Acaba de sair a versão portuguesa de Ginseng Roots, de Craig Thompson. Diz-se assim porque os livros do autor trazem o nome original. Neste caso, em português seria qualquer coisa como “Raízes de Ginseng”. Por si só, não faria adivinhar nada de prodigioso, mas eis Thompson no seu esplendor: a narrativa é cuidada, o desenho é detalhado e realista, e o livro é um assombro a cada página. Depois de Blankets (2003) e de Habibi (2011), estes publicados pela Devir, os únicos publicados em Portugal, confirma-se o que já estava confirmado: Craig Thompson é dos maiores de banda desenhada em todo o mundo.
Neste livro, temos um regresso ao passado. Eis, logo à cabeça, uma infância passada algures entre os campos de cultivo de ginseng, no Wisconsin rural. O livro, que nos primeiros segundos, ou no título, poderia dar a ideia de se afunilar sobre um assunto, estende os braços a cada página, ampliando a narrativa e a vida no mesmo movimento. Isto, claro, não surpreende quem estiver já familiarizado com os outros livros do autor. As publicações são demoradas, fruto de um trabalho minucioso, de uma exigência altíssima, de uma narrativa calibrada. Afinal, Thompson faz argumento e arte, não reduzindo a ambição dos livros.
Cada um parece um mundo, e alguns ainda se ligam uns aos outros. Aliás, enquanto estamos dentro deste Ginseng Roots, voltamos de vez em quando às páginas de Blankets, com o autor a mostrar de que forma a ficção existia ali nas omissões: a irmã, que não chega à vida literária no livro de 2003, aparece neste, e ainda opina sobre a sua ausência anterior e a presença actual, isto no meio de um livro imenso que mistura memória com exploração laboral, capitalismo global, família, identidade, sonhos de criança, paixão por banda desenhada – ou seja, isto no meio de um romance que, assim, é sobre a vida.

Ginseng Roots arranca com uma densidade emocional que se aguenta até ao fim. O ginseng funciona como catalisador de outros elementos que acabam por ser cruciais na narrativa: sendo produto económico, funciona no livro como símbolo cultural, regresso ao passado e ponto de ligação. Atravessando continentes, liga aquela parte dos Estados Unidos à China, arrastando histórias de exploração, migração e sobrevivência. Ou seja, é, no livro, a lente escolhida pelo autor para ver o mundo, o ponto a partir do qual estende os braços. Pegando num detalhe aparentemente periférico, até inócuo, da sua infância, o autor trata-o como o centro de uma cartografia global, mostrando que um romance, gráfico ou não, não tem de ter uma história épica – tem de saber concatenar elementos, ligar o físico ao emocional, depurar a informação, manipular a atenção do leitor. Ginseng Roots é, por isso, arte em estado líquido. Líquido, claro, é como quem diz que não é bruto – tudo é destilado até à forma final.
Formalmente, o livro é um festival. O desenho é altamente expressivo, com uma atenção obsessiva ao detalhe, que, tal como o texto, está ali para ser lido. Sem cair no excesso decorativo, Thompson cria páginas em que equilibra composição, movimento e estado psíquico e emocional das personagens. Os próprios campos de ginseng aparecem como lugar de memória, infância cristalizada, mas são também a força bruta do que lá foi vivido, espaços de alienação e desgaste, e por isso as paisagens rurais do Wisconsin parecem, em concomitância, concretas e quase míticas. Grande parte do regresso à infância tem a beleza dos primeiros anos, os sonhos, os irmãos lado a lado, o amor pela banda desenhada, mas também a dureza de corpos cansados, de crianças curvadas sobre a terra, de mãos feridas.
Nisto, o autor chega a fazer uma construção que é quase sensorial: está ali o calor, está a lama, está a monotonia do trabalho agrícola, estão os músculos doridos, os ossos que se deformam. E o equilíbrio de tudo isto é impressionante, sensível: a pureza da infância existe ao mesmo tempo que esta exaustão, sem que pareçam contrapor-se. Em vez disso, a junção é apresentada ao leitor como um quadro integral em que os elementos da vida não destoam uns dos outros. Não é que haja uma queixa ou uma denúncia, nem é que o trabalho seja mostrado como um trauma – em vez disso, é apresentado como parte da vida, como o que é, desmontando a ideia do trabalho como virtude moral absoluta. Ou seja, o livro mostra sem explicar, e o leitor vê crianças que trabalham para garantirem a sobrevivência da família, e corpos transformados em instrumentos, quase objectos.

