É na página 481 de “O Livro das Minhas Vidas” que Margaret Atwood recorda uma conversa com uma amiga, pouco depois da primeira eleição de Ronald Reagan como Presidente americano:
“– Sabias que a direita religiosa está a ganhar força como movimento político nos Estados Unidos? Sabias que querem empurrar todas as mulheres de volta para «o lar»? Descalças e grávidas na cozinha?
Como é que pretendem enfiá‐las aí?, pensei. Agora que as mulheres têm empregos e dinheiro próprio? Resposta simples: tirar-lhes os empregos e o dinheiro.”
A ideia de escrever um romance sobre um grupo de mulheres atribuídas a famílias da elite para lhes darem filhos esteve na base de “A História de uma Serva” (“The Handmaid’s Tale”, no original de 1985), um trabalho que passou por várias fases, que procurou inspiração na política americana da altura e no secretismo e opressão do Bloco de Leste durante a Guerra Fria. Compreendemos melhor a génese do mais popular dos livros da escritora canadiana (nascida a 18 de novembro de 1939) ao ler a autiobiografia que chega às livrarias portuguesas a 21 de novembro.
Este episódio em particular é ilustrativo da forma que Atwood encontrou para recordar quase 87 anos de vida. É um misto de confissões pessoais com revelações profissionais, a vida doméstica e a maternidade, cruzadas com as angústias da literatura (da escrita aos contratos) e as dificuldades da escritora enquanto professora e protagonista de viagens constantes. Margaret Atwood que estará em Portugal em breve, como convidada da primeira edição do festival literário Babell.

O romance a que me dediquei era algo que tinha vindo a considerar intermitentemente desde 1981. Tinha tentado escrevê-lo no meu escritório da Manning Avenue, mas tinha-o deixado de lado porque me parecia demasiado estranho, até para mim. Uns Estados Unidos futuros como uma teocracia totalitária? Certamente não. No entanto, o livro continuava a fermentar na minha mente.
O romance chamava-se inicialmente Offred. Este era o nome que a minha protagonista tinha recebido quando foi recrutada à força para as fileiras das Servas – mulheres férteis, divorciadas e, portanto, segundo a Bíblia, pecaminosas, atribuídas a homens mais velhos e da elite para lhes darem filhos e às suas esposas, tal como as servas de Raquel e Lia na Bíblia. Offred foi rebatizada quando foi atribuída a um Comandante chamado Fred. («Comandante», como em «Comandante dos Fiéis».) Nunca nos é revelado qual é o verdadeiro nome de Offred, embora os leitores e os argumentistas de televisão tenham desde então decidido que o seu nome é June. Tomaram esta decisão porque «June» é mencionado no primeiro capítulo, enquanto os nomes reais são sussurrados entre as Servas, mas o nome «June» nunca mais aparece no livro. Estou satisfeita com a escolha dos leitores: faz sentido.
Cheguei ao nome Offred escrevendo muitos nomes próprios masculinos e colocando «of» à frente. Nomes em várias línguas são formados desta maneira – alguns acrescentam «son» no final, como em Anderson. Outros colocam De, Von ou Van à frente, o que pode indicar um nome ou uma família, e frequentemente tem uma associação com a nobreza. Depois há Mac e Fitz, que significam «filho de». Estes prefixos e sufixos indicam descendência pela linha masculina.
«Of» tem mais significados: o lugar de onde uma pessoa vem, a quem pertence ou de quem é propriedade. Em Offred, é principalmente o último caso: uma Serva é propriedade, temporariamente, do homem de quem se espera que produza descendência. E, ao contrário de Ofbob, Ofarthur ou Ofkevin, está a apenas a um «re» invertido e a um «e» extra de distância de «offered», uma palavra usada – biblicamente e noutros contextos – para presentes oferecidos a divindades, incluindo sacrifícios animais e humanos. «Deverás fazer uma oferta de fogo ao Senhor […].»
