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Cintas, sacos de alumínio e ímanes. A rede criminosa que roubou milhares de euros em lâminas, cremes e whisky a supermercados de todo o país

Rede usava Waze e Google Maps para planear assaltos a partir de hostels em Lisboa. Irmãos lideravam grupos que roubaram 125 mil euros em perfumes, cremes e lâminas de barbear.

Leonor Riso
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Era de manhã e Alexandro L. podia ser só uma das pessoas que escolhem o café do supermercado para tomar o pequeno-almoço durante um dia de semana. Mas, sentado à mesa, ele esperava pelo momento certo para a companheira agir. Foram 40 minutos até dar luz verde a Gabriela M., sua cúmplice, para que entrasse no supermercado de Alhos Vedros onde se encontrava.

Quase na mesma altura em que Gabriela M., de mochila às costas, cruzava a porta da loja, Alexandro L. encaminhou-se para o corredor dos produtos de higiene pessoal. Foi aí que encheu o cesto com 94 recargas de lâminas de barbear da marca Gillette e, de seguida, caminhou até à zona da fruta onde tapou as lâminas com sacos de plástico ultraleves. Estava tudo combinado: logo de seguida, abandonou ali o cesto, Gabriela M. aproximou-se e, sem que ninguém visse, encheu a mochila com as lâminas de marca e custo bastante elevado. Na caixa, a mulher pagou apenas um artigo de baixo valor e seguiu. Já o que levava na mochila, e que não pagou à saída, as tais lâminas de barbear, tinha um valor 3.172,76 euros, de acordo com a acusação do Ministério Público a que o Observador teve acesso.

Este foi o mais valioso dos 86 furtos cometidos por dois grupos, liderados por dois irmãos, que compunham uma rede criminosa que atuou em vários supermercados pelo país. As vigilâncias conduzidas pela Guarda Nacional Republicana (GNR), numa investigação dirigida pelo Departamento de Investigação de Ação Penal (DIAP) de Lisboa, permitiram ainda perceber como a rede também armazenava e vendia os produtos a terceiros, que por sua vez os comercializavam em feiras ou lojas a preços baixos obtendo lucros ilícitos. 19 pessoas acabaram acusadas pelos crimes de associação criminosa, furto qualificado e recetação.

Rede gerida a partir da Roménia organizava furtos desde os hostels

Além de recargas de lâminas de barbear, os produtos mais desejados eram cremes faciais da Nivea e L’Oréal, lubrificantes sexuais da Durex, lacas da L’Oréal, whisky da Johnnie Walker Black, Johnnie Walker Gold, Grant’s, Jameson e J&B, cápsulas de café da Starbucks, Delta e Boundi, e gin da Gordon’s London Dry e Bombay Blue. Os supermercados maiores eram os mais atingidos pelos ladrões, que organizavam os furtos através de pesquisas no Waze ou no Google Maps, feitas a partir de hostels em Lisboa.

Se a alguns criminosos cabia retirar os bens das prateleiras, outros tinham a função de manter uma vigilância permanente sobre os seguranças. Para evitar que os alarmes disparassem, os acusados traziam malas de senhora e mochilas onde escondiam sacos de alumínio e ímanes inibidores dos alarmes e, para se coordenarem, comunicavam entre si através de telemóveis e auriculares. O objetivo era não serem apanhados.

Mas o Ministério Público acredita que a rede, que atuava desde fevereiro de 2024, nem sempre tinha sucesso nas suas operações. Alguns membros chegaram a ser detidos, mas depois de serem presentes a tribunal foram libertados. Contudo, para evitar que as autoridades se apercebessem de que o grupo atuava de forma concertada, da Roménia — onde estava instalado o núcleo que geria toda a organização — chegavam rapidamente a Portugal ordens para que os elementos detidos fossem substituídos. Um desses momentos deu-se em janeiro de 2025, quando chegaram pessoas novas para substituir as que tinham sido detidas em Grândola — e libertadas — dois meses antes.

Além da operação ser gerida a partir da Roménia, era naquele país que eram também recrutados a maioria dos acusados. Porém, pelo menos quatro pessoas de nacionalidade portuguesa pertencia a esta rede criminosa: apesar de não fazerem os furtos, cabia-lhes fazer com que os produtos chegassem a lojas, às feiras da Ladra e do Relógio em Lisboa e à de Carcavelos, e aos mercados de rua onde eram revendidos a um preço muito inferior. Nenhum membro tinha uma atividade profissional declarada e os lucros eram divididos mediante a participação e a posição hierárquica no grupo.

Irmãos líderes de grupos usaram cinta para esconder produtos

A partir de janeiro de 2025, os dois grupos criminosos descritos pela acusação do Ministério Público passaram a ser liderados por Alexandro L. e Gabriel L., dois irmãos de 36 e 28 anos, respetivamente. Contudo, em junho desse ano, decidiram colaborar num furto a um supermercado da Batalha. Pelas 11h30, entraram e colocaram vários protetores solares no cesto, que viriam a dissimular na cinta que cada um tinha à cintura e que, por sua vez, era disfarçada por um colete. Dez minutos após a entrada, abandonaram o espaço comercial sem pagar nada.

Como líderes dos seus respetivos grupos, cabia-lhes entregar, dentro de sacos do lixo, a mercadoria aos responsáveis por a escoar. À mão, anotavam em papel a lista de bens roubados depois de cada ida aos supermercados; porém, foram também encontrados na aplicação Samsung Notes registos dos produtos com abreviaturas e preço de venda. Estes elementos, posteriormente descobertos pelas autoridades, acabaram por servir como prova incriminatória.

Além de indicarem aos responsáveis por escoar os produtos qual o valor que deveria ser pago, os irmãos também recebiam deles as encomendas dos produtos mais desejados e que deveriam ser retirados dos supermercados. Os dois líderes conseguiram milhares de euros com a atividade criminosa, acredita o Ministério Público. Entre o final de 2024 e até ser detido, em novembro de 2025, Alexandro L. recebeu mais de 56 mil euros; e o irmão mais novo arrecadou quase 37 mil euros de agosto a novembro de 2025.

Champôs, atum e milhares de perfumes e cremes encontrados em armazém e garagem

Após meses de vigilância, a GNR e o Ministério Público avançaram para buscas às casas, garagens e armazéns ligados aos suspeitos. A 20 de novembro de 2025, em casa de um suspeito foram encontrados mais de 22 mil euros em dinheiro vivo, além de moedas e notas de vários países, latas de atum e numerosos produtos de higiene pessoal. Na residência de um outro, as autoridades encontraram 13 alarmes de garrafas de bebidas alcoólicas, a par de centenas de cápsulas de café e de chocolates.

O material encontrado em casa de um dos arguidos portugueses ocupa 13 páginas da acusação, entre recargas de lâminas, desodorizantes, conhaque, chocolates, mais atum, champôs e cremes faciais. Mas nem todo o material era guardado em casa. Uma garagem em Mem Martins era usada para guardar milhares de perfumes e cremes, e num armazém na Amadora foram encontradas garrafas de bebidas alcoólicas e milhares de protetores solares.

Segundo a acusação deduzida em abril, a rede criminosa gerou um prejuízo de 124.830,81 euros. Oito dos seus elementos ficaram em prisão preventiva e, além dos crimes que lhes são imputados, o Ministério Público anunciou ter pedido “a pena acessória de afastamento do território nacional aos arguidos estrangeiros e a perda a favor do Estado dos instrumentos, produtos e vantagens provenientes da atividade criminosa”.

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