De um lado as melhores equipas do continente europeu e um encaixe financeiro importante de muitos milhões. Do outro a segunda linha e um troféu internacional que será, em teoria, mais fácil conquistar. Era isto que estava à mercê do Benfica — e do Sporting — à partida para o último jogo da temporada. Afinal, 33 jornadas não foram suficientes para os rivais se largarem numa luta que chegou a ser pelo título de campeão nacional, mas que acabou por se resumir ao segundo lugar e à entrada nas pré-eliminatórias — no mínimo — da Liga dos Campeões, num final atípico, em que as equipas que se encontram separadas pela Segunda Circular trocaram entre si nas derradeiras quatro jornadas. O match point era claro e estava do lado leonino, que recebia o Gil Vicente com mais dois pontos com as águias que, depois de terem empatado com Famalicão e Sp. Braga, estava obrigada a vencer o Estoril no António Coimbra da Mota.
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Para lá de todo o simbolismo a nortear este jogo, que foi o último da carreira de Pizzi, que se notabilizou ao serviço dos encarnados e foi acarinhado pelos estorilistas na fase final do seu percurso no futebol profissional, o tema da semana foi José Mourinho, com a ida para o Real Madrid a ser dada praticamente como certa pela imprensa espanhola. Ainda assim, o treinador setubalense confirmou na sexta-feira que recebeu a proposta de renovação do clube da Luz, garantindo que só a vai analisar a partir deste domingo, quando a época já estiver terminada. Antes, o Special One tinha que fazer um autêntico milagre, como o próprio apelidou, para ainda conseguir chegar ao segundo lugar, sendo certo que não dependi de si e que a margem de erro era nula. Se o futuro do treinador estava mergulhado numa autêntica incógnita, o mesmo se aplicava ao Benfica.
“Quem quis entender o significado do milagre de ficar no segundo lugar, percebe o que quero dizer. Acredito que podemos ganhar ao Estoril, como acreditava que podíamos ganhar ao Famalicão e ao Sp. Braga, dois jogos em que fizemos de tudo para ganhar. Só não ganhámos porque não aconteceu o milagre. Vamos fazer um bom jogo com o Estoril, que é uma equipa difícil, e vamos jogar o suficiente para ganhar. Depois há outro jogo, como houve em Vila do Conde, e não vai ser fácil. Mas vamos dar tudo, como temos feito desde o princípio da época. Orgulho-me de ser treinador do Benfica a cada dia que o sou, de mim próprio por dar o máximo em cada dia que sou treinador do Benfica e de muita coisa que foi construída aqui dentro. Não vou estar a esmiuçar ou a definir estes pontos de orgulho. Ficará a frustração de o Benfica, neste momento, precisar de milagres para conseguir coisas grandes. Não deveria ser assim. Devia ser o curso natural das coisas, com o mérito para quem trabalha”, assumiu o Special One.
Ficha de jogo
Estoril-Benfica, 1-3
34.ª jornada da Primeira Liga 2025/26
Estádio António Coimbra da Mota, no Estoril (em Cascais)
Árbitro: Miguel Nogueira (AF Lisboa)
Estoril: Joel Robles; Ricard Sánchez, Felix Bacher, Ferro (Kévin Boma, 46’), Xeka (Nodar Lominadze, 78’), Gonçalo Costa (Pedro Amaral, 46’); Jordan Holsgrove, Pizzi (Rafik Guitane, 57’), João Carvalho, André Lacximicant (Peixinho, 68’); Yanis Begraoui
Suplentes não utilizados: Diogo Dias; Alejandro Marqués, Jan Montes e Luís Gomes
Treinador: Ian Cathro
Benfica: Anatoliy Trubin; Alex Bah (Amar Dedic, 68’), Tomás Araújo, Nico Otamendi, Samuel Dahl; Richard Ríos, Fredrik Aursnes (Manu Silva, 79’); Gianluca Prestianni (Dodi Lukebakio, 68’), Rafa Silva (Leandro Barreiro, 68’), Andreas Schjelderup (Bruma, 84’); Vangelis Pavlidis
Suplentes não utilizados: Samu Soares; António Silva, Franjo Ivanovic e Giorgi Sudakov
Treinador: José Mourinho
Golos: Ríos (7’), Bah (14’), Rafa (16’) e Peixinho (90+1’)
Ação disciplinar: amarelo a Gonçalo (22’), Bah (47’), Lacximicant (52’), Guitane (65’) e Prestianni (68’)
Com os seus objetivos consumados, o Estoril chegou a esta última jornada sem qualquer pressão e à procura de terminar a época da melhor forma, ainda que não vencesse há sete jogos. A missão era ainda mais difícil para os canarinhos se se tivesse em conta o historial frente aos encarnados: não ganhavam há 50 jogos e a última vitória no tempo regulamentar datava de… 1950. “É o jogo que vai fechar duas temporadas e talvez tenhamos de fazer uma pequena pausa para ver como é que vamos para a frente, como é que podemos entrar nessa próxima fase de crescimento do clube e da equipa. Não estou aqui para repetir o mesmo trabalho. Quero estar aqui e ajudar as pessoas a levar isto para a frente, para melhorar. Temos de nos sentar e definir muito bem como e se conseguimos fazer isso. Sabemos que vai ser o último momento da carreira do Pizzi. Foi uma carreira incrível, muito bonita e com uma enorme qualidade. Tenho dificuldades em falar dele como jogador ou como pessoa sem ter um sorriso na cara, porque dá-me uma grande alegria ver a bola sair do pé dele, ver a felicidade, a alegria, a paixão e a competitividade que traz todos os dias”, revelou Ian Cathro.