Offred, ao contrário de mim, está muito interessada em manter um diário. Ela escreve o seu diário num lugar seguro, que pode ou não ser temporário, e esconde-o caso seja perseguida e apanhada. É um diário de prisão e – tal como os relatos da Peste Negra – um registo de uma catástrofe em massa vivida por uma pessoa. Tal como o diário de Robinson Crusoé, é também uma descrição das rotinas quotidianas. Tem algo em comum também com a literatura samizdat, que era contrabandeada para o Ocidente durante a Guerra Fria, obras que não podiam ser oficialmente publicadas, mas que eram passadas secretamente de mão em mão, como, por exemplo, Kaputt, de Malaparte, o que certamente lhe teria causado problemas se tivesse sido intercetado. No fundo da minha mente estavam os mensageiros de Job, que correm para lhe dizer que a sua riqueza foi destruída e que todos os seus filhos foram mortos: «Só eu escapei para te contar.» Para que uma história sobreviva, tem de ser transmitida a outro contador de histórias. É aqui que entram as proibições e as queimas de livros: quebram a cadeia.
Offred está a enviar uma mensagem para o futuro, mas quem a lerá, e será inteligível? Imagino que algumas destas ideias e questões estivessem na cabeça de George Orwell nos anos 1940, enquanto criava Winston Smith de 1984, tão tentado pelo papel cremoso, pela pena e pela tinta que lança na sua escrita autodestrutiva. Para quem é isto?, pergunta-se ele. Se for para o presente, ninguém conseguirá ler; se for para o futuro, ninguém compreenderá. Depois, há o relato da vida e dos tempos de que nos fala o Imperador Cláudio, de Robert Graves, na sua saga em dois volumes dos anos 1930, Eu, Cláudio e Cláudio, o Deus. Cláudio quer registar a verdade sobre o que se passava realmente durante as primeiras décadas do Império Romano: alguém deveria saber finalmente que tipo de pessoas horríveis eram os seus parentes. Percebe que há um grande risco de que a sua voz escrita pós-morte seja destruída ou nunca encontrada, mas todos os diaristas correm este risco, e Offred também.
História da origem #1
As pessoas têm-me perguntado repetidamente – e em especial desde as eleições norte-americanas de 2016 e 2024 – como me ocorreu uma ideia tão impensável. Embora a ideia se tenha tornado menos impensável a cada minuto que passa.

Em 1981 – logo após a eleição de Reagan em 1980, quando já vivíamos na Sullivan Street –, estávamos a dar uma festa. A velha amiga do Graeme, Eve Zaremba, estava presente. Nessa altura, ela fazia parte do coletivo feminista que publicava a revista Broadside, por isso estava atenta ao que se passava com as mulheres. Esse ouvido estava particularmente apurado, já que ela tinha escapado da Polónia durante a ocupação nazi e testemunhado os efeitos do regime soviético da Cortina de Ferro nesse país. Quando estávamos ao lado da mesa de jantar, disse-me:
– Sabias que a direita religiosa está a ganhar força como movimento político nos Estados Unidos? Sabias que querem empurrar todas as mulheres de volta para «o lar»? Descalças e grávidas na cozinha?
Como é que pretendem enfiá‐las aí?, pensei. Agora que as mulheres têm empregos e dinheiro próprio? Resposta simples: tirar-lhes os empregos e o dinheiro.
História da origem #2
Nunca tinha escrito um romance de ficção científica ou de ficção especulativa. Qual é a diferença? O patriarca da ficção científica é H. G. Wells, com os seus extraterrestres marcianos de cérebros enormes e canibais que invadem a Terra – um cenário improvável de acontecer. O patriarca da ficção especulativa é Júlio Verne, com os seus submarinos e viagens de balão à volta do mundo. Na sua época, essas coisas eram consideradas perfeitamente possíveis. 1984 também é perfeitamente possível. A História de Uma Serva também. São obras de ficção especulativa.
Tinha lido montes de utopias, tanto literárias como reais, do século XIX, quando se pensava que o mundo podia ser amplamente melhorado com novas tecnologias e sistemas de governo. Também tinha lido muitas distopias escritas no século XX, altura em que utopia se tornara um termo pejorativo. As utopias tinham saído de moda após a Primeira Guerra Mundial e a carnificina nas trincheiras, e especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, que tinha matado ainda mais pessoas e na qual dois dos principais beligerantes, a Alemanha e a União Soviética, eram utopias que tinham dado completamente para o torto.
