Foi ao som de Bossa Nova, e com um aroma doce misturado ao de comida a sair do fogo, que Anel Imanbay recebeu-nos no apartamento em que vive em Marvila. Num vestido floral da marca portuguesa Pera Lima, com brincos da também portuguesa Vera Manzoni, cumprimenta-nos sorridente e num português sujeito a poucas correções. Mostra-nos logo a mesa farta, explicando que receber bem os hóspedes é tradição no Cazaquistão, país de onde é original. “Depois de comer podemos fazer tudo o que quiserem”, continua, afirmando que em primeiro lugar vem a “festa da barriga”. Entre uma espécie de chouriço de carne de cavalo típico da sua terra e um prato que cozinhou especialmente para nos receber, cujo nome significa “cinco dedos” — porque é feito para se comer com as mãos, o que rendeu uma conversa sobre como a neurociência explica que comer com as mãos é uma experiência multissensorial que pode mudar a forma como o cérebro processa os alimentos — temos à mesa um conjunto de chá Vista Alegre que faz uma homenagem às rainhas portuguesas. A maioria do que está servido, das iguarias à porcelana, são presentes oferecidos por amigos, conta-nos. Os primeiros dez minutos com Anel são suficientes para comprovar o que a própria define ser: “uma cidadã do mundo”.




Fundadora do TEDxMarvila; que este ano realiza-se a 24 de maio no Pátio da Galé e propõe-se a discutir “O que é o amor”, ou “What is Love”, já que o evento é integralmente em inglês; Anel adotou Lisboa como casa em 2015, depois de licenciar-se em Finanças no Reino Unido. Em Portugal estudou Marketing antes de ingressar numa carreira no mundo da tecnologia — mais especificamente numa empresa de gaming. Contudo, foi uma experiência traumática durante a pandemia de Covid-19, durante o breve período em que viveu no Namíbia, que a impulsionou a seguir por num novo caminho profissional, o da oratória. Sob o pseudónimo Imani Cortez escreveu um livro infantil, Her Name was Flower; aventurou-se na indústria da beleza, e hoje trabalha como oradora, coach e consultora, dedicando boa parte do seu tempo a projetos que a inspiram. Além da organização do TEDxMarvila, está no Conselho do Sovereign Portuguese Art Prize, um prémio anual destinado a artistas contemporâneos nacionais.
Arte, aliás, que é parte da sua rotina. Anel vive no complexo de prédios em Marvila que é um projeto do italiano Renzo Piano, o mesmo arquiteto que desenhou o Centre Pompidou, em Paris. O design de interiores em tons claros e num estilo minimalista deixa evidente o papel central que as peças de arte têm na casa — desde um quadro do pintor cazaque Tolepbay kazakh, passando pela obra do artista plástico português Mário Portugal, até a peça de tapeçaria tradicional de Portalegre que decora a parede onde muitos diriam que faria sentido colocar uma televisão. Anel passa uma imagem muito curada, mas é nos pormenores que se revela o que muitos dizem ser “uma mulher real”. Logo no início assume que teve de recolher e guardar os brinquedos do filhos de cinco anos, aquela explicação que provavelmente toda as mães dão às visitas que chegam a uma casa cuidadosamente organizada. À medida que a conversa segue, fala com propriedade dos temas que lhe são mais caros e mostra ter opiniões próprias, sempre a ponderar como a sociedade atual vive cada experiência. Como anfitriã, garante que não falte nada a ninguém. Mas em especial, é evidente que se preocupa com legado: aquele que trouxe da própria família, o que pode fazer de bom pelo mundo, o que vai deixar para o filho e aquilo que os seus convidados levam de si, depois de uma visita a sua casa.
Estamos perante uma mesa cheia de comida. Disse que no Cazaquistão as mesas são sempre assim.
