Morreu João Abel Manta na tarde desta sexta-feira. O arquiteto, ilustrador e cartoonista, cujo legado artístico ficou ligado intrinsecamente aos cartoons com que retratou a revolução do 25 de Abril de 1974, tinha 98 anos. A notícia foi avançada pelo Público e confirmada pelo Observador junto de fontes familiares.
Nascido em Lisboa a 28 de janeiro de 1928, seguiu um trajeto profissional no caminho dos pais, Abel Manta e Maria Clementina de Moura, pintores e professores, com quem viajou pela Europa até ao deflagrar da II Guerra Mundial. O crescimento num ambiente artístico privilegiado e que lhe permitiu, por exemplo, conviver com judeus alemães refugiados e saber o que se passava na Alemanha nazi, e desde cedo ter-lhe-á sido incutida a importância da liberdade e da resistência.
Estudou arquitetura na então Escola Superior de Belas Artes e os seus cartoons pintaram a imprensa portuguesa ainda durante o Estado Novo. Em fevereiro de 1948, poucos dias depois de completar 20 anos, João Abel Manta foi detido pela PIDE e esteve duas semanas na prisão de Caxias, partilhando a cela com o artista Ernesto de Sousa, e onde não deixou de desenhar.
Alguns desses desenhos feitos na prisão foram mostrados pela primeira vez em 2024, numa ampla exposição realizada em Algés (Oeiras), onde também foi exposta a ficha de prisioneiro, na qual se lê que João Abel Manta foi preso a 1 de fevereiro de 1948 “por ser elemento do MUD [Movimento de Unidade Democrática] Juvenil” e “por receção e distribuição de material subversivo”.

Enquanto arquiteto, desenhou escolas, cinco blocos de habitação em Lisboa, coassinou o projeto do complexo da Associação Académica de Coimbra, mas foi abandonando progressivamente esta atividade a favor das artes gráficas, face artística em que se afirmou a partir do final dos anos 60.
Ao tomar a decisão de desenhar para a imprensa, João Abel Manta “assumiu um ato de raro compromisso com um projeto revolucionário, não só esteticamente, como politicamente”, lê-se no catálogo da exposição de 2024. Diário de Lisboa e Diário de Notícias foram dois dos títulos com os quais João Abel Manta trabalhou, desenhando com feroz crítica sobre Salazar e a ditadura, praticando uma ginástica de subtilezas visuais para contornar a censura, da qual foi um alvo constante.
“Como cidadão achava que tinha obrigação de utilizar aquilo que eu sabia para defender as minhas opiniões ou auxiliar em certas coisas. […] Não sou capaz de escrever, mas faço bonecos”, disse João Abel Manta numa entrevista a José Jorge Letria, em 2010, com excertos recuperados para um documentário de Laurent Filipe, exibido em abril de 2024 na RTP.
Em 1972, ainda antes da revolução de 25 de Abril, João Abel Manta desenhou um cartoon, intitulado “Festival”, publicado na forma de um cartaz no suplemento “A Mosca”, do Diário de Lisboa, que lhe valeria um processo em tribunal por ofensas à bandeira nacional, e do qual seria ilibado. Também em 1972 sai o livro “Dinossauro Excelentíssimo”, de José Cardoso Pires, com cerca de duas dezenas de ilustrações do amigo de longa data, João Abel Manta, e que satirizava Salazar e a “primavera marcelista”.
Nas artes gráficas, João Abel Manta era considerado um mestre, tinha uma assinatura visual distinta, com o célebre e espesso contorno a negro como uma cápsula à volta das personagens, carregadas de simbolismo, sobre ricos e pobres, sobre política, costumes, trabalho e a condição das mulheres. Também foi um exímio retratista, de Eça de Queirós a Maria Helena Vieira da Silva.

Acabou por ser o 25 de Abril a tornar o seu traço inconfundível. “Fiquei tão entusiasmado que nunca mais parei – comecei, nesse mesmo dia, a fazer tantos bonecos que até sobravam para o dia seguinte!”, disse, numa entrevista ao jornal Público, em 1999, em que admitiu que não gostava de ser o “cartoonista da Revolução”. Mas, até hoje, as campanhas de dinamização do Movimento das Forças Armadas e o lema “O Povo está com o MFA” ocupam a memória coletiva — e as páginas dos manuais de História.
O enorme legado de Abel Manta serviu de inspiração para a capa da revista especial do 12.º aniversário do Observador, que vai para as bancas na próxima semana. Na capa, Henrique Monteiro retrata os líderes da direita portuguesa inspirando-se num cartoon de Abel Manta de 11 de julho de 1975, publicado n’O Jornal. Nesse desenho, vários nomes — vivos e mortos — da esquerda internacional contemplam, num quadro negro, “Um problema difícil“: o Portugal do Verão Quente de 75.
Em 1978, na sequência de uma temporada a viver em Londres, João Abel Manta publicou aquela que é considerada a mais relevante obra editorial do artista, o livro “Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar”.
Anos depois, em particular a seguir à morte do pai, em 1982, João Abel Manta acabaria por se afastar do cartoon e dedicar-se sobretudo à pintura. Só revisitaria as artes gráficas em 1992, quando foi feita uma exposição retrospetiva no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa.
Apesar de, em todos estes anos, a obra ter sido cingida publicamente ao cartoon e às artes gráficas, João Abel Manta trabalhou com tapeçaria, gravura, azulejo, fez colagens, arte pública e cenografia para teatro; trabalhou da pequena à grande escala, do formato de um selo dos correios a um mural numa avenida. Assinou o projeto para as habitações da Avenida Infante Santo, em Lisboa, parte do desenho da calçada portuguesa na Praça dos Restauradores, e o mural de azulejos da Avenida Calouste Gulbenkian.

Em abril de 2024, quando da inauguração da exposição em Algés, a neta do artista, Mariana Manta Aires, contou à agência Lusa que é ela que tem estado a conduzir este processo de inventariação e descoberta do que está guardado em caixas, gavetas e armários da família. Mariana Manta Aires revelou que na produção desta exposição ainda contou com a ajuda do avô, apesar de debilitado por razões de saúde.
Questionada pela Lusa, Mariana Manta Aires admitiu que a inventariação e a exposição em Algés eram o começo de um trabalho para dar a conhecer a obra de João Abel Manta e, no futuro, equacionar um espaço museológico próprio.
“O objetivo é que o trabalho do meu avô seja visto e admirado. […] Os cartoons, os desenhos de imprensa [que ele fez nos anos 1960 e 1970] não eram feitos para si, mas com um cariz social para que estivesse disponível e o povo os pudesse apreciar”, lembrou.
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