Não foi por acaso, também não foi “pensado”, surgiu como uma espécie de conjugação cósmica. A caminho da melhor primeira volta de sempre, com 49 pontos em 51 possíveis e apenas quatro golos sofridos contra um total de 36 marcados, a administração da FC Porto SAD sabia que era necessário voltar a mexer no mercado de inverno para promover equilíbrios que seriam determinantes para a segunda metade do Campeonato. Um deles, na sequência da grave lesão contraída por Nehuén Pérez no dia em que Kiwior foi pela primeira vez titular ao lado de Jan Bednarek no eixo central recuado, passava por um defesa. Havia um perfil, havia uma ideia, havia várias possibilidade. Várias e mais uma, que surgiu quando o telefone de Villas-Boas tocou.
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O FC Porto queria, Thiago Silva sonhava, o contrato não demorou mais do que um par de dias para “nascer”. Sabendo da existência de mais clubes europeus interessados no experiente central de 41 anos, houve uma autêntica corrida a partir do momento em que os representantes do jogador colocaram em cima da mesa a possibilidade de regresso ao Dragão. Duas décadas depois, o brasileiro regressava a uma casa onde deixara história por escrever na sequência de uma tuberculose que travou o crescimento que estava a ter na equipa B rumo ao conjunto principal antes de ser vendido ao Dínamo Moscovo, em 2005. A partir daí, fez história. Fez-se história. Ainda voltou ao Brasil mas a segunda viagem para a Europa colocou-o entre os eleitos com mais de 30 troféus conquistados ao mais alto nível entre Milão, Paris, Londres e Rio de Janeiro.
Ganhou Liga dos Campões, Mundial de Clubes e Supertaça Europeia pelo Chelsea, colecionou um total de 23 títulos no PSG entre Ligue 1, Taça de França, Taça da Liga e Supertaça, tinha conquistado antes uma Taça do Brasil pelo Fluminense e uma Serie A e uma Supertaça pelo AC Milan. Tudo, claro, entre mais de 100 jogos feitos pelo Brasil, com uma medalha de prata e outra de bronze em Jogos Olímpicos antes de vencer a Taça das Confederações e a Copa América. Aos 41 anos, ainda havia espaço para mais e sagrou-se campeão em Portugal, com 575 minutos em oito jogos na prova que lhe permitiram bater o recorde de Pepe nos azuis e brancos, ficando na história como o jogador mais velho de sempre a ganhar o principal título nacional.
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Se a chegada pouco depois de ter fechado o terceiro capítulo pelo Fluminense tinha impressionado, se a forma como foi apresentado numa parceria entre os dragões e Fabrizio Romano conseguiu bater recordes pela ideia com tanto de inusitada como de vencedora, se escolher o número 3 na camisola que outrora tinha pertencido a Pepe já indiciava algo de bom, a realidade superou as melhores expetativas – até do próprio.
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“As pessoas são fortes quando precisam ser fortes, não é? Aí percebemos o quão fortes somos. Porquê? Porque tive uma temporada muito difícil no Fluminense, certo? Perdemos a qualificação para a final contra o Vasco da Gama, houve aquela coisa toda, sem saber o que ia acontecer no futuro. Entrei em mini férias de dez ou 11 dias parado, sem fazer nada, para descansar um pouco. Comecei a treinar depois do 13º dia. Fiz uma semana e meia de ginásio, uma corrida na passadeira. Vim para o FC Porto, cheguei aqui, fomos para o Algarve ficar seis dias. Fiz seis dias de treino com o grupo. E a minha estreia é o quão bem me sinto aqui”, recordou o central brasileiro em declarações à TNT Sports, após o triunfo que carimbou o título.
“Realmente tinha medo, aquele friozinho na barriga. Será que estou preparado? Não fiz nada de especial. Com toda a tua experiência? Não fiz nada de especial. Mas a experiência deu-me condições para jogar um jogo de alto nível, de uma maneira inteligentíssima, marcando jogadores incríveis do Benfica, de uma maneira eficaz. Mas vou dizer-te, entrei em campo e pensei, será que vai dar certo? Fica aquela desconfiança mas a cabeça ainda pensa bem. Às vezes não precisas de correr tanto, precisas só de cortar alguns espaços, ser inteligente para conseguir fazer. Acho que a minha carreira me deu isso, um pouco de inteligência para pensar nos atalhos”, acrescentou o central, revelando parte dos segredos para o sucesso.
