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Juíza denuncia "punição extrajudicial" do ICE contra manifestante que foi abalroado com os filhos no carro

Christian Cerna, de 28 anos, foi alvo de uma operação que uma juíza considerou "vingativa". Agentes abalroaram o carro onde seguia com os filhos e lançaram granadas.

Larissa Faria
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As ações do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês), nos Estados Unidos foram alvo de protesto em várias ocasiões. Numa delas, em frente a um centro de detenção de imigrantes em 8 junho de 2025, havia entre os participantes em Los Angeles um cidadão norte-americano que não imaginava que se tornaria uma vítima de perseguição — exatamente aquilo que os manifestantes contestavam.

Apenas três dias após o protesto, dois carros com agentes armados do ICE bateram contra o carro do carpinteiro e pugilista Christian Cerna, de 28 anos, quando este conduzia acompanhado da sua companheira e dos seus dois filhos de cinco meses e dois anos. A ação foi filmada pelo ICE e divulgada nas redes sociais do Departamento de Segurança Interna dos EUA, sendo considerada posteriormente por uma juíza federal como um “esforço vingativo” para “impor um castigo extrajudicial”. Gregory Bovino, um dos líderes dos agentes de segurança, terá participado das agressões e incentivado os seus subordinados a fazer o mesmo: “Prendam quantas pessoas quiserem!”.

Pela forma brusca como a abordagem dos polícias mascarados foi feita, com veículos não sinalizados, Cerna pensou estar a ser vítima de criminosos enquanto saía do carro com as mãos levantadas. “Parecia que estavam a tentar fazer um filme”, disse numa entrevista citada pelo The Guardian, ao afirmar que sentia ser a ação uma tentativa de intimidar as manifestações e ameaçar individualmente aqueles que vão contra o ICE, que atirou granadas contra o seu carro na autoestrada. Câmaras de vigilância daquela zona registaram fumo branco a explodir ao redor da família. “Eu tenho filhos!”, terá gritado Cerna antes de ser mandado calar-se.

A abordagem do ICE foi justificada por aquele órgão de imigração com uma alegada agressão de Cerna contra um agente durante o protesto. Em vídeos gravados por manifestantes, referiu o mesmo jornal, um grupo de agentes empurrou civis, que caíram contra o chão. Em resposta à agressão, Cerca terá “esmurrado” o polícia Eduardo Mejorado no rosto, diz o ICE, que não cita feridos no relatório ao Governo. Fotos anexas ao processo judicial, no entanto, revelam que Cerna foi atingido por projéteis com pimenta e gás lacrimogéneo, que deixaram uma marca de queimaduras no rosto. A defesa do homem respondeu judicialmente a dizer que o agente de segurança jogou o corpo contra o cidadão, que num “reflexo” de defesa, reagiu com a mão aberta. “Queriam fazer de mim um exemplo”, concluiu o homem. “Mas a única coisa que provaram foi o quão longe estão dispostos a ir para silenciar as pessoas”.

https://twitter.com/ICEgov/status/1932968763999011020

Christian Cerna, que é filho de imigrantes mexicanos, lamentou ao The Guardian a perseguição aos estrangeiros naquele país. Aos 12 anos, sentiu-se “impotente” quando soube que o seu pai foi detido e posteriormente deportado pela polícia norte-americana. Na altura, Cerna foi viver na casa de um tio com mais sete parentes em um único quarto. As condições em que vivia e o choque fizeram com que deixasse de frequentar a escola. O trauma criado contra a polícia de imigração fez com que reagisse às ações do ICE. Numa transmissão ao vivo, chegou a dizer aos agentes, que se lhe dessem uma arma, “acabaria com todos”. Admitiu ter feito “comentários ridículos” enquanto “parecia estarem [o ICE] a preparar-se para realizar ataques contra a Al-Qaeda”.

“Tudo o que eu podia fazer era usar as palavras… Tentei intimidá-los da mesma forma com que nos intimidavam”. Em vídeos publicados na sua página no Facebook, o Departamento de Segurança Interna (DHS) escreveu que a operação contra Cerna era “direcionada a um manifestante violento que agrediu um agente [da patrulha da fronteira] e terá tentado fugir”. As gravações que mostravam a reação de Cerna à abordagem, no entanto, contradiziam o próprio DHS.

https://twitter.com/ICEgov/status/1933215471815270603

O homem foi algemado e detido pela acusação de “agressão qualificada”. Esteve preso por uma semana antes de ser liberado para a prisão domiciliária com pulseira eletrónica. O stress causado a Cerna e a sua família provocou ao homem uma apendicite, enquanto a sua filha teve uma erupção cutânea por todo o corpo. O seu filho ficou psicologicamente afetado, a gritar pelo pai e a chorar quando este se distanciava — mesmo que fosse só para ir à casa de banho. Cerna e a sua mulher desenvolveram transtorno de stresse pós-traumático.

O Departamento de Justiça de Los Angeles estava repleto de casos como o de Cerna na ocasião em que ele foi detido, pelo que confundiram o homem com outro manifestante. Tal reconhecimento não retirou a acusação que previa até oito anos de prisão. Numa tentativa de reduzir a pena, refere o The Guardian, em dezembro Cerna se declarou culpado por uma “agressão simples”, que o manteria preso por um ano em vez de oito. Por fim, a juíza Cynthia Valenzuela criticou as agressões verbais do homem aos agentes de segurança, mas disse parecer ser uma pessoa “trabalhadora, honesta e respeitosa”, reconhecendo o trauma causado pelo histórico dos seus parentes com o ICE. Sem provas de que o agente tivesse sido ferido, Valenzuela decidiu por condená-lo a um ano de liberdade condicional, sem ter de voltar para a prisão.

A juíza concluiu ainda ter sido “preocupante” a ação do ICE, que colocou não só a família de Cerna em perigo, mas também as outras pessoas que circulavam na mesm estrada. “Mesmo quando se rendeu pacificamente”, referiu, os polícias continuaram a apontar-lhe armas na presença das crianças. “As circunstâncias da prisão sugerem uma tentativa de vingança por parte de funcionários do Governo, de forma a impor uma punição extrajudicial e a contornar as proteções do devido processo legal às quais o réu tinha direito”.

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