Com cunho autobiográfico, o livro nunca atinge o narcisismo, a invasão de privacidade, o constrangimento de quem lê. Pelo contrário, cada pequena hipótese de abertura de narrativa é aproveitada, e o ginseng, por si só, expande-se para a história do comércio global. É nisto que a capacidade narrativa de Thompson se revela. No livro, não há atalhos. A investigação histórica e económica não quebra o fluxo emocional da narrativa, nem sabe a coisa particularmente didáctica. Em vez disso, o livro vai saltitando entre tempos, lugares e registos, de forma orgânica, redonda, até, e saltitando também entre registos, entre memória, reportagem, reflexão, resultando num livro fluído, provocando uma leitura escorreita, voraz. A parte da infância oferece a quem lê um espaço que é, em concomitância, afectivo e opressivo. A representação da família dá a sensação de coisa sólida, mas o peso da pobreza e da educação cristã rígida também sufocam.
Neste sentido, Ginseng Roots acaba por ampliar o espaço que Thompson deu a Blankets. Este incidia particularmente sobre o amor, a fé e a descoberta, e Ginseng Roots traz uma consciência política que não existia no livro anterior. Além disso, a parte gráfica mostra um domínio impressionante do espaço da página, com vinhetas fluídas e linhas orgânicas. Por vezes, a mera estrutura visual já impõe ao leitor uma sensação claustrofóbica; noutras, a narrativa parece abrir-se, dando uma folga à tensão de quem lê.
Talvez a grande vantagem de Blankets seja a forma como Thompson conseguiu pegar em matéria aparentemente banal numa experiência estética incomparável, inesquecível. Um primeiro amor é um clichê, e um clichê não tem como não ser um tema que agarra as mãos dos leitores ao livro, se tratado com elevação artística. A sinopse não podia, nesse sentido, ser mais banal: um rapaz cresce numa família cristã conservadora, vive uma adolescência toldada pela influência religiosa, apaixona-se por uma rapariga e a relação desfaz-se aos poucos. É o facto de parecer pouco, de parecer quase nada, que implica que o livro tenha tanto lá dentro – é demasiado familiar, uma experiência quase transversal. Por isso, em vez de meramente contar uma história, o livro parece recriar um estado emocional. Há pureza em cada página, assim como beleza e inocência. Não é acção atrás de acção, não são os traços gerais do crescimento de Thompson. Em vez disso, é a cristalização de um momento específico da vida, integrado na adolescência – a mistura brutal, quase insuportável, de desejo, de excitação e de futuro, em que tudo é arrebatador e excessivo.
E tudo ali é impactante: os dois adolescentes enrolados sob cobertores criam uma redoma de conversas e de silêncios, e tudo parece carregado de vulnerabilidade, de efemeridade. Os próprios cobertores, que dão título ao livro, acabam por funcionar como refúgio, calor, infância, protecção, e ao mesmo tempo blindagem do mundo lá fora. Há momentos em que a neve parece consumir a página, contrastando a vida gélida do mundo com a redoma de amor em prazo curto, com o autor a misturar realismo e estilização de uma forma que, para o leitor, é pura expansão expressiva.
Além disso, o livro também ultrapassa a ideia de história contada: em vez de se propor a reconstruir o passado de forma objectiva, o autor assume a recordação como reinterpretação, e o leitor sabe que é isso que tem nas mãos, sem que as passagens quase oníricas saibam a artifício. Por exemplo, quando Craig se sente esmagado pela religião, o desenho parece sufocante; e os momentos de paixão são mais leves e fluidos. A religião perpassa toda a narrativa, impondo ao rapaz culpa pelo desejo sexual, ou pela raiva, ou pela dúvida, ou seja, maculando-o em todos os momentos e todas as sensações. Contudo, não se vê revolta contra a religião, ou sequer denúncia: em vez disso, o autor mostra de que forma um sistema moral molda a forma de amar e o próprio reflexo.