Somos uma cultura nómada e o país é vasto, por isso receber um hóspede era algo raro e sagrado. Temos um provérbio: “Respeita o convidado como respeitas a Deus”. A melhor parte da comida é sempre para o convidado. Acreditamos também que cada convidado traz a sua própria fortuna para a casa, e que quando vai embora, leva algo. Na nossa cultura, quando alguém leva o pão para casa, significa que está a levar parte da alegria que partilhou aqui, para a sua família. Então, servir comida é uma forma de mostrar respeito e amor, e também união, porque as conversas correm melhor depois de uma boa refeição. Não sei se algum dia vai visitar o Cazaquistão, portanto quis que provasse os nossos pratos tradicionais. O que provou hoje é um vislumbre da comida cazaque: shuzhuk (chouriço de carne de cavalo) e o prato principal beshbarmak, que significa “cinco dedos”. Mas também respeito e valorizo muito a casa que tenho hoje; por isso, servimos o chá num conjunto que representa as rainhas de Portugal — que também representa esta mistura de culturas.
Como foi a sua infância no Cazaquistão e que valores traz para a sua vida?
Em cazaque temos um ditado: “O pássaro faz o que vê no ninho assim que começa a voar”. Creio que tudo o que faço hoje, enquanto ser humano e líder comunitária, reflete os valores que vi em casa. Cresci a estudar numa escola cazaque — que ainda hoje é a melhor escola pública do país — que sempre investiu na criatividade. Os meus pais, especialmente o meu pai, sempre valorizaram muito a educação. Éramos uma família de classe média, mas durante a independência, em 1991, todas as famílias tiveram dificuldades; houve tempos em que as prateleiras não tinham comida e eu cresci a usar a roupa da minha irmã. Hoje, quando o meu filho diz que não gosta de algo, eu respondo-lhe: “Desculpa, se eu tivesse a roupa da minha irmã em bom estado, já estava feliz”. Éramos quatro filhos e crescemos com o lema “um por todos, todos por um”. Se eu me estivesse a licenciar, toda a família se focava em mim para garantir o sucesso. Se a minha irmã saía do Cazaquistão para estudar na Turquia ou na América, todos investiam tempo e energia para que ela conseguisse. Hoje, falamos todos os dias por FaceTime; somos muito unidos. A educação, o respeito pelos mais velhos e o autorrespeito são os nossos valores fundamentais. A forma como amo Portugal hoje também vem do Cazaquistão, porque lá convivem 130 nacionalidades em paz e todas respeitam o país. Trato Portugal como gostaria que um estrangeiro tratasse o meu país: falando a língua, respeitando a cultura e o povo. Os temas que escolho para o TEDx Marvila — a arte de ser humano, o que é o amor e, no próximo ano, o poder da aprendizagem — são os meus valores de vida.
Sente que o vosso percurso foi, de alguma forma, diferente do resto da sociedade ou das outras famílias que viviam no Cazaquistão ou no mundo naquela época?
Não creio que fôssemos diferentes, mas estávamos certamente rodeados de amor. Recebi amor suficiente da minha mãe e do meu pai. A minha mãe fazia sempre surpresas nos aniversários; nunca eram festas para 30 pessoas, eram coisas pequenas, mas surpresas. Em todos os Natais e passagens de ano tínhamos o Pai Natal em casa, que era o meu pai, e a minha mãe fazia de sua neta. Tínhamos de atuar, cantar ou dizer poesia. Acreditávamos na magia, algo que noto que nem todas as famílias preservam. Esta magia foi incutida pela minha mãe.
Entretanto, escolheu licenciar-se fora do Cazaquistão.
Recebi a medalha de ouro na escola, o que significa ser uma das melhores alunas. Recebi-a das mãos do Presidente da República, o que é uma grande honra porque permite escolher qualquer universidade gratuitamente. Lembro-me do meu pai dizer: “Querida, podes ficar no Cazaquistão. Eu assegurarei que tenhas uma casa, um carro e joias. Mas lembra-te que as joias podem ser roubadas, o carro pode avariar e o dinheiro pode perder-se. A única coisa que nunca perderás na vida é o teu conhecimento e a tua educação”. O meu sonho era estudar no estrangeiro, pois no Cazaquistão estudar em Inglaterra é considerado algo nobre e de grande qualidade. Fui para a Universidade de Essex estudar Economia Financeira.