Eu era uma adolescente nos anos 1950 – a era dourada de Ray Bradbury, de John Wyndham, de The Death of Grass de John Christopher, e outros. Tinha lido 1984 numa versão barata de bolso com um grande decote na capa. Tinha lido Eu, Robot. Tinha até lido A Ilha dos Pinguins, de Anatole France. O ponto é que conhecia a forma, e também as suas armadilhas. No meu livrinho sobre ficção científica/ficção especulativa, intitulado In Other Worlds, disse que as utopias e as distopias estão intimamente ligadas: cada utopia contém um pouco de distopia – o estado terrível da sociedade antes da implementação da utopia, o estado terrível em que poderia voltar a cair, a condição de exílio ou de não-vida daqueles que não concordam com o regime. E cada distopia contém um pouco de utopia – um passado recordado como dourado, um recanto ou porta através do qual a fuga é possível. Chamo a esta dupla face «ustopia».
Uma das características da ustopia consiste num período de caos que permite a ascensão ao poder de uma administração forte e determinada. Geralmente, existe uma narrativa incorporada que explica como surgiu o estado atual das coisas e que também esclarece todo o seu pensamento subjacente. Acima de tudo, uma ustopia, como qualquer outra ficção, deve ser consistente com os seus próprios axiomas. «A» não pode ser simultaneamente um mundo com couves falantes e «Não-A», um mundo em que todas as couves são apenas salada de repolho. Perguntava-me: estaria eu à altura de enfrentar esses desafios?
História da origem #3
Mais atrás, no capítulo intitulado «A História de Uma Serva: A prequela», mencionei Perry Miller e a sua cadeira sobre a teocracia puritana do século na Nova Inglaterra. A isto acrescento: Ex nihilo nihil fit. Nada surge do nada. A ideia teocrática puritana não desapareceu por completo durante o Iluminismo do século. Nenhum país surge a partir de uma folha em branco. Os astecas e os maias, quando queriam construir uma pirâmide maior, não destruíam a existente: simplesmente construíam a nova por cima. Os czares russos tinham uma extensa rede de polícia secreta e, depois da Revolução, a União Soviética aperfeiçoou-a. E assim por diante.
Portanto, em resposta à pergunta que me fiz: se os Estados Unidos tivessem uma ditadura totalitária, que forma assumiria? Que bandeira seria erguida? Decidi que seria uma teocracia supostamente cristã, com a Bíblia alterada e citada para servir os objetivos do regime. Acrescento que o cristianismo verdadeiro nada tem que ver com Gileade de A História de Uma Serva: nada de amar o próximo como a si mesmo, nada de fazer aos outros o que gostarias que te fizessem, nada de o Reino de Deus estar dentro de cada um de nós. Apenas a velha sede de poder autojustificada e repressão.
Em finais de março de 1984, mudámo-nos do gélido vicariato de Blakeney para Berlim Ocidental. Tinha sido convidada para Berlim Ocidental com uma bolsa do DAAD – Deutscher Akademischer Austauschdienst, ou Serviço Alemão de Intercâmbio Académico – destinada a pessoas vindas de outros países. Suspeitávamos que servia para atrair académicos e artistas para Berlim Ocidental, onde as pessoas se sentiam isoladas. Havia então muitos apartamentos vazios, já que pouca gente queria viver ali: a cidade parecia demasiado precária, cercada como estava pelo impenetrável Muro da Alemanha de Leste. Todos os domingos, a Força Aérea da Alemanha de Leste provocava estrondos sónicos, apenas para nos lembrar que estavam prontos e à espera.

Havia um número desproporcionado de mulheres idosas zangadas – sem dúvida sobreviventes de maridos mortos e também das violações em massa que tinham ocorrido quando os russos entraram em Berlim no fim da Segunda Guerra Mundial. (A guerra facilita a violação em massa – tanta tentação, nenhuma restrição legal que possa ser aplicada e, de qualquer modo, os alvos são o inimigo – mas a brutalidade russa foi sistemática e extrema. Tudo o que fosse do sexo feminino era violado, incluindo crianças pequenas e avós. Muitas foram também assassinadas.) Havia um número desproporcionado de homens jovens em Berlim Ocidental: ali não era obrigatório cumprir o serviço militar. Mas havia muito poucas famílias jovens. Assim, o DAAD tinha muitas opções quando escolhia alojamentos para os seus artistas convidados.
