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(A) :: 120 pessoas a boiar a ver Monty Python. E se uma piscina municipal fosse uma sala de cinema?

120 pessoas a boiar a ver Monty Python. E se uma piscina municipal fosse uma sala de cinema?

Boias insufláveis, água morna e um ecrã gigante. Há três anos que o festival de cinema IndieLisboa leva filmes à piscina da Penha de França. Reportagem de pés na água.

Joana Moreira
text
Inês Lacerda
photography

Sentados confortavelmente nas boias insufláveis, os olhos estão postos no grande ecrã montado na Piscina da Penha de França, em Lisboa. Só os pés estão mergulhados na água morna. Há toucas na cabeça, fatos de banho de múltiplas cores e chinelos alinhados junto à borda da piscina. Um cheiro intenso a cloro mistura-se com o calor húmido do espaço. 120 pessoas, ao todo, flutuam lentamente enquanto esperam pelo início da sessão. O filme vai começar.

É uma das iniciativas mais concorridas do IndieLisboa, o festival de cinema independente que voltou este ano de 30 de abril a 10 de maio com mais “Cinema na Piscina”, um formato que transformou uma piscina municipal numa sala de cinema improvável e que, desde 2023, se tornou uma das imagens de marca do certame.

É domingo à noite, reina a calmaria quando, meia hora antes, dezenas de pessoas de mochila às costas ou saco ao ombro se dirigem à piscina municipal. À primeira vista, parecem chegar para uma aula tardia de hidroginástica. Mas vêm para ver cinema dentro de água.

A organização recomenda a chegada antecipada para facilitar a troca de roupa nos balneários e o acesso ao espaço. Há regras específicas: é obrigatório saber nadar e o bilhete, mais caro do que os das restantes sessões do festival, custa 10 euros. Em troca, há uma experiência que dificilmente se confunde com outra sala de cinema em Lisboa.

Na última sessão desta edição, o filme escolhido é Monty Python e o Cálice Sagrado (1975), a comédia britânica que satiriza as lendas do Rei Artur e acompanha os Cavaleiros da Távola Redonda numa busca absurda e delirante pelo Santo Graal. O tom anárquico do filme de realização partilhada de Terry Gilliam e Terry Jones parece encaixar naturalmente no ambiente descontraído da piscina.

“Sempre procurámos levar o festival para espaços não convencionais, como a piscina abandonada do Ateneu, as Catacumbas do Liceu Camões, a Fábrica do Pão ou o terraço do Capitólio. A piscina insere-se nessa vontade, num lado mais descontraído que o festival tem”, explica Carlos Ramos, da direção do IndieLisboa, ao Observador.

O programa “Cinema na Piscina” começou em 2023, um desejo antigo que foi sendo adiado pela pandemia e que nasceu depois de elementos da organização do Indie assistirem a sessões semelhantes no festival de Clermont-Ferrand, em França. Seguiu-se um levantamento de várias piscinas públicas e privadas de Lisboa até chegarem à Penha de França. “A escolha deveu-se à proximidade das salas do festival, às condições técnicas e logísticas e também ao entusiasmo da equipa da piscina, que abraçou o projeto desde o início”, conta o porta-voz.

Quando as luzes finalmente se apagam e o genérico do festival toma a tela batem-se palmas, ouvem-se assobios e gargalhadas. Depois, instala-se o silêncio. Não há telemóveis, nem pipocas, nem o ruído habitual de uma sala cheia. Há apenas o reflexo azul do ecrã sobre a água em movimento. O termómetro na parede, por baixo do relógio, marca pouco mais de 30 graus. O calor e o embalo das boias tornam inevitável uma espécie de sonolência coletiva. Há quem adormeça por instantes e acorde já do outro lado da piscina, levado lentamente pela água.

Lucas e Joana, os nadadores-salvadores destacados para a sessão, vigiam discretamente os espectadores flutuantes. O som, admitem alguns no final, continua a ser um desafio. “O som estava uma merd*”, comenta uma jovem no balneário. A amiga resume a experiência com um simples: “Epá, mas mesmo assim adorei”.

Segundo Carlos Ramos, melhorar a acústica tem sido uma das preocupações desde a primeira edição. “Antes de colocar o projecto em prática, houve um planeamento cuidadoso, através de reuniões com a equipa de Clermont Ferrand e com a equipa técnica da piscina, desde a circulação no espaço, às condições de segurança, passando pela temperatura da água, diferente de uma sessão normal de natação. Ao longo das edições temos melhorado sobretudo o som, sempre difícil num espaço como uma piscina, assim como algumas condições logísticas”, explica.

Nada disso tem, porém, demovido fieis do formato. “São normalmente das primeiras sessões a esgotar no festival”, diz o responsável. Há sessões infantis — com uma lotação máxima de 100 crianças — e sessões noturnas para adultos, com lotação de 120 pessoas. “No essencial, é um projecto bastante estável desde o início. Quem vem uma vez costuma voltar no ano seguinte.”

Se nas primeiras edições predominavam os lisboetas habituais do festival, agora ouvem-se várias línguas entre mergulhos e conversas de balneário, sinal de que a iniciativa começou também a atrair estrangeiros que vivem (ou estão de passagem) pela cidade. Nesta noite, a maioria dos espectadores eram do género masculino, algo que alguns tentam explicar com o filme escolhido, clássico de humor britânico com estatuto de culto e um público muito próprio. Na noite anterior, a sessão tinha sido dedicada a Barbarella (1968), o filme de ficção científica realizado por Roger Vadim e protagonizado por Jane Fonda, transformada numa heroína espacial num universo kitsch, psicadélico e assumidamente camp. Entre extraterrestres, cenários pop e figurinos futuristas, o filme tornou-se um ícone da cultura pop e terá atraído um público diferente — talvez mais diverso, arriscam algumas espectadoras à saída do balneário feminino.

Quando o filme termina, alguns mergulham, outros ficam à conversa dentro de água ou dão mais umas braçadas antes de recolherem as toalhas. A sessão acabou, e como se voltássemos a ser miúdos, ninguém quer ser o primeiro a sair da água.