Quando foi o seu primeiro contacto com Portugal?
Na universidade. Saí para estudar fora aos 17 anos e li o livro Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque. Foi a primeira vez que desejei conhecer o país. A forma como ele descreveu Lisboa era encantadora e agora que vivo aqui percebo o que ele queria dizer.
E quando veio pela primeira vez?
Em 2014, apenas de visita. Já tinha uns 25 anos. Vivia em Londres, entre o Reino Unido e o Cazaquistão. Vim visitar o meu namorado na altura, o pai do meu filho, que é luso-angolano. Em 2015, mudei-me para cá para tirar um mestrado em Marketing. Trabalhei inicialmente na Ernst & Young, mas em Portugal não conseguia encontrar emprego porque não falava português. Como gostava da área comercial e de vendas, senti que precisava do mestrado em Marketing, já que a minha licenciatura era em Economia Financeira.
E nesta altura não estava a trabalhar?
Quando me mudei parei de trabalhar e vim fazer o mestrado em Marketing. No primeiro ano, participei numa competição da L’Oréal chamada Brandstorm. Venci a nível universitário, nacional, e fui representar Portugal em Paris. Era um projeto que tinha uma abordagem de gamificação — na altura o gaming estava a começar a explodir — e foi assim que entrei no mundo dos videojogos. Trabalhei com gigantes do setor até há dois anos.
Ficou em Portugal até 2019.
Sim, tive sempre aqui a minha base. O meu ex-marido mudou-se para a Namíbia e eu andava de um lado para o outro, mas depois aconteceu a Covid.
Teve uma experiência muito traumática na Namíbia. Pode falar sobre isso?
A Namíbia é um país belo e sou grata pela experiência. Mas foi a experiência mais traumática da minha vida. Fiquei lá retida a partir de janeiro de 2020 porque estava grávida e não podia viajar. O momento mais traumático foi o nascimento do meu filho em junho de 2020. Ele nasceu saudável, mas eu tive uma sépsis, uma infeção no sangue, que foi detetada demasiado tarde. Tive de ir para a unidade de cuidados intensivos; estava basicamente a morrer. Só depois de trabalhar com psicólogos é que percebi que a razão pela qual deixei a Namíbia foi essa experiência de quase morte.
Quanto tempo levou a recuperar?
A recuperação foi rápida, mas foram tempos difíceis; também tinha um bebé. Não vi o meu filho nas primeiras duas semanas. Eram tempos estranhos: sem álcool gel, sem máscaras suficientes… África importa tudo, e estava tudo fechado. Foi muito complicado, mas foi o ponto que me mudou completamente.
Sente que aprendeu algo com essa experiência?
Sim. O universo deu-me uma segunda oportunidade. Quando estava a morrer, percebi que nunca tinha planeado isso; vivemos como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Percebi que não ia deixar nada ao meu filho através do qual ele pudesse descobrir quem era a mãe. Eu era apenas uma profissional que trabalhava para uma gigante do gaming. Ele nunca compreenderia os meus valores ou a minha alma. Rezei na unidade de cuidados intensivos e disse que, se tivesse uma segunda oportunidade, faria o meu melhor para deixar um legado correto. Foi aí que voltámos para Portugal e comecei esta comunidade. Em 2021 regressei, ainda a trabalhar em videojogos. Mas percebi que precisava de ter uma base estável, como uma cadeira tem quatro pernas, para criar um filho. Ensino isto às jovens que acompanho: cada perna da cadeira é uma fonte de rendimento ou um passatempo que um dia poderá ser rendimento. O TEDx é totalmente voluntário. Contudo, fora do TEDx, tenho clientes que me pagam para treinar oratória, escrita de discursos e linguagem corporal. Isso veio da minha paixão. Quando me mudei, não tinha amigos e a forma de me envolver na comunidade foi através de clubes. Juntei-me ao Toastmasters (organização sem fins lucrativos de oratória) em 2015. Ganhei competições e representei Portugal na Grécia. Enquanto trabalhava a tempo inteiro, decidi que queria ter o meu próprio negócio e abri uma empresa de estética.