Foi-nos atribuído um apartamento de segundo andar, perto do centro, na Helmstedter Straße. Esta rua tinha sido bombardeada: casa antiga, casa nova, casa nova, casa antiga. O nosso apartamento ficava num quarteirão mais antigo. Quando vi o filme M, de Fritz Lang, com Peter Lorre no papel de um assassino de crianças, reconheci de imediato o local onde a mãe angustiada espera pela filha: ela está na varanda traseira, usada para estender a roupa. O nosso apartamento tinha uma varanda parecida. Tínhamos também uma sala de estar, uma sala de jantar, uma cozinha, um quarto pequeno e um maior, e ainda outro quarto pequeno que talvez tivesse sido, em tempos, o da criada. Havia um grande cofre metálico na sala de estar. Quem teria vivido neste apartamento antes da guerra? E o que teriam guardado naquele cofre?
Aluguei uma máquina de escrever elétrica com teclado alemão. Isso não foi um obstáculo tão grande como teria sido se eu soubesse escrever à máquina sem olhar para o teclado. Trabalhava à mesa da sala de jantar quando não a estávamos a usar para comer. Offred – prestes a transformar-se em A História de Uma Serva – começava a ganhar uma forma vaga. Até então, era apenas um pressentimento: a possibilidade de uma possibilidade.
Explorámos a cidade, fomos aos museus, visitámos galerias de arte. Eu e a Jess furámos as orelhas; ela andava a insistir há algum tempo, e eu tinha dito que só faria isso quando ela percebesse que ia doer – portanto, nada de queixas – e que teria de cuidar dos furos. Furei as minhas orelhas ao mesmo tempo, para poder avaliar o nível da dor. Fomos ao KaDeWe – o maior centro comercial – e uma valquíria loira e imponente furou-nos as orelhas com uma pistola de agrafos. Doeu bastante. Nenhuma de nós se queixou.
Eu estava a ler o romance Mefisto, de Klaus Mann – sobre a tomada do poder pelos nazis – e a aperfeiçoar o meu alemão com a ajuda de uma explicadora rigorosa: «Vai ouvir isto na rua, mas não o diga! Está errado!» Mas eu queria saber o que as pessoas diziam na rua. Copiava anúncios do metro U‐Bahn e palavras estranhas – fußpilz, literalmente «cogumelo do pé», para pé de atleta – e pedia-lhe que me ajudasse a traduzi-las. A Jess aprendeu alemão depressa, pois as crianças são esponjas para línguas estrangeiras, e eu mandava-a às compras com o Graeme para que ela pudesse traduzir. Isso foi-lhe muito útil quando, mais tarde, estudou alemão a sério.
Quem conseguiria resistir a dar uma espreitadela – ou duas, ou três – para lá da Cortina de Ferro? Nós não. Para nós, canadianos, era fácil ir a Berlim Oriental, embora não fosse nada fácil para os alemães. Apanhámos o S‐Bahn, passando por várias estações de metro encerradas, e fomos recebidos com rosnadelas por guardas da Alemanha de Leste mal-encarados na fronteira, onde fomos obrigados a trocar moeda ocidental por marcos da Alemanha de Leste, que não podiam ser reconvertidos. Não havia praticamente nada onde e em que gastar o nosso dinheiro de Leste, exceto gelados (estranhos), chocolate (péssimo) e exemplares de Karl Marx e Lenine. Os berlinenses de Leste ajudavam se lhes pedíssemos indicações, mas, de resto, mantinham distância – e não admira: hoje sabemos que uma em cada cinquenta pessoas era informadora, que denunciava os vizinhos, pelo que interagir com ocidentais podia ser perigoso. No entanto, era seguro para os Ossis (os orientais) falar com crianças, pelo que a nossa filha recebeu muitos sorrisos e beliscões nas bochechas: «Ach, die kleine Engel! Wie süß!» («Ah, a pequena anjinha! Tão querida!»). Eram muito mais simpáticos com as crianças em Berlim Oriental do que no lado ocidental, onde os miúdos tendiam a ser empurrados para fora do caminho pelas velhas zangadas.
Fomos convidados a ir à Checoslováquia pela Embaixada do Canadá, no âmbito de um intercâmbio cultural. Ficámos alojados num «bom» hotel. Ao conduzir-nos ao quarto, o empregado fez o gesto de silêncio – dedo nos lábios – e apontou para o candeeiro, indicando que estava sob escuta. Depois chamou-nos para o átrio. «Querem trocar algum dinheiro?», sussurrou.