Claro que, em muitos aspectos, a adolescência mudou muito, desde esta que Thompson retratou. Logo estão os elementos das redes sociais ou da hiperactividade ou da ficcionalização de um eu online. Ainda assim, a experiência emocional central permanece reconhecível, em parte na exposição do medo de não se ser amado ou de uma certa inadequação de quem procura ainda um espaço de afirmação. Nisto, o livro é sempre intenso, o que, aqui e ali, poderá parecer ao leitor que é excesso lírico ou repetição sentimental, mas até isso é orgânico, respondendo à lógica interna do livro: a adolescência, tal como o primeiro amor, é excessiva, e a memória cristaliza muita coisa. Além disso, a adolescência também aparece como forma totalizante de acreditar nalguma coisa, e o envelhecimento é uma espécie de garante de que a inocência está perdida.
Ora, quando Habibi chegou, parecia que Thompson tinha encontrado o seu contraste. Após um livro que bebia da experiência concreta de um adolescente norte-americano, num território autobiográfico, íntimo, chegou outro que é uma espécie de fábula de ambição épica, marcada por referências à tradição islâmica, à caligrafia árabe e à narrativa oral, e que prova que Thompson consegue sair do espaço delimitado pela sua própria vida – ainda que, quando o faça, consiga expandir-se para o mundo.
Datado de 2011, Habibi marcou um desvio claro na obra do autor, contando a história de Dodola e Zam, duas crianças abandonadas que buscam a sobrevivência num cenário graficamente amplo e impressionante, com desertos, palácios e cidades imaginadas. E, por muito que a narrativa impressione, mostrando a evolução da relação das crianças ao mesmo tempo, passando-se por violência, separações, transformações, reencontros, resumir o livro ao enredo é reduzi-lo. Habibi foge da norma clássico de ponto A que leva a B: em vez disso, Thompson oferece ao leitor uma tapeçaria de histórias, com narrativas entrelaçadas dentro de outras, mesclando episódios das personagens com contos tradicionais e textos sagrados.

Nisto, e logo de início, o livro impressiona pela dimensão visual. Thompson nunca brinca em serviço, Thompson não sabe o que é um atalho. E, partindo de Blankets, compôs um livro cuja arte em muito o suplanta no que concerne a detalhe e a ornamentação. Por tudo isso, o livro é um festim: as páginas são trabalhadas até ao limite; cada uma tem o condão de poder ser analisada, quase traço a traço, sendo muitas vezes inspirada na geometria e nos padrões da arte islâmica. A própria caligrafia tem conteúdo: em vez de elemento decorativo, é estrutura narrativa, havendo momentos em que arte e texto se fundem até se volverem coisa una.
A ambição formal do livro é, por isso, inegável. Thompson deslumbra, criando um objecto que é visualmente deslumbrante, ao mesmo tempo que põe a fasquia no alto no concerne ao enredo, ao texto, resultando Habibi num livro virtuoso cujo controlo técnico não tem como não impressionar. O autor nunca se foca meramente na história, ou nas histórias, e nos seus avanços. Em vez disso, cria páginas que exigem contemplação, obrigando o leitor a desacelerar a leitura, perante imagens quase hipnóticas. Ora, isto também, é verdade, pode criar certos problemas de leitura, uma vez que a exuberância visual pode ser vista como excesso, levando o leitor a perder-se numa narrativa que ora avança, ora recua, e que exige uma atenção em múltiplas frentes. Habibi contrasta com Blankets também neste aspecto: é um livro de excesso, enquanto Blankets é um de proximidade.
São estes os três livros de Craig Thompson publicados em Portugal. Em todos eles, há universos imersivos, amplos, densos. E nenhum deles é uma história contada, antes uma espécie de espaço habitável, em que muitas vezes o que mais passa ao leitor é uma sensação. Seja na intimidade de Blankets, na exuberância de Habibi ou na maturidade narrativa de Ginseng Roots, vê-se que o autor recusa o fácil, o imediato – como disse antes, os atalhos. Cada um deles é o máximo do que podia ser. Na era do imediatismo, Thompson leva o seu tempo para produzir irrepreensível qualidade.
A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.