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Como Melo puxou de Adriano e Lucas Pires para afastar pressão interna: primeiro a AD, depois o CDS

Apesar de moções alternativas a pedirem que o partido vá sozinho a votos, Nuno Melo recusa vincular já o CDS a qualquer estratégia. Mas Paulo Núncio fala num "projeto a oito anos".

Rui Pedro Antunes
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Rita Tavares
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Diogo Ventura
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A sala do Congresso esteve sempre com luzes azuis, em tons de oceanário. Mesmo com a Juventude Popular e a oposição, protagonizada por Nuno Correia da Silva, a agitar as águas, o CDS de Nuno Melo manteve-se firme: é para seguir no barco da AD. Puxando à democracia-cristã, a atual direção do partido tentou apresentar o CDS como uma espécie de “rémora” no sermão do Padre António Vieira: o peixe pequeno que consegue impor a sua força. Apesar das pressões internas, Melo não se desvia do caminho mais seguro, o da coligação com o PSD, lembrando que o “aventureirismo” quase matou o partido há quatro anos.

O primeiro argumento de Nuno Melo é que o mandato que se inicia em Alcobaça é para dois anos. Ora, se as legislativas são, em condições normais, só daqui a três anos e meio, é extemporânea a discussão sobre se o partido deve ter uma coligação pré-eleitoral ou ir sozinho a votos. “Vamos vincular o partido a três anos numa outra estratégia quando só levamos um de Governo e a nossa luta deve ser pelo sucesso do Governo? Isto faz sentido? Meus amigos, sinceramente, não faz e esse não será, seguramente, o meu caminho”, disse Melo aos congressistas.

Apesar das vozes dissonantes, Melo sabe que a sua moção sairá vencedora. “É verdade que os Congressos do CDS são pouco previsíveis, mas a esmagadora maioria do Congresso está com Melo”, regista Paulo Núncio. Por isso, deu-se ao luxo de passar o partido para segundo plano na sua reunião magna. E para isso recorreu aos founding fathers : “Acredito naquilo que o professor Adriano Moreira e Lucas Pires diziam em 1987. Somos portugueses por princípio e democratas cristãos por conclusão. Apenas nos assumimos partidariamente para servirmos uma ideia de Portugal.  Estamos a servir uma ideia de Portugal no Governo através da AD.”

Melo não tem problemas em passar o CDS para um plano instrumental, sacrificando-o ao interesse nacional. O líder parlamentar, Paulo Núncio, em entrevista ao Observador alinha na mesma ideia e diz até que os centristas têm mais votos quando vão coligados com o PSD. “Sou daqueles que acham que o eleitorado da AD é superior à soma dos votos dos dois partidos em separado”, contabilizou o líder parlamentar.

Núncio foi mais longe do que o líder e sugere que o ideal é que a AD dure muitos anos. Disse mesmo que a AD é “um projeto a oito anos, a duas gerações. Não é possível reformar o país apenas numa legislatura. Temos necessariamente que governar pelo menos durante oito anos para ultrapassar os graves problemas que herdámos nos oito anos de estagnação e de mobilismo da governação socialista.”

Já o secretário de Estado da Administração Interna, Telmo Correia, aproveitou uma parte das declarações do ex-líder Manuel Monteiro, que tinha discursado minutos antes, para defender a mesma ideia: “Acabámos de ouvir agora de resto um antigo presidente do CDS, explicar ao Congresso uma coisa que é da ciência política que é: o grande objetivo da política, em qualquer circunstância, é a realização do bem comum.” Para o governante, para esse bem comum os partidos procuram o exercício do poder — onde o CDS já está. Ora isso, “implica responsabilidades, implica compromissos, implica lealdade por um lado e compromisso com a Aliança Democrática em que estamos integrados.”

Só não citou a segunda parte do raciocínio de Manuel Monteiro neste ponto. É que se o antigo líder sublinhou que a relação com um parceiro se funda na “lealdade e compromisso”, também é certo que “nunca deixa de ter as chaves no próprio bolso para, se necessário for, se pôr à estrada e caminhar sozinho. E essa perspetiva é uma perspetiva que acredito que o CDS saberá trilhar” — não deixando cair completamente por terra a possibilidade de o partido ir a votos sozinho nas próximas legislativas.

O Nuno “sem medo” e o tango de Telmo

O empenho maior da direção do CDS é, neste momento, não ficar amarrada a nenhuma decisão. Embora se perceba das declarações dos vários protagonistas pró-Melo com quem o Observador falou que, em princípio, a decisão favorita é, para já, continuar na AD, em política tudo muda muito depressa.