Em Praga, o Graeme foi à procura de Franz Kafka, cuja obra tinha sido suprimida pelo regime: com os seus governos sem sentido e os seus castigos brutais e arbitrários, Kafka estava desconfortavelmente próximo da realidade. Se disséssemos «Kafka», as pessoas apressavam-se a afastar-se. Corria o rumor de que um jovem aparecia em esquinas de rua no aniversário de Kafka e lia excertos da sua obra, mas as autoridades deviam achar que ele tinha uma doença mental, pois ninguém o prendia. O Graeme tinha uma lista de endereços de Kafka. Num deles, decorria uma festa barulhenta: aqui não há Kafka, adeus. Noutro, havia andaimes montados, que conduziam a uma janela do primeiro andar de onde emanava uma luz estranha. O Graeme subiu: dentro do quarto estava um homem enorme a dormir num sofá, com um televisor cujo ecrã emitia apenas uma trémula luz azul. Tão kafkiano.
Na capital checoslovaca, conhecemos a minha tradutora, Dana Hábová, e o seu marido, Veroslav. Eram discretos, mas forneciam informações de forma indireta. Não conversávamos livremente nos carros ou nos quartos – sob escuta, provavelmente –, mas apenas ao ar livre. Um assunto muito proibido dizia respeito à poluição. Praga queimava lenhite no inverno, que gerava fumo e prejudicava a saúde; por isso, se fosse possível tirar os filhos da cidade, tanto melhor. Os legumes vendidos pelo governo eram conhecidos por estarem encharcados de químicos tóxicos: era melhor conhecer alguém no campo. O Veroslav era historiador de cinema, e vimos a versão original dos Três Porquinhos nos arquivos de cinema. Suficientemente seguro, pensar-se-ia, a menos que o Lobo Mau fosse uma metáfora para o Grande Estado Mau.

Desde então, têm-me perguntado: devo ter certamente sentido o ressentimento, o espírito de rebeldia, o desejo de se libertarem que devia estar a ferver e prestes a explodir quando a Cortina de Ferro caiu? Assim como perguntam sobre A História de Uma Serva: «Porque é que não protestaram, não fizeram manifestações e greves?» A resposta é a mesma: quem faz estas perguntas não compreende os totalitarismos. Os totalitarismos esmagam qualquer sinal de resistência. A palavra-chave é total. Toda a gente usa uma máscara.
No hotel de Praga, eu disse ao Graeme:
– Porque é que há tantas mulheres solteiras, bem vestidas e atraentes sentadas no bar?
Ele lançou-me um olhar de pena: quão ingénua podia eu ser?
– Para atrair empresários estrangeiros – disse ele.
Uma delas tinha tentado atraí-lo. Duplo erro: primeiro, como empresário, ele era o equivalente a um fóssil de caranguejo-ferradura. Segundo, mulheres bem vestidas, atraentes e com intenções de sedução em bares não eram o seu forte. Preferia saltar para um pântano cheio de crocodilos.
Recebemos um convite para a Polónia, também da Embaixada do Canadá. Nessa altura, era a época dos morangos, a época dos espargos já tinha passado, por isso Varsóvia estava cheia de morangos. Estava também cheia de pessoas à procura de moeda estrangeira às escondidas; era muito útil no mercado negro. Quando um táxi que chamámos parou, o motorista disse:
– Dólares?
– Zlotys? – respondemos nós.
Ele arrancou.
O que poderíamos comprar com os maços de zlotys que os editores polacos nos tinham pago pelos nossos romances traduzidos? Tal como na Checoslováquia ou na Alemanha de Leste, não podiam ser trocados por moeda ocidental. Felizmente, os polacos tinham mais para oferecer do que os alemães do Leste. Comprámos alguns cartazes lindíssimos, um ícone bem feito, embora falso – a exportação dos verdadeiros era proibida – e algumas joias de prata excêntricas: um grande escaravelho de prata numa corrente, uma concha de caracol num suporte de prata convoluto. Visitámos uma exposição de livros infantis.
– Porque é que há tantos livros infantis lindamente ilustrados? – perguntei.
– Pense nisso – disseram.
Também nos mostraram o sindicato estatal de escritores. Enquanto tomávamos um café (mau), disseram:
– Querem alguns samizdat?
– Claro – respondemos nós.
– Só um segundo.
Voltaram com os samizdat. Estavam a distribuí-los mesmo ali, debaixo do nariz das autoridades. Naturalmente, não podíamos lê-los: estavam em polaco. Mas compreendemos o gesto simbólico.
