As bancadas da esquerda parlamentar e o sindicalismo de cartilha partilham uma patologia intelectual profunda, a crença quase mística de que a riqueza nacional se gera por geração espontânea na Mesa da Assembleia da República e que a dignidade humana se decreta, com honras de Estado, em Diário da República. O debate em torno da revisão das leis laborais converteu-se no habitual teatro de sombras a que o país já assiste com uma mistura de fadiga e cinismo. Há no ar um fetiche quase erótico pela punição de quem arrisca capital, temperado pela urgência demagógica de distribuir a escassez antes mesmo de se perceber como criar a abundância. Para a mundividência estatizante que nos coloniza o espírito, a economia real não passa de um tubo de ensaio ideológico onde a matemática elementar é tratada como uma heresia moral.
O grande logro do socialismo orgânico e dos seus satélites mais à esquerda é disfarçar de “conquista social” aquilo que é, na verdade, a engenharia deliberada do imobilismo. Enquanto o Bloco, o PCP e as alas dogmáticas do PS se perdem na retórica de blindar o mercado de trabalho contra o dinamismo, o país real colide violentamente com o mesmo muro invisível, o défice crónico de produtividade. Ao erguer barreiras regulatórias intransponíveis e ao transformar o ato de contratar num labirinto punitivo, os guardiões da ortodoxia não estão a proteger quem trabalha, estão a proteger a mediocridade do contexto. O resultado desta blindagem burocrática é trágico, mensurável e traduz-se no esmagamento da nossa competitividade externa. Afugenta-se o capital de alto valor acrescentado e condena-se a classe trabalhadora a um nivelamento por baixo, onde o salário mínimo nacional deixou de ser uma rede de segurança para passar a ser, tragicamente, o teto das aspirações de uma geração.
Esta obsessão dirigista atinge as raias do cinismo puro quando a mesma esquerda que exige salários escandinavos finge ignorar o ecossistema que ela própria gerou, alimentou e defende. Exigir inovação, flexibilidade e capacidade de exportação a PME sufocadas por uma fiscalidade extrativista e por custos energéticos que funcionam como autênticas multas à produção é de uma desonestidade intelectual sem precedentes. A produtividade real não nasce da hiper-regulação do relógio de ponto, do policiamento ideológico das administrações ou de subsídios estatais desenhados para perpetuar a dependência. Decorre, sim, da desoneração do mérito, da densidade tecnológica e da liberdade para falhar, corrigir e recomeçar. Ao preferir o garrote regulatório à agilidade do mercado, a esquerda nacional prova o seu verdadeiro desígnio: prefere gerir uma pobreza controlada (e eleitoralmente dependente do cordão umbilical do Estado) a permitir que o tecido empresarial respire, compita e dispute o mundo.
No final, o veredicto da realidade é implacável. Enquanto os centros de decisão global jogam o xadrez do pragmatismo económico e da atração agressiva de talento, Portugal continua a perder as suas mentes mais brilhantes para o estrangeiro e a importar estagnação revestida de retórica fraturante. A indústria do adiamento venceu. Para o empresário e para o trabalhador que teimam em produzir neste retângulo sob o espartilho ideológico da esquerda, o desafio já não é liderar mercados ou rasgar horizontes. É, puramente, o milagre biológico de tentar respirar debaixo de água.