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Para a visita à Amoreira, José Mourinho fez quatro alterações no onze do Benfica, com Alex Bah, Nico Otamendi, Richard Ríos e Vangelis Pavlidis a regressarem em detrimento de Amar Dedic, António Silva, Leandro Barreiro e Franjo Ivanovic. No Estoril, a grande novidade de Ian Cathro foi a presença de Pizzi no meio-campo, no dia em que o internacional português vai terminar a sua carreira. Face ao último jogo, Gonçalo Costa e André Lacximicant também são titulares, saindo Antef Tsougui, Pedro Amaral e Rafik Guitane. Nesse sentido, o treinador escocês manteve a linha de cinco na defesa, baixando Xeka para junto dos centrais Ferro e Felix Bacher, ainda que o arranque da partida tenha trazido um Estoril muito baralhado e a comprometer na defesa.
Nesse sentido, a primeira ocasião de perigo surgiu logo no primeiro minuto, com Pavlidis a ganhar um canto, que foi cobrado por Gianluca Prestianni, mas o cabeceamento de Bah, que apareceu completamente sozinho ao segundo poste a cabecear para fora (1′). Logo a seguir, Ríos começou e concluiu da melhor forma uma grande jogada vermelha e branca, que teve o argentino a virar o jogo para Andreas Schjelderup que, depois de ganhar espaço na área, cruzou tenso para o desvio do colombiano (7′). Prestianni continuou a abrir o livro e, depois de ultrapassar três defesas canarinhos, isolou-se, mas Joel Robles fechou rapidamente a baliza e impediu o golo com uma grande defesa (10′). Ainda assim, o Benfica continuou com a corda toda e, depois de um canto na esquerda, Tomás Araújo desviou para o segundo poste, onde Alex Bah apareceu completamente sozinho a aproveitar a passividade da defesa do Estoril para dilatar a vantagem (14′). No lance seguinte, Rafa aproveitou novo lance em que a defesa adversário continuava a dormir e fez o 0-3 com um remate rasteiro, de pé esquerdo, desde a entrada da área (16′).
A partir daí, os encarnados abrandaram o ritmo, mas mesmo assim continuaram a ter oportunidades, com um mão corte de Gonçalo Costa a deixar Ríos completamente solto no coração da área, mas o remate em vólei do colombiano, de primeira, acabou em mais uma parada do espanhol (27′). A primeira oportunidade da equipa da Linha saiu dos pés de Yanis Begraoui, que apareceu à entrada da área a desferir um remate forte para defesa a dois tempos de Anatoliy Trubin (33′). Nesse sentido, a vitória das águias estava assegurada ao intervalo, ao passo que a presença na Liga Europa era praticamente uma certeza (0-3).
Perante as fragilidades na defesa, Ian Cathro tentou retificar ao intervalo, colocando Kévin Boma e Pedro Amaral nos lugares de Gonçalo e Ferro. Ainda assim e apesar de até ter começado com a bola, o Estoril continuou por baixo e, logo aos 14 segundos, Rafa Silva apareceu na pequena área a cabecear para uma grande defesa de Joel Robles (46′). Pouco depois, Gianluca Prestianni apareceu com perigo na área adversária, onde desferiu um remate cruzado na passada que saiu perto do poste mais distante (57′). Cumprida a devida homenagem a Pizzi, que cedeu o seu lugar a Rafik Guitane, os canarinhos ficaram perto de reduzir, com Yanis Begraoui a desviar para a baliza, valendo um corte decisivo de Samuel Dahl após defesa incompleta de Anatoliy Trubin (60′). As primeiras mudanças de José Mourinho recaíram em Amar Dedic, Leandro Barreiro e Dodi Lukebakio, que entraram para os lugares de Alex Bah, Rafa e Prestianni, com Cathro a responder com Peixinho no lugar de André Lacximicant.
O avançado estorilista acabou por mexer com o jogo à entrada para a fase final e, depois de receber de João Carvalho, apareceu na cara de Trubin a desviar para fora (71′). Na resposta, Lukebakio desferiu um remate forte de fora da área para defesa apertada de Joel Robles (73′). Na outra abaliza, Ricard Sánchez cruzou para nova entrada de Peixinho, que voltou a falhar o alvo (73′). O avançado belga voltou a responder à ação do jovem português, desferindo um remate em arco à entrada da área que foi para fora (74′). Já com Nodar Lominadze no lugar de Xeka, bem como de Manu Silva no de Fredrik Aursnes e de Bruma no de Andreas Schjelderup, os encarnados continuaram com o jogo bonito à procura do quarto golo, que Richard Ríos desperdiçou na conclusão de uma jogada à futsal (85′). Ainda assim, o golaço acabou por aparecer na outra baliza, com Peixinho a receber entrelinhas e a desferir um grande remate que entrou no ângulo superior mais distante (90+1′). Feitas as contas, o Benfica despede-se da temporada com o terceiro lugar no Campeonato (1-3).