Os polacos, tendo sido invadidos durante séculos – veja-se o épico romance de 1884 A Ferro e Fogo, de Henryk Sienkiewicz –, são conhecidos por correr riscos. E havia uma base de poder alternativa na Polónia, demasiado grande para ser exterminada de todo: a Igreja Católica polaca. Estivemos lá durante uma procissão religiosa, logo depois de um padre assassinado ter sido encontrado no Rio Vístula. A procissão era longa, com numerosos padres e freiras muito carrancudos e desafiantes.
Este lugar vai desmoronar‐se primeiro, pensei. As fissuras na parede já eram visíveis. Demorou mais cinco anos, mas, de facto, o partido sindical, Solidariedade, obteve uma vitória esmagadora em junho de 1989 – seis meses antes de os comunistas serem afastados da Checoslováquia e de o Muro de Berlim cair.
Durante quase dois meses, não escrevi nada no meu diário. A 5 de abril, anoto que estamos na Alemanha e que escreveria mais informações depois. (Não o fiz.) A 26 de maio, anoto que eu e o Graeme tememos a viagem de regresso. «Nem o G. nem eu esperamos ansiosamente voltar para o Canadá. Isso paira como uma espécie de buraco negro. M. [Marian Engel] provavelmente está a morrer […]. O meu romance dividiu-se em duas partes e não tenho a certeza de qual devo prosseguir. A ideia de publicar alguma coisa provoca-me uma espécie de paralisia. Para quê sujeitar-me a isso?» Nada é registado no diário entre 26 de maio de 1984 e 29 de julho de 1984. Depois, surge uma nota críptica: «Beber mais água. Beladona (ponte). A envelhecer.» «Beber mais água» é uma nota pessoal para mim mesma. «Beladona (ponte)» deve significar que já estava a pensar em Olho de Gato, inicialmente chamado The Ravine, que iria escrever em 1987 e 1988, onde aparecia a beladona mortal. «A envelhecer»? Era eu a envelhecer, ou alguém num romance?
A 12 de setembro, depois de um verão de regresso ao Canadá, na Ilha Galiano, na Costa Oeste, escrevo: «Quero voltar a “Offred” em breve.» Nessa altura, o romance já tinha setenta e três páginas, mais um grande número de notas. Pouco depois, o título foi alterado para The Handmaid’s Tale (A História de Uma Serva). Porquê Tale? Uma homenagem a Geoffrey Chaucer. Além disso, uma tale está a um passo de distância de uma história ou de um relato. E pode haver alguma invenção envolvida, como em «tall tale», uma história exagerada ou improvável. Naquele tempo, em 1984, parecia mesmo uma tall tale – não havia dúvida de que os Estados Unidos eram líderes do mundo livre e democrático. Mas agora, já não parece tão exagerado ou improvável.

Em inícios de 1985, viajámos para Tuscaloosa, no Alabama. Eu tinha aceitado um cargo de professora convidada – escrita criativa e uma cadeira de literatura canadiana a que chamei «Gótico do Sul do Ontário»: Robertson Davies, Alice Munro, Marian Engel, Graeme Gibson, James Reaney – todos da região do Ontário a que chama-mos Sowesto, entre London/Stratford e Windsor e a costa sudeste do Lago Huron. Nessa altura, havia placas na estrada que diziam «Prepare-se para encontrar a sua perdição» e «Terra do Massacre dos Black Donnelly». Os estudantes do Alabama adoraram estes livros: segredos perversos, mexericos e escândalos locais, fantasmas, idiotas da aldeia, rixas e assassinatos não eram novidades para eles.
Estávamos ansiosos por ver as aves daquela região: por exemplo, o grande, lento, apetecível e raro carão. O Graeme soube que, se seguíssemos as instruções dadas pelos nossos colegas, era perfeitamente seguro observar aves. Devíamos estacionar o carro à beira de um troço promissor de floresta. Devíamos esperar. Pouco depois, apareceria uma carrinha. Teria uma espingarda. O homem que a conduzia perguntaria – de forma suficientemente educada – o que queríamos. Depois de explicarmos, dar-nos-ia autorização. Se entrássemos na propriedade sem essa autorização, corríamos o risco de ser abatidos como intrusos.
