qualquer sentimentalismo.
Merci d’être venu fecha uma porta, mas é franco e aberto ao mundo, com um sorriso e um copo de vinho em cima da mesa. “Obrigado por ter vindo”, agradece o título ao espectador. Obrigado pelos filmes que fez, Alain Cavalier.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.