Desde logo, o próprio Nuno Melo garante que o “CDS não tem medo de ir a votos”. Em caso de necessidade, claro. O líder do partido fez até questão de lembrar o momento em que o CDS foi sozinho a votos depois de ter estado coligado no Governo com o PSD. “Eu, assim, de memória, lembro um momento em que José Manuel Durão Barroso foi primeiro-ministro, sai para a Comissão Europeia, Pedro Santana Lopes é primeiro-ministro, depois cai para que seja José Sócrates e tudo isto no tempo de um ano”, lembrou.

Telmo Correia ainda alertou para outra realidade que obrigada a este estado de prontidão para eleições do partido: o próprio PSD pode não querer continuar com o CDS. “Não há coligações, como dizia o Presidente Ronald Reagan, numa frase que é famosa de um filme, it takes two for tango. E, portanto, também aqui it takes two for tango. Não haverá acordo se não houver vontade dos dois em que esse acordo exista.” O secretário de Estado da Administração Interna deu ainda, tal como Nuno Melo e Paulo Núncio, o exemplo da Madeira em que CDS e PSD foram a votos sozinhos após uma rutura, mas fizeram uma coligação pós-eleitoral. “Quando teve que ir a votos sozinho, foi. O CDS foi votos agora sozinho na Madeira e está no Governo, com os seus próprios votos”, afirmou.

O que pediam os críticos

O primeiro dia esteve longe de ser um passeio no parque. As intervenções da Juventude Popular no Congresso deste sábado fizeram lembrar o famoso Congresso de Lamego onde o então líder da estrutura de jovens, Francisco Rodrigues dos Santos, apresentou também uma moção alternativa à da líder Assunção Cristas e distribuiu a sua defesa por dezenas de intervenções de jotas, no púlpito, que eternizaram os trabalhos.

Neste Congresso de Alcobaça, durante toda a tarde, foram dezenas os membros da JP que passaram pelo palco para defender a moção global da estrutura, que defende que o partido vá a votos sozinho nas próximas legislativas, desligando-se da AD. Não que fossem intervenções críticas da liderança de Nuno Melo, mas antes o atirar de uma pedra para a engrenagem já corroída do CDS. E de forma insistente, para marcar o ponto.

A líder da JP, Catarina Marinho, apresentou a moção “Tempo de Decidir” precisamente como uma posição que pretende “discutir estratégias e não lideranças”: “Não sou candidata a presidente do partido, não queremos acabar com a coligação que governa o país, não fazemos do PSD o inimigo.” O que pretendem então? Que o partido tenha “mais energia”, “audácia”, que seja a “grande casa das direitas”, que conte por si só entre esses eleitores, já que “a AD é muito boa para Portugal, mas um CDS-PP forte é ainda mais.”

O aparato dos jotas durante a tarde — que a cada elemento da estrutura que discursava gritavam do fundo da sala — quase abafou por completo a outra moção, a de Nuno Correia da Silva que disputa efetivamente a liderança com Nuno Melo. É ele o centrista que aponta para o risco de “diluição” do CDS na AD. Traçou como principal objetivo o de “recuperar as bandeiras do partido” por acreditar que “o CDS pode ser mais nesta coligação” que “só é útil quando nos faz maior. Quando nos dilui, ela só subtrai. Pode servir no presente, mas não serve no futuro.”

A quarta moção global com outra estratégia para o partido foi a de Hugo Gonçalves que defende que uma posição para o CDS em oposição ao que representam os seus concorrentes à direita: “Mais governativo do que a IL, mais institucional do que o Chega, mais identitário do que o PSD.” Não apresenta propriamente uma rutura face à atual liderança, mas antes uma recomendação para uma maior dedicação ao partido no sentido de conseguir uma maior influência territorial do CDS.

A dada altura da tarde, o presidente do Congresso, José Manuel Rodrigues, chegou a desafiar os autores destas três moções globais a abdicarem de as levar a votos, juntamente com a do lider. Num momento em que o partido procura dar um sinal de força para fora, a imagem de unidade interna é uma carta importante. “Apelo aos autores das outras moções para que o partido saia unido deste congresso a volta de Nuno Melo e de uma estratégia nova para o CDS”, disse o também líder do CDS-Madeira.

José Manuel Rodrigues apontava ao facto de neste Congresso não estar “em causa a liderança, mas pode estar em causa o afinamento o aprofundamento da estratégia política que tem vindo a ser seguida”. Até reconheceu que o partido “pode e deve ter mais autonomia estratégica” em relação ao Governo, seja o central, seja o regional, seja nas autarquias onde está coligado com o PSD. Mas — até ver — não comoveu os autores das moções alternativas à de Nuno Melo.