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(A) :: Justiça Cega sobre o "Sr. Engenheiro". "Estamos atraídos pela miséria do que somos enquanto país"

Justiça Cega sobre o "Sr. Engenheiro". "Estamos atraídos pela miséria do que somos enquanto país"

Autor Henrique Dias e o encenador Rui Melo explicam que "na comédia procuramos sempre o ridículo" — mesmo que seja a do sistema judicial e político. E o riso é "forma de nos redimirmos".

Mariana Furtado
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Luís Rosa
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A Operação Marquês foi, mais uma vez, o tema central do “Justiça Cega”, o programa da Rádio Observador. No entanto, desta vez, o julgamento mais mediático da democracia portuguesa não foi discutido com advogados, procuradores ou juízes. O debate fez-se com Henrique Dias e Rui Melo, respetivamente o autor e o encenador da peça “Senhor Engenheiro” — um musical que satiriza a vida de um engenheiro que ascende a primeiro-ministro e acaba envolto num complexo processo judicial.

https://observador.pt/programas/justica-cega/queremos-saber-mais-sobre-socrates-para-nos-redimirmos/

E depois do sucesso em Lisboa, onde o espetáculo foi visto por mais de 25 mil espetadores, o “Sr. Engenheiro” está em cena no Coliseu do Porto. As sessões iniciaram-se a 14 e vão até ao dia 17 de maio.

A ideia para a peça não surgiu de uma aprofundada reflexão jurídica, mas provavelmente no sofá, ao observar a espuma dos dias. “Surgiu de um telejornal que estava a ver”, recorda Henrique Dias. Ali, ao dar-se conta de que a Operação Marquês já ia em quase 20 anos, percebeu “há quanto tempo é que isto andava nas nossas vidas”.

https://observador.pt/especiais/o-motorista-a-assessora-o-primeiro-ministro-e-o-amigo-dele-eis-sr-engenheiro-a-farsa-musical-inspirada-em-jose-socrates/

Apesar dessa constatação, foi o próprio tempo o responsável por transformar a perceção social do caso: “Como o humor funciona por identificação, pensei que era um ótimo tema para se fazer comédia. O caso já tinha passado por ser uma coisa estranha, um drama, um escândalo, e já estava naquela fase em que era mais cómico do que outra coisa”. “É isso que nós procuramos na comédia, é o ridículo, sempre. Pegar numa coisa que não tem graça nenhuma e fazer um musical logo à partida é um conceito com alguma graça”, explica ainda.

Mais do que a mera caricatura, o encenador Rui Melo defende que o espetáculo não deixa de querer inspirar a reflexão. “Queríamos que aquilo fosse uma espécie de reflexão sobre a relação com o poder e o dinheiro. Sim, é inspirado na vida dele [de José Sócrates], mas queríamos que fosse mais abrangente”, pensando como qualquer português “reagiria ao vir de uma vida simples e de repente ter o poder e dinheiro que ele chegou a ter”, refere.

A própria queda da personagem central oferece uma matéria-prima rica para a ficção: “Esse ‘cair em desgraça’ é interessante do ponto de vista da dramaturgia: uma pessoa que teve a relevância e a preponderância que [José Sócrates] teve na política nacional e europeia, com muito bons contactos e, de repente, acaba nesta desgraça, nestes processos”, acrescenta Henrique Dias.

Por que queremos rir da nossa própria “miséria”?

Sobre o fascínio que o caso ainda exerce no público, Rui Melo assume que a sua própria visão do processo mudou: “A história já deu a volta. Passou de caso grave a escândalo e agora tudo o que aparece já me faz rir. Vejo humor em tudo e aqui não preciso de procurar muito para o achar”.

Henrique Dias vai mais longe e aponta para uma espécie de catarse coletiva através do riso. “Eu acho que estamos atraídos pela miséria do que somos enquanto país. Olhar para este processo é olhar para a decadência do sistema judicial, político e da falta de vigilância. Há uma certa culpabilização e a forma de nos redimirmos dessa culpa é rirmos daquilo”, argumenta o autor.

“O caso Maddie McCann noutro país já teria dado um filme. O mesmo com o caso Casa Pia”. E não está excluído um ‘André Ventura no Gelo’

Apesar da riqueza destes enredos reais, o panorama audiovisual português continua a evitar a ficção inspirada em casos contemporâneos. Henrique Dias encontra a explicação nos critérios de financiamento público e no receio de tocar em temas “divisivos”: “No cinema, os critérios de fundos públicos pontuam mais o valor histórico, o que nos empurra para a história antiga. E há o medo de tocar em temas que ainda não estão sedimentados. Os produtores não querem correr riscos com temas que podem ser divisivos”.

Rui Melo subscreve esta visão e partilha o ceticismo inicial que encontrou na génese deste projeto. “Há sempre um pudor em relação a temas atuais, sobretudo políticos. No início, houve pessoas que me perguntaram: ‘Mas eu alguma vez vou ver um espetáculo sobre esse senhor?’. Mal percebiam que era uma comédia”, relata.

O ator e encenador defende que a realidade nacional está cheia de potencial dramático ou cómico desperdiçado: “Se isolarmos os factos, tudo tem graça. Eu adorava fazer o musical ‘André Ventura no Gelo’.” Para Melo, trata-se de um bloqueio cultural: “É uma coisa muito nossa. O caso Maddie McCann noutro país já teria dado um filme ou série. O mesmo com o caso Casa Pia.”

O “universo do surrealismo” de Sócrates tem matéria para continuar. Mas “Isaltino Morais e o caso das malas” também têm potencial

O futuro d’”O Senhor Engenheiro” poderá não ficar por aqui, uma vez que a realidade continua a fornecer episódios dignos de guião. “’O Senhor Engenheiro: Parte 2′ não está fora de questão”, revela Henrique Dias. “A peça atual pára precisamente na entrada dele na primeira sessão de julgamento. O que aconteceu depois — as discussões com a juíza, a renúncia dos advogados — entra no universo do surrealismo e do ridículo”.

Quanto a outras figuras da cena pública que poderiam inspirar novos espetáculos, os criadores impõem limites éticos, mas mantêm o radar ligado. “Ricardo Salgado não, pela questão da doença”, salvaguarda Henrique Dias. Contudo, há outros episódios na história recente que reúnem as condições perfeitas: “Isaltino Morais e o caso das malas seria fantástico. Só podemos trabalhar com coisas que são públicas e as transcrições das mensagens sobre as malas são absolutamente ridículas. ‘Queres esta? Manda foto. Essa vendo, essa fico’. Isto é fantástico”, conclui o autor.