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(A) :: O diabo da analogia

O diabo da analogia

Enquanto os meteorologistas têm física para fazer isso e os astrólogos têm astrologia para fazer astrologia, os historiadores não têm nada. Quem não tem nada tem porém sempre a analogia.

Miguel Tamen
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Deve-se decerto a uma irrecusável intervenção do sobrenatural a tendência para imaginar que aquilo que nos causa confusão nos acontecimentos presentes pode ser esclarecido por comparação com acontecimentos passados; e que por isso podemos aprender com a História, e que a História nos pode ensinar.  Essa tendência tem a ver com duas outras ideias ainda mais ameaçadoras que por vezes temos: a de que o que se está a passar é parecido com o que já se passou, e a de que o que já se passou se voltará a passar.

O que se está a passar levanta perguntas sobre o que se pode passar a seguir; e se não percebemos bem aquilo que está a acontecer, é natural que nos interroguemos sobre o que ainda não aconteceu.  No entanto, como o que está a acontecer ainda não aconteceu completamente, o remédio é imaginar que o que se vai passar tem de algum modo a ver com o que já se passou.   Mas enquanto os meteorologistas têm física para fazer isso (mesmo que não sirva por enquanto para mais de quinze dias), e os astrólogos têm astrologia para fazer astrologia, os historiadores não têm nada.

Quem não tem nada tem porém sempre a analogia. A analogia não é um defeito de certas profissões; e não é uma tentação que os historiadores possam ou devam evitar, uma física para indigentes ou um modo mais circunspecto de astrologia.  Com efeito, ocupando-se os historiadores daquilo que aconteceu realmente, parece sempre que só o conseguem fazer do ponto de vista de quem se interessa por esses factos; e esse ponto de vista é o ponto de vista de quem acha sempre os factos parecidos com o seu interesse pelos factos: é o ponto de vista da analogia.

Embora seja inegável que um número grande de coisas aconteceu realmente os historiadores ocupam-se apenas de algumas delas, e não poderiam de modo prático atarefar-se com todas.  Escolhem os seus acontecimentos de muitas maneiras e por muitos motivos: mas chegam sempre ao que escolhem porque pressentem, como uma comichão, que existem parecenças entre o que aconteceu realmente e o que ainda não acabou de acontecer, e que por isso aquilo que aconteceu realmente costuma importar para o pressentimento daquilo que ainda não aconteceu completamente.

A ideia de que aos historiadores basta que aquilo que aconteceu tenha realmente acontecido é assim insatisfatória.  A relevância de um acontecimento é um acompanhamento indispensável à consideração desse acontecimento.   Nessa medida, a relação entre o que se passou realmente e o que ainda não se passou é como a relação de acompanhamento indispensável entre bifes e batatas fritas que sobrevive por desfastio em cafés antigos de Lisboa.   A História dá lições ao presente no sentido em que, se o bife não vier com batatas, o facto de o bife ser realmente bife é de interesse muito escasso.