Este sétimo encontro entre Trump e Xi não trouxe grandes resultados, mas ainda assim, é um marco que nos permite medir o estado daquela que, como Trump afirmou nesta viagem a Pequim, é realmente a relação bilateral mais importante da política global, bem como avaliar o estado da ordem global, e as implicações para nós por cá. A caminho de Pequim o chefe da diplomacia norte-americana, Marco Rubio ainda teve tempo de elogiar Portugal, e, com isso, paradoxalmente, criar problemas a Paulo Rangel.
Trump também foi à China, mas não é Nixon
O Presidente Richard Nixon foi, em 1972, o primeiro líder norte-americano a visitar a China depois da tomada do poder por Mao Zedong em 1949. Foi o início espetacular da diplomacia presidencial nas relações entre a China e os EUA, que resultou em mais de 30 cimeiras bilaterais – os campeões do lado americano foram Obama e Trump com sete, seguidos de Clinton com três. Do lado chinês vence Xi, com mais de 20 – ajuda estar no poder desde 2012. A cimeira de 1972 entre Nixon e Mao Zedong foi decisiva para quebrar o gelo, pôr de lado décadas de desconfianças, e garantir o arranque de um processo pragmático de normalização de relações entre a China e os EUA, quebradas desde o final da guerra civil chinesa, em 1949. Washington tinha apoiado o lado derrotado, liderado por Chiang Kai-shek, e protegeu a sua retirada para o santuário insular da Formosa ou Taiwan.
Apesar de Trump tentar vender qualquer cimeira sua como um grande marco histórico, é evidente que estamos longe disso. Trump talvez se aproxime de Nixon na tendência para abusar do poder presencial, mas não se lhe compara em experiência diplomática ou visão estratégica. Sobretudo a China mudou muito desde 1972. Em 1972 a economia norte-americana era mais de 10 vezes maior do que a economia chinesa, que sobrevivia no limiar da subsistência e tinha um impacto global mínimo depois de décadas a sofrer o pior da violência e desgoverno comunista. Em 2025, depois de décadas em que a economia chinesa adotou o modelo capitalista com zelo, mesmo em valores nominais, a China andará pelos 65% da economia dos EUA, e em paridade de poder de compra já a ultrapassa como a maior economia do mundo.
A China domina setores chave na geoeconomia global, como as ditas terras-raras, cada vez mais indispensáveis para a maioria da produção tecnológica avançada, onde controla 70% da produção e ainda mais da refinação. Um segundo exemplo, vital para o comércio e a projeção de poder militar, é o facto de a China deter mais de 50% do total global de construção naval. Em 1972 a China praticamente não tinha uma marinha e as suas exportações eram insignificantes. Em 2025 a China é o principal parceiro comercial da maioria dos países do Mundo. A China tem, hoje, o maior número de navios de guerra do Mundo: segundo fontes norte-americanas, andam em torno dos 395, face aos 295 da marinha dos EUA. É verdade que em tonelagem a marinha dos EUA ainda domina, o que significa que muitos desses navios de guerra chineses são relativamente pequenos e limitados como instrumentos de projeção global de poder, mas são mais do que suficientes para as prioridades estratégicas chinesas de negar acesso seguro de uma potência hostil à sua costa e região, bem como para exercer coerção estratégica sobre os países vizinhos e Taiwan.
Trump muda de tom face a Pequim
O presidente dos EUA pode não ter a craveira intelectual de um Nixon, mas percebe de relações de poder. Por isso, tem uma evidente admiração por grandes líderes de grandes ditaduras que concentram poder sem limites. Trump disse de Xi: “a imprensa odeia que diga que Xi é brilhante, mas é brilhante. Ele controla com mão de ferro 1,4 mil milhões de pessoas, isso significa que é brilhante, gostemos ou não do facto.” Trump também tende a respeitar quem lhe faz frente com sucesso – e Xi fez-lhe frente com êxito no ano passado, forçando-o a recuar na guerra comercial através da restrição às exportações de terras-raras.
Nestes dez anos, desde 2017, só se reforçaram as vantagens relativas da China.
Trump, por seu lado, tem acumulado fracassos, nomeadamente no controlo do défice externo e da inflação. Este facto e as suas derrotas jurídicas reduzem a sua margem de manobra ao nível das tarifas. Pior, meteu-se num beco sem saída no estreito de Ormuz com um custo enorme, económico e político. A China é talvez o único país com alguma capacidade de pressão sobre o Irão: Pequim compra 90% do petróleo iraniano.
O resultado é uma mudança radical na postura de Trump face à China nestes dez anos. Em 2019 era um falcão que afirmava “não podemos permitir que a China continue a roubar o nosso país”. Nesta cimeira de maio de 2026 passou a pomba ao afirmar que “temos um futuro fantástico em conjunto”. Claro que com Trump tudo pode sempre mudar, mas para já é o que temos. E para quem prefere factos a palavras, basta ver os resultados modestos desta cimeira. No essencial, a promessa da continuação da dita trégua comercial e vagas promessas chinesas de compra de soja e aviões Boeing, ainda que bem menos do que os 500 jatos que apareciam nas especulações iniciais. Em todo o caso, esses “beans and Boeings” são uma irrelevância económica para estas duas enormes economias, mas uma habilidade diplomática chinesa para permitir a Trump declarar vitória sem ganhar grande coisa. A China considera que já não é necessário ou útil fazer grandes cedências aos EUA de Trump.
