Não se trata de um “imaginário” revolucionário: é, de facto, a transição da ditadura para a democracia, entre vitórias e derrotas, lutas e conquistas, conflitos e acordos, que passa pelo lápis de João Abel Manta. Morreu esta sexta-feira, 15 de maio, aos 98 anos, o desenhador e cartoonista que marcou uma época nas páginas dos jornais, em ilustrações satíricas e interventivas que comentavam, interpretavam, e nalguns casos moldaram a vida política nacional. Os “bonecos políticos” de Abel Manta, sobretudo os desenhados em 1974 e 1975, ficaram para a história, não só como ponto alto da ilustração portuguesa como também, ou sobretudo, pelo seu papel de documentos do período do pós-25 de Abril.
Será porventura o seu maior contributo para para a posteridade; mas está longe de ser o único. Um multifacetado e premiado artista transdisciplinar, que além do cartoon foi também retratista, artista plástico, pintor, arquiteto, cenógrafo, entre muitas outras práticas que foi desenvolvendo ao longo de uma carreira que começou nos anos 50 e durou mais de sete décadas, até à sua morte.
Da sua autoria são, por exemplo, as famosas tapeçarias do Salão Nobre da Gulbenkian, o painel de azulejos da avenida com o mesmo nome ou o edifício da Associação Académica de Coimbra. No limite, poderá mesmo dizer-se que Abel Manta ajudou a transformar a própria face de Lisboa, com a sua participação determinante em projetos como o Conjunto Habitacional na Avenida Infante Santo, marcante do desenvolvimento urbano da capital.

Galardoado com vários títulos honorários – o maior dos quais a Ordem da Liberdade em 2004, por ocasião dos 30 anos do 25 de Abril – não é por isso de estranhar que tenha sido descrito ainda em vida como um dos mais importantes artistas visuais da cultura portuguesa na segunda metade do século XX. Um homem tão fortemente associado ao seu tempo que, ainda na recente edição do livro Geração de 70, no ano passado, uma sua ilustração foi escolhida para agraciar a contracapa. Um “historiador em movimento”, assim o considerou o Presidente da República, de um momento crucial na vida política do país.
A boémia e o animal político
Filho de Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, ambos pintores conceituados da sua época, a infância e a juventude formaram-lhe desde cedo a consciência estética e política. Os convívios na casa familiar com intelectuais como Aquilino Ribeiro e viagens frequentes pela Europa, a países como Inglaterra, França e Itália, abriram os horizontes do jovem João Abel: “A partir dos 11, 12 anos, comecei a distinguir o que era bom do que era mau”, assim, simples, recordou recentemente.
Logo no final dos anos 40, enquanto cursava arquitetura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, envolve-se em movimentos de resistência democrática ao regime de Salazar, integrando entre outros o MUD — Movimento de Unidade Democrática, ao lado de figuras como Mário Soares, Salgado Zenha e Mário Sacramento. Auto-descrito “guerrilheiro” e “animal político”, por estas e outras associações veio a ser preso em Caxias.

