Nuno Melo entrou no seu terceiro congresso como líder do CDS pressionado por um adversário interno que quer o partido com mais autonomia e menos “diluído” na AD, a JP a defender uma ida a votos sozinho e algumas vozes a falarem até na “fusão” com o PSD. A todos disse que a discussão “não faz sentido nenhum” e garantiu que o partido “não é muleta” do PSD.
Na sua primeira intervenção no Congresso de Alcobaça, o líder do partido apresentou-se “disponível” para continuar em funções, desde que com as suas “ideias” e o seu “caminho”. E disso não faz parte abrir uma discussão interna sobre se o CDS deve ir sozinho ou em coligação a umas próximas legislativas.
“Que sentido faria estar agora a vincular o país a uma estratégia para daqui a três anos no que tem a ver com o CDS. Isto não me faz sentido nenhum”, assumiu na tentativa de travar uma ideia que paira sobre este Congresso — seja através de uma das moções em debate, a da JP, ou seja através das tiradas do adversário interno, Nuno Correia da Silva, sobre a “diluição” do partido na AD.
“Vamos vincular o partido a três anos numa outra estratégia quando só levamos um de governo e a nossa luta deve ser pelo sucesso do governo. Isto faz sentido?”, questionou mais uma vez o líder para garantir que esse não será o seu “caminho”.
O tema centrou boa parte da sua intervenção, dedicada sobretudo a identificar na governação as “marcas” do CDS, para dar provas da “participação activa”, como lhe chamara antes Paulo Núncio, do partido na AD. Exemplificou com o “investimento em todos os domínios” da Defesa, a sua pasta no Governo; com as políticas de segurança; com a influência do secretário de Estado Telmo Correia; com o “combate aos fluxos migratórios descontrolados, numa tragédia trazida pelo PS”.
Usou a expressão usada por Correia da Silva, da “diluição”, para dizer que é “profundamente injusta para quem todos os dias dá tudo de si para afirmar o CDS num contexto que é difícil”. E lembrar mesmo que “o CDS não se notava quando não estava na Assembleia da República”, “quando não estava num governo” e “quando não podia, através da política e do partido, transformar a vida das pessoas”.
Reclamou o peso do partido que lidera na derrota do “socialismo para o espaço político de centro-direita” e repetiu de forma insistente que o CDS não acabou. “Estamos aqui”, afirmou no palco do pavilhão Panorama. E aproveitou para explicar o posicionamento do seu CDS face à concorrência, ou os “muitos outros que gostariam de substituir o CDS na AD e estão cheios de vontade de substituir o CDS na AD”.
À concorrência da Iniciativa Liberal, “do liberalismo dogmático que acha que o mercado resolve tudo e deixa as pessoas pelo caminho”, contrapôs um “liberalismo social e aberto também a correntes conservadoras”. E à concorrência do Chega, a que se referiu sempre como “populismos, contrapôs uma postura “confiável” e “respeitável”. “É um partido que traduz a sua utilidade numa direita que se soma”, contabilizou.
E ainda trazia contas para acertar noutra rixa política antiga — mas essa interna — quando atacou os que querem fazer crer que “a casa natural dos democratas cristãos parece que é o PS”. “Por acaso alguns já tiveram responsabilidades no passado”, assinalou sem dizer nomes, mas um que encaixa é o de Basílio Horta, um dos fundadores do CDS que apoiou várias candidaturas socialistas em eleições recentes, tentando desviar o voto dos democratas-cristãos para o PS.
“A única casa dos democratas cristãos em Portugal é o CDS, não há outra, só o CDS representa a democracia cristã em Portugal”, reclamou Nuno Melo numa altura em que o espaço à direita está sobrelotado e, no partido, há até quem defenda que na marcação de espaço o partido deva demarcar-se do parceiro de coligação. Mas o líder considera que essa conversa é ir no sentido errada e avisou logo ainda mesmo antes de entrar no Congresso. Em declarações aos jornalistas, à porta da sala, Melo disse que “o CDS não vive a combater o parceiro numa coligação que se chama AD.
E ao mesmo tempo pede que não se apouque o papel do CDS na coligação, sob pena de deixar ao parceiro “um património que é de ambos” e onde aponta como bandeiras o “crescimento económico”, “os maiores aumentos de salários da OCDE” ou “taxas de emprego historicamente altas, praticamente”.
Garantiu a quem pede uma autonomia eleitoral, que o ” CDS não tem medo de ir a votos” e se achar que é melhor assim, é assim que irá às próximas eleições. E fez o auto-elogio do seu trabalho neste últimos anos de liderança, com pontadas que pareceram dirigidas aos muitos pesos pesados do partido que não vêm a este Congresso. Falou ao que “deitaram a toalha ao chão, se fizeram mortos e assobiaram para o lado” e deu “mérito a quem está na sala”. E não estavam muitas das grandes figuras do passado recente.