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(A) :: O vírus que anda por aí

O vírus que anda por aí

Nos cruzeiros tradicionais, as pessoas tendem a contrair vírus sortidos depois de iniciada a jornada; nas “flotilhas” as pessoas já entram infectadas, com um vírus único. 

Alberto Gonçalves
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A febre do momento são os cruzeiros. Rectifico: as febres do momento são nos cruzeiros. Mal se acabara de evacuar nas Canárias os passageiros do navio em que irrompeu um surto do subitamente popular hantavírus e logo os “media” arranjaram dois casos colectivos de norovírus, um nas Caraíbas e outro a meio caminho entre a Irlanda do Norte e a França. Antigamente, eram os barcos que iam à descoberta de terras vastas e povos desconhecidos. Hoje são os “telejornais” que se esgadanham para descobrir microorganismos nos barcos, o que pelo menos tem a vantagem de evitar futuras acusações de colonialismo, além de que é pouco provável que os germes venham a exigir reparações.

O lado negativo de tudo isto é a indisfarçável desilusão dos “telejornais”, que começaram excitadíssimos e convencidos de que chegara o digno sucessor do Diamond Princess, repleto de uma peste similar à Covid, e afinal a coisa não excedeu os três mortos e oito a onze sujeitos contaminados. Em termos de potencial pandémico é, diria um estadista internacional, poucochinho. E o entusiasmo com que de seguida os “media” se voltaram para os episódios de norovírus evaporou-se no momento em que constataram que a designação corrente dos efeitos do norovírus é gastroenterite (há designações ainda mais correntes, mas a benefício do bom gosto evitarei transcrevê-las). Ora, ao que sei por erudição e não por experiência, a gastroenterite faz praticamente parte do pacote básico de cruzeiro que se preze, um “extra” que as respectivas companhias oferecem graciosamente a par dos espaços limitados, o ar em circuito fechado e as refeições partilhadas. Ou seja, estas historietas padecem de uma trivialidade confrangedora.

Felizmente, nem tudo são más notícias ou, para ser exacto, nem tudo são não-notícias. Se os “media” fazem questão de informar acerca de pandemias em alto mar, podem aproveitar o lanço e dedicar redobrada atenção a um drama autêntico que ocorre a bordo de um cruzeiro peculiar. Falo, naturalmente, da “flotilha” que finge rumar ao Médio Oriente de modo a libertar (risos prolongados) Gaza. Não é essa: é outra. De facto, é para aí a vigésima “flotilha” a fingir que vai libertar Gaza. E claro que a banalização, somada à ausência da “nossa” Mariana Mortágua, explica o diminuto investimento das televisões portuguesas na empreitada. Porém, se a ideia é “cobrir” barcaças cheias de gente doente, os noticiários têm ali um maná.

É também preciso reconhecer que há diferenças. Nos cruzeiros tradicionais, os turistas pagam a viagem, em regime de pensão completa com maleitas incluídas e álcool à parte; nas “flotilhas” para Gaza, os turistas viajam de borla, bebem de borla e alguns são pagos para espalhar propaganda do Hamas. Nos cruzeiros tradicionais, a regra é uma só embarcação; nas “flotilhas” seguem dezenas, que se vão dispersando à medida que atracam em portos festivos e, após noitada valente, passageiros e tripulação esquecem-se onde estacionaram aquilo. Nos cruzeiros tradicionais, as pessoas tendem a contrair vírus sortidos depois de iniciada a jornada; nas “flotilhas” as pessoas já entram infectadas, com um vírus único.

E as diferenças não terminam aqui. Nos cruzeiros tradicionais, os sintomas das enfermidades vão das perturbações digestivas a, nas situações graves e raras, edemas pulmonares e arritmias; nas “flotilhas”, a doença é mental e manifesta-se através da formação de grupinhos estridentes que repetem de maneira convulsa slogans alusivos à “Palestina livre”, ao “genocídio” e aos malefícios do “sionismo”. Nos cruzeiros tradicionais, os eventuais acamados recebem cuidados médicos; nas “flotilhas”, os destrambelhados são invariavelmente interceptados pelas autoridades israelitas e usam o breve período de detenção para inventar torturas que nunca sofreram.

E há mais. Nos cruzeiros tradicionais, a esmagadora maioria dos infortúnios desaparece em poucos dias; nas “flotilhas”, não há esperança para os pacientes – nem paciência. Em suma, nos cruzeiros tradicionais corre-se o risco de contrair um agente patogénico; nas “flotilhas” os agentes patogénicos são os próprios hospedeiros. Os hospedeiros, o capitão, o cozinheiro, o responsável pela gestão da canábis, o moço que toca batuques, os restantes “activistas”, etc.

Mas a grande diferença é a impossibilidade de conter a propagação. O vírus do “palestinianismo”, ou do anti-semitismo se preferirem o nome técnico, não se circunscreve a barquinhos ou qualquer meio de transporte. Anda por aí à solta, nas manifestações de rua, nos estúdios de televisão e nas redacções dos jornais, no parlamento, nas universidades e nas escolas, nas sedes de partidos extremistas e às vezes no discurso de estadistas, no remanso dos lares. É antigo como o tempo, traiçoeiro como as sombras. É um parasita imune à medicação e à decência. E as suas maiores vítimas não são os que o apanham: somos todos nós.