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(A) :: Suíça vai abrir arquivos secretos sobre Josef Mengele, o "Anjo da Morte" nazi

Suíça vai abrir arquivos secretos sobre Josef Mengele, o "Anjo da Morte" nazi

Apesar da resistência das autoridades, documentos já tinham sido consultados há 25 anos. Agora, um historiador levou o caso a tribunal, determinado a cumprir a promessa de desvendar mitos.

Mariana Furtado
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Com o objetivo de investigar a alegada passagem de Josef Mengele pela Suíça em 1961 — país onde não chegou a ser detido —, o historiador Gérard Wettstein solicitou, no final de 2025, o acesso aos documentos guardados nos Arquivos Federais sobre o médico nazi que os prisioneiros de Auschwitz apelidavam de “Anjo da Morte”. “Há tantos mitos em torno de Mengele – especialmente sobre sua possível estadia na Suíça em março de 1961”, afirmou o historiador à SRF, sublinhando que “as teorias da conspiração que circulam precisam de chegar ao fim”.

Até então, as autoridades suíças tinham recusado sucessivos pedidos de historiadores para aceder ao material. A justificação apresentada era a de que os arquivos estavam protegidos devido a “interesses de segurança pública” e à “proteção dos direitos pessoais de terceiros”.

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Embora o dossier devesse permanecer lacrado, sob o sigilo do serviço secreto suíço (NDB), até 2071 — ano em que o investigador completaria 110 anos —, a persistência de Wettstein foi recompensada com a recente validação do seu pedido. Durante os meses em que aguardou pela decisão do Governo, a impaciência crescente não lhe roubou o sentido de humor: “Se for preciso, esperarei até aos 110 anos”, afirmou, segundo o NZZ.

Perante a recusa das autoridades, Wettstein recorreu para o Tribunal Administrativo Federal em St. Gallen. Durante a espera, Wettstein aprofundou as suas pesquisas e fez uma descoberta relevante: uma resolução do Conselho Federal de 2001 que estipulava que os arquivos analisados pela Comissão Bergier deveriam ser públicos. Além disso, confirmou que a própria comissão, criada em 1996 para examinar a relação da Suíça com as vítimas do regime nazi, já tinha consultado o arquivo Mengele.

Apesar disso, o Governo tinha decidido restringir o acesso a este material específico em 2001. Mas a conclusão era óbvia, escreve a publicação: o Governo federal já deveria ter disponibilizado o dossier há muito tempo, tanto a Wettstein como aos outros interessados.

Recentemente, o serviço secreto suíço mudou de posição, anunciando que irá abrir, “no futuro”, os arquivos sobre o “Anjo da Morte” sob “condições ainda a serem definidas” (já que o dossier “continua a conter informações que merecem proteção”). A justificação para esta abertura prende-se com uma “nova situação” — que, na prática, não é nova. A mudança de postura atual deve-se a um recurso pendente contra a negação de um pedido de acesso. Neste contexto, o órgão realizou “diversas investigações” e acabou por concluir que existe, afinal, fundamento legal para permitir a consulta dos documentos.

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Josef Mengele foi um médico que serviu na Waffen-SS e foi colocado no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia ocupada. Ali, o médico conhecido pelo epíteto de “Anjo da Morte” selecionava prisioneiros, sobretudo crianças e gémeos, para experiências pseudocientíficas sádicas, antes de os enviar para as câmaras de gás.

Usando uma identidade falsa, conseguiu obter documentos de viagem da Cruz Vermelha no consulado suíço em Génova, o que lhe permitiu fugir para a América do Sul, onde viveu décadas incólume. Acabou por morrer afogado após ter sido vítima de um AVC, enquanto nadava nas águas da praia da Enseada, no Brasil, em 1979.