Como surgiu o negócio da estética? Era um tema pelo qual nutria alguma paixão?
Tive um salão de beleza até há pouco tempo, que foi uma oportunidade aqui no Beato. O lema era “sê o teu próprio tipo de beleza”. Acredito que as mulheres devem aprender a cuidar de si mesmas. No salão, organizava dias de Beleza e Negócios, com workshops sobre gestão e rotinas de beleza, em que ensinava maquilhagens rápidas, por exemplo. No último, em maio de 2024, estava com muita febre, muito doente, mas assim que comecei a formação e a responder às perguntas das pessoas, a febre desapareceu. Foi quando refleti que ainda tinha um emprego a tempo inteiro no gaming, estava a trabalhar o dia inteiro. Perguntei a mim mesma: “Porque estás a trabalhar em tecnologia se o que gostas é de partilhar conhecimento e unir pessoas?”. Foi assim que nasceu a ideia do TEDx, porque percebi que esta era a minha paixão.

Como surgiu a ligação com o TEDx?
Cresci a adorar a plataforma; era o nosso “TikTok” quando queríamos aprender algo novo. Conheço alguns organizadores em Portugal e decidi candidatar-me a uma licença. Comecei com uma licença para 100 pessoas, mas queria algo maior para atrair patrocinadores, por isso fiz a formação e fiz o upgrade da licença.
Quantas pessoas esperam agora?
Queremos mais, mas estamos limitados pelo espaço. No ano passado tivemos 970 pessoas. Somos o maior evento TEDx em inglês em Portugal. A nossa abertura será com uma curta-metragem e um monólogo do Ricardo Pereira sobre o que é o amor, e terminaremos com um coro gospel de 30 vozes. Fui ao ensaio e chorei. Teremos a Orquestra Metropolitana e o Haddaway a cantar “What is Love”. Também teremos uma exposição de arte. Portanto, trago a minha própria visão para o evento.
Não sente que fazer um evento totalmente em inglês pode afastar a comunidade local?
Temos tradução simultânea para português. Respeitamos muito a língua local. Lisboa está a tornar-se muito internacional. Eu falo português, mas não sou fluente o suficiente para a linguagem científica. A maioria dos nossos oradores são portugueses a quem damos palco para partilharem as suas ideias em inglês com o mundo. Este ano teremos a história do “Romeu e Julieta” português, de Inês de Castro. Falaremos de amor através da comida portuguesa, ou como grandes mestres expressaram o amor através da arte. No ano passado, falámos das tapeçarias de Portalegre, dos azulejos. É uma forma de ensinar a cultura local aos estrangeiros. O nosso público é uma mistura saudável de portugueses e estrangeiros, e a maioria das marcas que nos apoiam são “Made in Portugal”. Para responder à sua pergunta, espero que a língua não represente divisão, mas sim união.
Pode partilhar alguns trabalhos Made in Portugal e artistas portugueses de quem goste?
Dos contemporâneos, gosto da Carolina Serrano, que vai inaugurar uma exposição na Balcony Gallery, uma artista portuguesa muito talentosa que trabalha com cera. Ela criou, por exemplo, uma peça em cera branca com espinhos que simboliza a dor que carregamos enquanto seres humanos; o facto de ser cera, que se pode acender como uma vela, representa a fragilidade do corpo e a rapidez com que a vida pode desaparecer. Tem um seso profundo de significado no que faz como arte. Quanto aos grandes mestres, gosto muito de Júlio Pomar, Paula Rego — o seu trabalho é incrível. Acho que os mestres portugueses são subvalorizados. Amadeo de Souza-Cardoso, por exemplo, morreu aos 30 anos; desejava que tivesse vivido mais para deixar um legado maior. São tantos que sinto que poderia ofender alguém ao não mencionar o seu nome.