A situação era resumida por uma cantiguinha simpática que as crianças da escola cantavam:
Esta terra é minha, esta terra não é tua,
eu tenho uma caçadeira e tu não tens nenhuma,
se não te puseres a andar, rebento-te a cabeça:
pois toda esta terra é da minha pertença.
Assim que chegámos, as pessoas diziam-nos com orgulho: «Tuscaloosa, Alabama, é a capital do homicídio dos Estados Unidos.»
– Oh, que horror – dissemos nós. – Se calhar devíamos ir já para casa!
– Não se preocupem. Aqui só disparam contra a família.
(Quando descemos até Mobile, disseram-nos: «Mobile, Alabama, é a capital do homicídio dos Estados Unidos.»)
– Não andem de bicicleta aqui – avisaram-nos. – As pessoas pensarão que são comunistas e atiram-vos para fora da estrada.
– Onde estão todas as pessoas negras? – perguntámos nós, não tendo visto nenhuma.
– Oh, estão do outro lado da cidade.
A certa altura, entre a ligeira descida da temperatura abaixo de zero – sirenes de carros de bombeiros, avisos para não ir para a estrada – e a aproximação de um tornado – sirenes de carros de bombeiros, avisos para não ir para a estrada –, a Conferência das Mulheres do Sudeste chegou à cidade, com freiras lésbicas e tudo o mais que um coração feminista palpitante poderia desejar.
– Mas isto é a terra do Ku Klux Klan – disse eu. – Não estão preocupadas?
– As notícias correm devagar no Sul – responderam elas. E, de facto, estiveram na cidade e saíram antes que alguém desse por isso.
Em fevereiro de 1985, a nossa velha amiga e cofundadora do Sindicato de Escritores, Marian Engel, morreu do cancro que tinha desde finais da década de 1970. Despedimo-nos da sua voz inteligente e sagaz. Ela apareceu-me num sonho para me tranquilizar: «Está tudo bem», disse ela, referindo-se à morte. «Simplesmente, desligamo-nos, como uma televisão.» Naqueles tempos, a imagem encolhia em direção ao centro do ecrã antes de se apagar. Mais tarde, escrevi no meu diário: «Ver o meu texto sobre a Marian no Saturday Night, com uma fotografia magnífica dela – a saltar – em Paris –, fez-me perceber mais uma vez o quanto sinto a sua falta.»
Foi em Tuscaloosa que conhecemos Valerie Martin, uma romancista – natural de Nova Orleães – que também lecionava como professora convidada na Universidade do Alabama. Ela e eu tínhamos filhas mais ou menos da mesma idade, e assim se criou uma ligação. A Valerie era inteligente, divertida e frontal, e a nossa amizade tem permanecido desde então. Em abril, terminei A História de Uma Serva. Eu estava preocupada com o livro: era quase certo que seria acusada de ser anticristã, uma feminista maléfica e uma herege no que toca à religião da América, terra da democracia. A Valerie foi a sua primeira leitora.
– Acho que vou meter-me em sarilhos – disse-lhe eu.
– Acho que vais ganhar muito dinheiro – respondeu ela.
Enviei o romance concluído à Agente-Phoebe. Ela ficou entusiasmada. No Canadá, foi para a McClelland & Stewart. Imaginei o Jack the Mac a emborcar quatro ou cinco uísques enquanto o lia: se antes já me achava meio maluca, deve ter confirmado a sua opinião. No Reino Unido, Jonathan Cape e Liz Calder aceitaram-no sem hesitar. Nos Estados Unidos, porém, a história foi mais complicada. Por contrato, a Simon & Schuster tinha direito de preferência. Mas não aceitou o preço da Phoebe, pelo que ela pôs o livro em leilão, à vista desarmada. A vencedora foi a Nan Talese, então na Houghton Mifflin – tinha sido a minha editora nos tempos da dupla Dan-e-Nan de Ressurgir e há muito que desejava voltar a ter-me como sua autora. Deus sabe o que ela pensou do livro depois de o ler: tinha preferência por sagas familiares e ficção histórica. Poder-se-ia argumentar que A História de Uma Serva se enquadra nestas duas categorias, mas não de forma muito convincente. Contudo, a Nan ofereceu um valor que ninguém conseguiu superar.