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“Tive de passar uma história fora para fechar este ciclo, num dos momentos mais importantes na temporada tive uma perda importante, a minha mãe. Ela viu praticamente toda a minha carreira, os 32 títulos e praticamente no último, porque nunca sabemos o que vai acontecer, infelizmente ela não pôde estar. Mas tenho a certeza de que está feliz, onde quer que esteja, pela minha carreira, e pelo homem e profissional responsável que sou. Hoje há uma mistura de sentimentos e é por isso que estou mais acanhado, não vibrando tanto, mas tenho a certeza de que fiz o meu melhor até aqui e continuo comprometido com a causa e com a instituição. Saí daqui sem saber se vou voltar a jogar futebol [após ter contraído tuberculose, em 2005] e fechar o ciclo desta maneira, para mim é um momento único na minha vida”, recordou, numa fase em que alcançou também outro marco na carreira, com a presença no 1.000.º jogo oficial da carreira.
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Mas havia mais a passar pela cabeça nesse momento. Uma espécie de cereja no topo do bolo, que deixara de depender de si, de Francesco Farioli ou do FC Porto. “O desejo é claro mas agora vamos descansar, pensar um pouco mais no que queremos fazer no futuro. Temos ainda dois jogos para tentar estar em condições de representar o Brasil no Mundial. Estou disponível e o mister [Carlo Ancelotti] conhece-me bem o suficiente. Não é forçar mas estou a tentar aproveitar o momento da melhor forma. A minha carreira foi linda e se tiver de disputar mais um Mundial, vou, se não, agradeço, porque passei momentos incríveis. Tive oportunidade de disputar quatro Mundiais, sei do que falo. Se ele achar necessária a minha presença, estou disponível. O futebol que tenho feito dá-me condições de estar nessa expectativa mas se não for convocado, é seguir a vida e faz parte. Os ciclos acabam mas a vida tem de seguir e procuramos fazer o nosso melhor onde quer que estejamos. Se tiver de ser aqui, será, se tiver de parar e ser num pós-carreira noutra função… A vida tem mesmo de continuar”, comentou Thiago Silva, apontando para aquele que é agora o seu maior objetivo.
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A luz, seja mais ou menos ao fundo do túnel, existe. Em entrevista ao The Guardian, Carlo Ancelotti admitiu a possibilidade de recuperar o central. Mais tarde, o facto de constar na lista de 55 pré-convocados para o Mundial sendo aquele que há mais tempo não representa o Brasil (curiosamente desde o Mundial de 2022, no Qatar) alimentou ainda mais essa hipótese. Confirmações, para já, nem uma. No entanto, percebe-se que Thiago Silva está à espera dessa decisão para também ele tomar a sua decisão em termos futuros.
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Para já, existem dois cenários possíveis em cima da mesa: jogar mais um ano ou terminar a carreira como jogador profissional. Dentro da última hipótese, a imprensa brasileira e inglesa tem falado nos últimos dias da possibilidade de poder reforçar a estrutura da formação do Chelsea – esteve pela última vez em Stamford Bridge há duas semanas, na derrota dos blues frente ao Nottingham Forest –, com essa particularidade de ter os filhos a jogar nos londrinos (e Isago, o mais velho que também é defesa, já assinou contrato profissional). O ponto principal da decisão está nas mãos de Carlo Ancelotti, selecionador que tem essa complicada tarefa de levar apenas 26 jogadores para os EUA entre um leque que mistura experiência e juventude.
Elogios dos atuais companheiros, esses, não faltam. E Gabri Veiga foi mais um exemplo. “É um prazer jogar com ele porque foi um tipo com quem cresci, um tipo incrível. Começando pela sua humildade, pela sua liderança, só pelo andar dele já sabes o líder que é, o respeito que todos têm por ele. É mais um ser humano incrível, poderia ter chegado aqui e dizer quem é este ou quem é aquele? Desde o primeiro momento que foi o contrário, sempre a ajudar, preocupando-se com todos, a rir. Foi uma grande contratação do presidente, esperemos que fique mais tempo connosco. Está a ser um autêntico prazer compartilhar com ele, com um tipo que cresci, um dos melhores centrais que vi”, destacou em entrevista ao jornal O Jogo. No entanto, e no dia em que ficou na bancada perante o regresso aos eleitos de Nehuén Pérez, continuam as incógnitas em relação a uma continuidade no Dragão. Aqui, o FC Porto quer mas o jogador… logo se verá.