Onde gosta de ir para conhecer novos artistas?
Sou sempre convidada para galerias. Acredito que os artistas portugueses não recebem apoio suficiente. No TEDx e no Sovereign Art Foundation através dos prémios, tentamos dar visibilidade aos artistas emergentes. A arte pode curar pessoas e abre horizontes. Alguns trabalhos que vejo deixam-me surpreendida, pergunto-me sempre como pensaram naquilo, e é algo que realmente abre a minha mente e a minha compreensão sobre a vida. E mesmo quem não gosta de arte, se gosta de turismo, viajar por arte é incrível. Ir a Madrid ou à Bienal de Veneza. Algumas peças de arte podem chocar, arrepiar, ou trazer alegria e amor. Não sou artista, mas percebo a dificuldade que têm para vender uma peça, especialmente quando são artistas jovens, e por isso sei que precisam de mais apoio.
Há algum museu onde goste de levar o seu filho?
Temos a tradição de ir a museus, sempre tentamos visitar novos. A minha galeria favorita é a Balcony Gallery, do Pedro Magalhães, que costuma apresentar jovens artistas portugueses contemporâneos, mas também gosto da Galeria 111 do Rui Brito, no Campo Grande. Adoro o MACAM, a Gulbenkian, o MAAT. No ano passado fizemos um mapa com todas as galerias e murais aqui em Marvila e Beato: Underdog, 28ART, Eterno… Marvila está cheia de galerias de arte.
Sente que as pessoas estão interessadas o suficiente para encher as galerias?
Vejo pessoas interessadas, mas definitivamente não há apoio suficiente.
O que acha que é necessário para elevar esse apoio?
Como sociedade, acho que ao invés de comprar carros, carteiras ou vestidos caros, devíamos comprar arte. Para mim, é mais importante ter uma obra de arte do que ter uma carteira Gucci. Provavelmente nunca me vai ver com uma carteira de luxo. E na verdade arte não tem de ser cara; pode ser uma peça feita por um aluno de Belas Artes, e mesmo assim será uma obra de arte.
Falou sobre moda e o facto de não comprar carteiras caras. Mas a moda também pode ser arte, certo?
Sem dúvida. As marcas de moda também são peças de arte. Há trabalhos manuais impressionantes. Mas algumas pessoas preferem o logótipo em vez da peça artística. Claro que gosto de joalharia e de roupas bonitas, mas não sou obcecada. Uso o que me faz sentir bem. Recentemente comprei este vestido de uma marca portuguesa numa feira em Cascais, tento apoiar os designers locais. Mas também sei que este é um tema complicado. Uma mulher com um ordenado médio que gosta de se vestir bem, vai precisar comprar em marcas de fast fashion, como a Zara. Estamos num momento da economia global muito delicado. Gostaria de apoiar mais marcas de slow fashion, mas produzir de forma sustentável custa muito. Uma peça pode custar 500 euros, o que é metade de um ordenado em Portugal. Temos de ser flexíveis; conheço a realidade e percebo o que as pessoas passam. Como alternativa há também o mercado em segunda mão; Vinted ou Vestiaire Collective, porque não?
Compra em segunda mão?
Cresci a usar a roupa da minha irmã, por isso, quando tive oportunidade, quis coisas novas. Mas recentemente comprei um casaco de cabedal vintage dos anos 80 e adoro-o.
Voltando um pouco atrás, às vezes a arte também pode não ser acessível para todos.