Os anos 1980 não eram uma época de utopias literárias, nem de distopias. Como é que ela iria vender este livro? A Nan deve ter-se questionado. No entanto, fiel ao seu carácter resoluto, lançou-se ao trabalho com um sorriso. A capa icónica era de Fred Marcellino: as duas Servas com os seus trajes de Capuchinho Vermelho e cestos, os seus lenços a projetar sombras de lobos no alto muro de pedra por detrás delas. Naqueles tempos, os muros com aquele aspeto sugeriam, inevitavelmente, o Muro de Berlim.

A História de Uma Serva saiu no outono de 1985 no Canadá e na primavera de 1986 nos Estados Unidos e em Inglaterra. As críticas e entrevistas variaram nestes três territórios.
Inglaterra: Uma história bem catita. (Tiveram as suas guerras civis religiosas, no século, sobreviveram ao puritano e autocrático Oliver Cromwell e não tinham a intenção de repetir a experiência.)
Canadá: Nervosos, como de costume. «Poderia acontecer aqui?»
Estados Unidos: Por um lado, «Que disparate, somos a principal democracia liberal do mundo, isso nunca poderia acontecer aqui». Por outro, «Quanto tempo nos resta?».
Antes de saber que A História de Uma Serva seria publicado no início da primavera nos Estados Unidos, aceitei um breve cargo como professora convidada na Universidade de Nova Iorque. A minha vida transformou-se numa loucura autêntica: ir para Nova Iorque, dar aulas, sair em digressão, deslocar-me para Toronto nos fins de semana. Estava exausta. Entretanto, o pai do Graeme tinha morrido no início de janeiro e o seu irmão, Alan, estava muito doente, por isso ele também estava exausto. Eu estava a lecionar a cadeira Gótico do Sul de Ontário, a mesma que lecionara em Tuscaloosa. Ao contrário dos habitantes do Alabama, os jovens de Nova Iorque ficaram confusos com a cadeira. «Será que o Canadá está mesmo cheio de maníacos e idiotas?», perguntaram.
Olhem pela janela – disse eu. – Também há muitos desses em Nova Iorque. Mas… vocês não têm nada que ver com eles.
A História de Uma Serva tinha vendido alguns milhares de exemplares na Grã-Bretanha após a sua publicação, mas depois, para desgosto da editora, estagnou. Em seguida, foi nomeado para o Booker Prize no outono de 1986 e voltou a vender. Nunca mais parou. Sem dúvida, terá aterrorizado e corrompido gerações de jovens – dizem-me que é muito «bom para ensinar» e que gera muitas «discussões».
O Booker era então uma instituição ainda maior do que é hoje. Os «bookies» nos programas de rádio do Reino Unido anunciavam as probabilidades, não tanto sobre os livros nomeados, mas sobre os juízes. Na altura, era raro uma mulher ser nomeada, quanto mais uma canadiana, pelo que os meus editores estavam – como dizem os ingleses – nas nuvens. Houve um jantar de gala que foi muito divertido para o Graeme e para mim, como estes eventos de prémios podem ser quando se sabe que não há a menor hipótese de ganhar. Consumiu-se muito álcool, e as enormes câmaras de televisão da época filmaram as ervilhas verdes e as cenouras alaranjadas que voavam por cima das toalhas brancas. O barbudo e irónico Robertson Davies, meu compatriota canadiano, estava nomeado por What’s Bred in the Bone; trocámos encolheres de ombros e olhares pesarosos. Kingsley Amis venceu, com Os Velhos Diabos, e disse que ia gastar o dinheiro em cortinas novas para a janela da cozinha. O Davies comentou: «Os ingleses são muito gentis para com os seus velhos artistas.»
A História de Uma Serva ganhou outros prémios: o Governor General’s Award de 1985, o primeiro Arthur C. Clarke Award e o Los Angeles Times Book Prize de Ficção. Este último teve um significado especial para mim, pois o editor de livros do Los Angeles Times era Jack Miles, que tinha sido padre jesuíta e estava prestes a escrever Deus: Uma Biografia, um dos meus livros favoritos sobre a Bíblia. Senti que ele teria compreendido o meu livro.
No meu diário, escrevi: «Exagerei nas palestras, fiz o habitual juramento de nunca mais o fazer […]. Sinto-me esvaziada. Mas funcional.» E também escrevi: «Aranhas viúva-negra. Pólio no verão. Piscinas públicas. Doenças contraídas nas casas de banho. Os pénis contêm sementes.»
Já estava a voltar-me para o romance que viria a ser Olho de Gato.