Trump, construtor da nação chinesa
Essa alcunha tem-se tornado viral nas referências a Trump nas redes sociais na China. Mas a nação de que os chineses estão a falar, e que Trump está a tornar novamente grande, é a China, não os EUA! Trump é, portanto, visto por muitos na China como um aliado objetivo ou um idiota útil que ajuda a promover a imagem e os interesses do regime chinês no resto do Mundo. É fácil perceber porquê. Os EUA aumentam as tarifas, a China anuncia tarifas zero para os países africanos para garantir portas abertas para a exploração de matérias-primas estratégicas. Trump gaba-se de ninguém saber com o que pode contar com ele; a China apresenta-se como uma grande potência previsível. Trump não hesita em insultar e ameaçar líderes estrangeiros; Xi é um anfitrião previsível e polido. Trump despreza abertamente as alianças tradicionais, pilares do bloco ocidental liderado pelos EUA; a China procura consolidar a sua liderança de um bloco alternativo dos BRICS + e da Organização de Cooperação de Xangai. Em suma, Trump está a empurrar cada vez mais Estados, inclusive aliados tradicionais dos EUA, alguns com reservas face a Pequim, para apostarem numa política de diversificação e gestão de riscos que implica uma maior aproximação, ou, pelo menos um menor afastamento, da China. Trump está, em última análise, a ceder um poder de atração – um soft power – que a China andava há décadas vinha a tentar conquistar, em vão, aos EUA.
A nova ordem global e os excessos do amigo Rubio
O que importa isto à Europa e a Portugal? Esta cimeira consolida a ideia de uma ordem global emergente cada vez mais bipolar. Trump percebe que a única outra grande potência realmente global e capaz de competir com os EUA em todas as dimensões relevantes do poder – tecnologia, investimento, comércio, armas – é a China. Neste contexto, Trump aposta numa concertação de interesses entre grandes potências, ignorando os aliados tradicionais. Veremos, aliás, se não será Taiwan a pagar a fatura mais pesada pelas compras chinesas de soja e de Boeings norte-americanos. E Trump fá-lo sem sequer fazer de conta que consulta esses aliados ou tem em conta os seus interesses. Mais uma vez fica evidente que a Europa precisa de autonomia estratégica e não de um alinhamento automático com uma Administração Trump que não quer saber dos nossos interesses. Precisamos mais do que nunca da massa crítica da União Europeia e de uma estratégia europeia realista, pragmática e focada na implementação. Supostamente a União Europeia está, precisamente, a rever a sua estratégia: esperemos que daí saia um documento que reflita uma Realpolitik europeia. Se for mais uma declaração de boas intenções, será pior do que inútil – será perigosa no contexto global atual.
Entretanto, a caminho da China, Marco Rubio resolveu improvisar uma crítica à postura da Espanha e um elogio a Portugal, deixando claro, de passagem, como é vital para os EUA a Aliança Atlântica e confirmando que as bases dos EUA neste Velho Continente não são um favor mas uma enorme mais-valia geoestratégica para os norte-americanos. Utilizou uma expressão em inglês para elogiar Portugal que é relativamente corrente e não me parece ser para interpretar literalmente: “They said yes even before we asked what it was.” Que é como quem diz, foram tão amigos que nem perguntaram em detalhe do que se tratava, ou seja, o governo português não quis comprar uma guerra com Washington por conta do Irão – tanto mais quanto não houve na Europa uma posição comum – e preferiu não fazer muitas perguntas. A Grécia, por exemplo, adotou um posição semelhante a Portugal, de facilitar o uso da base de Souda em Creta, ao contrário da Itália ou de Espanha. Espero que tenha sido isso: cedemos o uso das Lajes porque somos um aliado fiável, e esperamos ter contrapartidas como tal, não porque somos um pau-mandado.
Como saberão os leitores desta coluna, não sou um grande fã do estilo de fazer política de Trump. Fui crítico de algumas declarações iniciais mais equívocas sobre as condições do uso pelos EUA da base portuguesa das Lajes. Defendo que a Europa deve fazer frente a Trump quando isso é do seu interesse, por exemplo, na questão da guerra comercial. Mas repito o que aqui tenho escrito: é tão disparatado, do ponto de vista da defesa dos interesses e valores nacionais, defender um alinhamento automático de Portugal com os EUA como com Espanha. Tanto quanto consigo perceber nenhum país europeu consultou os demais sobre o que fazer nesta questão. Seria bom se a Europa fosse mais coesa nestas questões, mas não cabe a Portugal por si só resolver esse problema, indo atrás de Madrid ou de Roma.