Acredito que é acessível. Com o Sovereign Art Fund, organizamos workshops com artistas para crianças de países em desenvolvimento, uma vez por mês. Na minha visão, só é preciso retirar a tampa, é preciso estar interessado, procurar. Por exemplo, há este calendário em que cada dia do ano está ilustrado com uma obra de arte, e todos os dias podemos conversar com os nossos filhos sobre diferentes artistas e perspetivas. E isso não custa tanto dinheiro. Estudei inteligência artificial e trabalhei muitos anos com gaming e tecnologia, mas acredito que o futuro depende da criatividade. Precisamos abrir as mentes das nossas crianças para isso, porque a IA vai lhes dar as respostas, mas elas precisam de saber avaliar como retirar o melhor dessas ferramentas.


Menciona o seu percurso com tecnologia e inteligência artificial, mas no ano passado o TEDxMarvila não teve palestras sobre tecnologia. Porquê?
No ano passado, só tivemos a palestra daquele que é o meu orador preferido, António Amaral, que na altura tinha 11 anos, e que tinha como título: “E se os meus pais fossem robôs de IA?”. Este ano ele voltará ao palco. Não sou contra a IA, só acho que já há pessoas demais a falar sobre isso. Neste evento quero focar-me em temas muito básicos, que são menos discutidos.
Usa a IA na sua vida diária?
Sim, não conseguiria viver sem ela.
Pode dar-nos exemplos?
Uso para produzir documentos, profissionalizar e-mails, revisão de textos e pesquisa. Uso ferramentas como Claude, Perplexity e Chat GPT. Mas o perigo real não é a inteligência artificial mas a “certeza artificial”: confiarmos no que a IA diz sem questionar. Comparo isso à rainha má da Branca de Neve. Ela pergunta: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?” Mas nunca se questiona o motivo de estar a fazer esta pergunta e o que está a temer ou a passar. Ela apenas aceita a resposta do espelho. Estamos a fazer o mesmo com a IA: a aceitar as respostas sem questionar, sem exercitar os nossos músculos. A literacia está aos poucos a decair.
Existe alguma linha vermelha para o uso da IA?
Sim. Por exemplo, ontem estava a idealizar o encerramento do evento e sei que não posso perguntar à IA sobre isso. Tem de vir de mim.
Em Lisboa, há algum lugar onde goste de ir quando não está a trabalhar?
Adoro Lisboa em geral. Gosto da Igreja de Santo António, andar pela Graça, ir à igreja, no alto. Quando quero um almoço calmo, gosto de ir ao restaurante Tágide, que tem uma vista incrível e nunca está lotado. E apenas caminhar à beira do rio Tejo. Acho que temos sorte, todos os cantos de Lisboa são lindos.
Costuma ir à praia? Tem ligação com o oceano?
Adoro ir à praia com o meu filho, embora não tenha muito tempo. Ele adora fazer piqueniques.
Sentiu-se bem acolhida quando chegou em 2015?
Os portugueses são acolhedores, mas também avessos ao risco, o que os torna fechados inicialmente. Fazer amizades leva mais tempo do que em Inglaterra ou no Cazaquistão. Mas essa aversão ao risco torna-os muito leais. Tenho amigos portugueses muito queridos e aprendo muito com as suas histórias.
Os seus melhores amigos são estrangeiros ou portugueses?
Portugueses. O meu melhor amigo, o Marco, é português; conheci-o no trabalho.
Sente que os portugueses sabem o suficiente sobre a cultura do Cazaquistão?
Não é um país muito conhecido aqui. É também o meu trabalho espalhar esse conhecimento e ser uma ponte.
Sente que partilhar a sua cultura a torna mais próxima dela?
Nunca estive longe; a minha cultura é a minha identidade. Sinto-me uma cidadã do mundo. Tenho ligação a África por causa do meu filho, amo a América por causa da minha irmã e adoro Inglaterra. Contudo, trato Portugal com o respeito que exijo para a minha terra natal. É com este espírito de união que vivo em Lisboa. As lições de 2020 ensinaram-me a não fazer planos a longo prazo — a vida pode mudar num minuto —, mas, no presente, Lisboa é a minha casa e o palco onde pretendo deixar o meu contributo mais significativo.


