Em The Scarlet Letter, de Nathaniel Hawthorne, Hester Prynne não é expulsa da comunidade – continua a viver nela, a trabalhar, a criar a filha – mas deixa de ser escolhida: o seu corpo permanece, mas o seu nome é subtraído ao círculo da eleição moral, e essa exclusão silenciosa, mais do que um castigo visível, instala nela a vergonha. Algo de semelhante acontece em Melville, quando certas figuras – como Bartleby – não sendo punidas, deixam de ser convocadas, integradas no movimento do mundo, permanecendo apenas como presenças que não encontram lugar. É nessa suspensão que se forma a vergonha de quem não pertence.
Também não foi uma palavra que preteriu Caim, mas uma escolha que não o elegeu: um sacrifício acolhido num outro altar, um gesto dirigido a outro corpo, uma atenção concedida para além de. Não se diz uma única palavra e, no entanto, tudo está decidido. Não é do ódio que nasce a sua ferida, mas da escolha: Caim não é rejeitado; é simplesmente ignorado. E ser preterido inaugura uma forma específica de vergonha: a de existir sem ter sido escolhido.
O verbo eligere significava em latim separar, apartar de um conjunto, pois toda a escolha implica, tal como na operação da divisão, um resto, que pode muito bem até ser zero. O não escolhido não é necessariamente defeituoso nem está necessariamente errado; está simplesmente a mais. Permanece, embora à margem do gesto decisivo. A vergonha do não escolhido advém de não ter sido necessário. É uma vergonha sem culpa, e por isso mesmo muito mais difícil de reparar.
Algumas vidas começam assim: não propriamente expulsas, mas simplesmente não eleitas. Entram no mundo como quem entra numa sala cheia, onde não há cadeiras vazias, apenas outros corpos que, com enfado, terão de se deslocar para lhes ceder passagem. A essas vidas é necessário ensinar a pedir desculpa com o corpo, porque desde cedo aprendem que existir implica ajuste, contenção, cuidado para não perturbarem uma ordem que já se formou sem elas.
Na narrativa bíblica, Esaú embate, com uma clareza brutal, nessa experiência: nasce primeiro, mas não é o escolhido pelo pai; é-lhe consentida a presença, mas não a herança; é visto, mas não eleito. A sua perda é simultaneamente afectiva e simbólica: o mundo prossegue girando, embora em torno de um outro eixo. Algo de essencial foi decidido num outro lugar.
Também os mitos gregos conhecem essa ferida: aqueles que não são escolhidos pelos deuses – não por falha moral, mas por desvio do desejo divino – tornam-se figuras liminares: que pode a dignidade de Heitor diante do charme viril de Aquiles, ou Hefesto, o deus manco, arrojado do Olimpo por não corresponder ao ideal do desejável? Ao contrário do que nos diz o folclore, ele não é mau; é simplesmente inconveniente, impróprio, inoportuno. O seu corpo – escangalhado e cheio de cicatrizes – falha o desejo do olhar. E o Olimpo – como tantos – não tolera bem aquilo que nos recorda o limite.
O verbo tolerare significava, em latim, suportar um peso. Quem é apenas tolerado cedo aprende que pesa; que a sua presença exige esforço; que até o amor, se surgir, implicará sempre um acto de resistência por parte do outro.
A não escolha raramente se manifesta como rejeição explícita. Instala-se, muito mais frequentemente, como silêncio, como ausência de convocação, uma espécie de sensação difusa de que nada faltaria se não se estivesse ali. É-se incluído, mas não central; considerado, mas não preferido. E essa diferença subtil organiza toda uma relação com o mundo.
O desconforto de não pertencer não é apenas solidão. É deslocação. Estar presente sem ser necessário. Estar incluído sem ser indispensável. O eu torna-se margem móvel, periferia ambulante. E viver à margem, como dizia Pavese, cansa.
A pertença, aliás, não passa de um mito cantado por aqueles que jamais sentiram qualquer necessidade de a justificar. Para todos os outros, contudo, o mundo permanece inabitável: cada lugar é provisório, cada vínculo revogável. Não se chegam nunca a sentar: como pardais nervosos, pousam apenas, como hóspedes atentos ao primeiro sinal de cansaço do anfitrião.
Verecundia, de que deriva a nossa vergonha, tanto designava recuo, contenção, como o gesto de baixar os olhos. É uma emoção de retraimento. Não empurra para fora; empurra para dentro. A vergonha do não escolhido, contudo, é ainda mais funda: é a vergonha de ocupar espaço sem ter sido chamado. Aprende-se a minimizar necessidades, a reduzir desejos, a não pedir demasiado, porque pedir é sempre uma forma de solicitar eleição.
O grito inicial da vida, quando não encontra resposta electiva, não desaparece. Recolhe-se, torna-se vigilância, leitura obsessiva do ambiente. Os não escolhidos tornam-se especialistas em minudências, intérpretes de atrasos, leitores de hesitações. Vivem num tempo adiantado, antecipando a exclusão antes que ela se concretize.
Sentir-se um fardo não é sentir-se inútil; é bem pior. É sentir que a própria existência consome recursos alheios. Onus designava em latim o peso transportado no lombo dos animais de carga e alguns de nós caminham curvados por dentro, pedem desculpa antes de falar, minimizam o desejo antes que este se torne audível. Qualquer desejo é arriscado quando nunca se foi desejado. Aprende-se a compensar: sendo útil, disponível, funcional; tenta-se merecer retroactivamente a escolha que nunca chegou a acontecer. A pertença é substituída pela performance. Alguns escolhem retirar-se antes que a não-escolha se repita. Cultivam a solidão como território onde nenhuma eleição é exigida. Chamam-lhe independência, mas muitas vezes é apenas medo.
Quando, por mero acaso, alguém escolhe o não escolhido – quando o gesto electivo finalmente acontece – ele não é imediatamente vivido como lugar possível, mas como anomalia. Parece um erro, uma inversão improvável. O corpo permanece alerta, aguardando a revogação. Ser escolhido tarde exige reaprendizagem. Exige desmontar a antiga narrativa da substituibilidade, da secundariedade, do excesso; exige aceitar que a escolha possa ser verdadeira, não compensatória, não provisória.
Talvez a dificuldade maior do não escolhido seja imaginar-se como resposta. Não como alternativa, não como plano B, mas como presença desejada, convocada, necessária. Vive-se sob o regime da justificação, chegando sempre com razões, com provas, com utilidade.
E, no entanto, a vida não funciona apenas por mérito. A eleição não é sempre justa, nem definitiva. A história – a bíblica, a mítica, a humana – está cheia de escolhas tardias, de inversões inesperadas, de lugares por fim atribuídos a quem esperou demasiado tempo à margem.
Talvez a esperança não consista em apagar da memória a não-escolha, mas em permitir que ela deixe de governar o presente; em aceitar que por certo existirão razões, mesmo que incompreensíveis, para a recusa; ou que nem isso, e tudo quanto nos acontece não é mais que a falta de jeito de Láquesis ou a dança cínica de Átropos.