Em 20 de maio assinala-se mais um aniversário da ocupação de Olivença. A data passa, todos os anos, discretamente no calendário português – quase sempre sem debate público, sem reflexão política e, sobretudo, sem o enquadramento que outras questões históricas semelhantes continuam a merecer. E, no entanto, trata-se de uma questão que nunca foi encerrada no plano jurídico internacional.
No momento em que o mundo parece regressar a uma era de crescente instabilidade internacional, o Direito Internacional voltou a ocupar um lugar central no discurso político europeu. Da Ucrânia ao Médio Oriente, multiplicam-se as referências à soberania dos Estados, à integridade territorial e à necessidade de subordinar a ação política às normas internacionais.
Recentemente, também o presidente do Governo espanhol, Pedro Sanchéz, voltou a invocar esses princípios a propósito da operação militar levada a cabo pelos Estados Unidos contra o Irão, defendendo a primazia do Direito Internacional e a necessidade de os Estados respeitarem as regras que regem a convivência entre nações. É um princípio justo. E necessário. Mas é precisamente por isso que importa fazer uma pergunta incómoda: se o Direito Internacional deve prevalecer sobre a força e sobre os factos consumados, porque permanece a Questão de Olivença praticamente ausente do debate político e mediático europeu?
A maioria dos portugueses desconhece que Portugal nunca reconheceu a soberania espanhola sobre Olivença. Desconhece também que, no Congresso de Viena de 1815, Espanha assumiu o compromisso de proceder à restituição daquele território que injustificadamente havia retirado a Portugal através do uso da força militar. Mais de dois séculos depois, continua a existir um diferendo cuja resolução jurídica permanece, no mínimo, controversa.
Naturalmente, a realidade política, social e humana de Olivença em 2026 não é a mesma de 1801. A história não se apaga nem se simplifica. Mas também não desaparece apenas porque deixou de ser discutida. E talvez seja precisamente esse silêncio o aspeto mais estranho de toda esta questão. Portugal insiste – e bem! – na defesa do Direito Internacional em múltiplos contextos internacionais. A União Europeia faz do respeito pelas fronteiras, pela legalidade e pelos compromissos internacionais um dos pilares do seu discurso externo. Espanha, legitimamente, apresenta-se como defensora desses mesmos princípios.
Mas então porque parece existir tanto desconforto quando o tema é Olivença? Porque desapareceu esta questão dos programas escolares, do debate político e até da memória coletiva portuguesa? Porque se tornou quase embaraçoso recordar que existe um diferendo territorial que Portugal nunca considerou encerrado?
Levantar estas perguntas não significa hostilidade para com Espanha, país amigo e aliado com o qual Portugal mantém relações exemplares. Também não significa ignorar a complexidade histórica e humana da questão. Significa apenas reconhecer que os princípios do Direito Internacional não podem depender exclusivamente da conveniência política, da dimensão dos Estados ou do simples passar do tempo.
Olivença não é apenas uma questão de território. É também uma questão de memória histórica, de coerência diplomática e de maturidade democrática. Num tempo em que tanto se exige respeito pelas normas internacionais, talvez seja legítimo perguntar porque continua o poder político português tão relutante em discutir uma questão que nunca deixou verdadeiramente de existir. Mas talvez o maior obstáculo já nem seja diplomático ou político. Talvez seja o desconhecimento. O desconhecimento de gerações de portugueses que cresceram sem qualquer contacto com esta realidade histórica e jurídica, frequentemente ausente dos programas escolares, do debate público e até da comunicação social. E o desconhecimento é sempre um terreno fértil para a indiferença. Aquilo que Olivença hoje merece é debate, conhecimento e transparência. Porque uma democracia segura da sua história não deve recear discutir os seus próprios assuntos pendentes, sobretudo aqueles que tantos desconhecem existir.