Terminado o curso e nos anos iniciáticos de atividade, é responsável, ao lado do mestre, Alberto Pessoa, e de Hernâni Gandra, pelo Conjunto Habitacional na Avenida Infante Santo, projeto que à época aliava forma e função – a necessidade de resposta habitacional para uma nova Lisboa em expansão demográfica e um sentido estético já para época apurado, constituindo um dos exemplos mais emblemáticos do novo urbanismo moderno no Portugal de 50 e 60.
O espírito polímata e de intervenção social, contudo, depressa levá-lo-ia para longe da arquitetura, abraçando progressivamente o desenho e as artes plásticas na década de 60 (um dos seus trabalhos gráficos, O Morteiro, é inclusivamente premiado em Leipzig, na então RFA, em 1965). Na paisagem política sopravam já os ventos da mudança: Salazar cairia da cadeira em 68, Caetano seguir-se-ia na liderança do país e o espírito de crescente descontentamento com a repressão, a pobreza, a Guerra Colonial – o “estado a que chegámos”, resumiria Maia – fizeram destes tempos férteis para um artista cada vez mais seguro de si e da sua voz.
Fazer o que não foi feito
Desde pequeno hábil retratista de amigos e gente próxima, o neorrealismo e a vontade de mostrar o mundo tal como o via foram sempre pedra de toque no desenho de João Abel Manta. Ainda na década de 60, e sobretudo a partir dos anos 70, o seu trabalho começa a ter destaque em vários periódicos da época, como o Almanaque, o Diário de Lisboa e o Diário de Notícias.
O Regresso da Velha aponta baterias diretamente à censura da imprensa e às promessas não cumpridas de abertura da chamada “Primavera Marcelista” (curiosamente é publicado em maio de 1969, em plena revolta estudantil). Foi o primeiro de vários “bonecos políticos” que assinaria nos anos seguintes, apontando baterias diretas às instituições e figuras do Estado Novo de forma inaudita até ali.

Um seu amigo e colega da altura, o jornalista e escritor José Cardoso Pires, diria mais tarde que “nenhum pintor de aqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante”. João Abel Manta, por sua parte, foi mais modesto na própria apreciação: “Fiz determinadas coisas em determinadas alturas, não por ser um tipo excecional, mas porque não havia mais ninguém a fazê-las”. Uma frase que, ainda assim, trai um certo sentido de missão – sentido esse que só se viria a agudizar na transição para o regime democrático.
“Fiquei tão entusiasmado que nunca mais parei – comecei, nesse mesmo dia, a fazer tantos bonecos que até sobravam para o dia seguinte!”. É desta forma que o artista recordava a Baptista-Bastos a sua experiência do 25 de Abril de 1974, quando a ditadura caiu e a Revolução saiu à rua. Daí em diante Abel Manta assumiria um papel fundamental na dinamização cultural da população em torno do Movimento das Forças Armadas e da agenda reformista do processo revolucionário.
https://observador.pt/2022/08/12/joao-abel-manta-a-volta-do-filho-prodigo/#
A simplicidade dos desenhos, a sua urgência e natureza imediata, ainda hoje formam a base de boa parte do imaginário popular sobre este período recente da história nacional. Ainda hoje, obras como Um problema difícil, Natal 1974 ou MFA, Povo / Povo, MFA servem como introdução, em livros de história e manuais escolares, ao tipo de intervenção política presente na imprensa da época, participante ativa na construção do Portugal democrático.
Um artista justiceiro
Com o dissipar do PREC e do fervor revolucionário, contudo, a sua atividade interventiva também foi diminuindo. No período que sucedeu ao 25 de novembro, vai para Londres, onde permanecerá nos anos seguintes. Reemergiu em 1978, com a publicação de Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, livro de desenho e também autobiografia de uma vida passada em ditadura e dos fantasmas que dela ainda pairam – um ato de exorcismo que o próprio viria a reconhecer: “a partir dali nunca mais sonhei com isso”.

A partir da década de 1980, o cartoon político foi cedendo espaço à colagem e à pintura, práticas que nos seus anos mais tardios assumiram centralidade. A sua obra continuou a ser reconhecida pelas gerações seguintes, desdobrando-se em condecorações, epítetos e várias exposições coletivas e individuais, em nome próprio e em coletivo.
Pelo meio, manteve a relação com a imprensa – foi um dos fundadores do Jornal de Letras, responsável pela identidade visual e ilustrações de vários números da publicação. E nunca pôs de lado a preocupação social e a crença na arte como forma de intervenção, como dizia recentemente num documentário de vida produzido para a televisão: “Tenho a impressão de que, se os homens fossem sempre justiceiros, o mundo seria um sítio diferente”. Em 2022 a Tinta da China recuperou as Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar e, um ano depois, a mesma editora publicou Cartoons 1969-1992.