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A Sopa dos Camaradas 

O grande logro do socialismo orgânico e dos seus satélites mais à esquerda é  disfarçar de "conquista social" aquilo que é, na verdade, a engenharia deliberada  do imobilismo.

Bruno Fonseca Lobo
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As bancadas da esquerda parlamentar e o sindicalismo de cartilha partilham uma  patologia intelectual profunda, a crença quase mística de que a riqueza nacional se  gera por geração espontânea na Mesa da Assembleia da República e que a  dignidade humana se decreta, com honras de Estado, em Diário da República. O  debate em torno da revisão das leis laborais converteu-se no habitual teatro de  sombras a que o país já assiste com uma mistura de fadiga e cinismo. Há no ar um  fetiche quase erótico pela punição de quem arrisca capital, temperado pela  urgência demagógica de distribuir a escassez antes mesmo de se perceber como  criar a abundância. Para a mundividência estatizante que nos coloniza o espírito, a  economia real não passa de um tubo de ensaio ideológico onde a matemática  elementar é tratada como uma heresia moral.

O grande logro do socialismo orgânico e dos seus satélites mais à esquerda é  disfarçar de “conquista social” aquilo que é, na verdade, a engenharia deliberada  do imobilismo. Enquanto o Bloco, o PCP e as alas dogmáticas do PS se perdem na  retórica de blindar o mercado de trabalho contra o dinamismo, o país real colide  violentamente com o mesmo muro invisível, o défice crónico de produtividade. Ao  erguer barreiras regulatórias intransponíveis e ao transformar o ato de contratar  num labirinto punitivo, os guardiões da ortodoxia não estão a proteger quem  trabalha, estão a proteger a mediocridade do contexto. O resultado desta  blindagem burocrática é trágico, mensurável e traduz-se no esmagamento da nossa  competitividade externa. Afugenta-se o capital de alto valor acrescentado e  condena-se a classe trabalhadora a um nivelamento por baixo, onde o salário  mínimo nacional deixou de ser uma rede de segurança para passar a ser,  tragicamente, o teto das aspirações de uma geração.

Esta obsessão dirigista atinge as raias do cinismo puro quando a mesma esquerda  que exige salários escandinavos finge ignorar o ecossistema que ela própria gerou,  alimentou e defende. Exigir inovação, flexibilidade e capacidade de exportação a  PME sufocadas por uma fiscalidade extrativista e por custos energéticos que  funcionam como autênticas multas à produção é de uma desonestidade  intelectual sem precedentes. A produtividade real não nasce da hiper-regulação do  relógio de ponto, do policiamento ideológico das administrações ou de subsídios  estatais desenhados para perpetuar a dependência. Decorre, sim, da desoneração  do mérito, da densidade tecnológica e da liberdade para falhar, corrigir e  recomeçar. Ao preferir o garrote regulatório à agilidade do mercado, a esquerda  nacional prova o seu verdadeiro desígnio: prefere gerir uma pobreza controlada (e  eleitoralmente dependente do cordão umbilical do Estado) a permitir que o tecido  empresarial respire, compita e dispute o mundo.

No final, o veredicto da realidade é implacável. Enquanto os centros de decisão  global jogam o xadrez do pragmatismo económico e da atração agressiva de  talento, Portugal continua a perder as suas mentes mais brilhantes para o  estrangeiro e a importar estagnação revestida de retórica fraturante. A indústria do  adiamento venceu. Para o empresário e para o trabalhador que teimam em produzir  neste retângulo sob o espartilho ideológico da esquerda, o desafio já não é liderar  mercados ou rasgar horizontes. É, puramente, o milagre biológico de tentar respirar  debaixo de água.