Um avião bimotor com destino a Grand Bahama viu-se obrigado a fazer uma amaragem no oceano Atlântico, na terça-feira, na sequência de diversas anomalias. Onze passageiros ficaram mais de cinco horas à espera de resgate, dentro de um bote insuflável amarelo, com uma tempestade a aproximar-se. Até que a Força Aérea norte-americana os encontrou e içou para um helicóptero, em segurança. Sem registo de feridos graves, os membros da equipa de salvamento falam na ocorrência de um “milagre”.
O avião Beechcraft BE30 — que partiu de Marsh Harbour, nas ilhas Abaco (Bahamas), com destino a Freeport, Grand Bahama — fazia uma viagem de rotina entre duas ilhas. A rota de 20 minutos acabou por se tornar um verdadeiro pesadelo, começando pelas falhas no sistema de navegação, depois na rádio, num dos motores e finalmente no outro, noticia a BBC.
No fim, o outro motor também acabou por falhar. Não havendo outros recursos, o piloto bahamense, Ian Nixon, optou por uma amaragem forçada na água, a cerca de 230 km da costa de Melbourne, na Florida, aproximadamente a 280 km a norte de Miami.
“Assim que atingi a água, o meu primeiro pensamento foi: ‘Não morremos‘”, disse Nixon. As causas do acidente ainda não são conhecidas, mas as autoridades das Bahamas garantem que investigações já estão a decorrer.
“Espera, será que ouvi alguma coisa?”
Apesar da amaragem, seguiram-se horas de espera num bote salva-vidas, no meio do oceano Atlântico. Ian Nixon, com 25 anos de experiência, tentou manter o ânimo e a esperança dos passageiros, garantindo que um avião os iria resgatar. “Eu disse-lhes: ‘Daqui a 10 minutos, vai chegar um avião'”, contou. E depois um passageiro respondeu: “Espera, será que ouvi alguma coisa?”
Ao longe, aproximava-se um helicóptero da Força Aérea americana, mais concretamente o HH-60W Jolly Green II, da 920.ª Ala de Resgate, precisou posteriormente, em comunicado, o Comando desta força. A unidade estava numa missão de treino quando foi redirecionada para auxiliar nos esforços de busca e salvamento, após um sinal de transmissor de localização de emergência, de um avião bimotor turbo-hélice ter alertado a Guarda Costeira dos EUA para uma possível situação de perigo. Segundo a CBS News, o alerta foi dado por volta das 11h00 da manhã de terça-feira aos postos de controlo do Distrito Sudeste das autoridades costeiras norte-americanas.
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“Recebemos uma notificação do transmissor de localização de emergência (ELT, na sigla em inglês), e foi toda a informação que nos foi transmitida naquele momento”, disse a major Elizabeth Piowaty, comandante da aeronave HC-130J Combat King II, durante uma conferência de imprensa realizada na quarta-feira. “Há um certo impacto quando a aeronave atinge a terra ou a água, o que pode acionar o sensor, que dispara e envia notificações”, clarifica.
Os controlos de tráfego de Freeport e Nassau acionaram os protocolos de notificação de emergência, confirmou o jornal local The Nassau Guardian, alertando a Força de Defesa Real das Bahamas (RBDF), a Polícia Real das Bahamas (RBPF), a Associação de Resgate Aéreo-Marítimo das Bahamas (BASRA) e a Guarda Costeira americana — a primeira a responder ao alerta.
Nesta altura, os passageiros já estavam na água há cerca de cinco horas. “Só de olhar para eles, percebia que estavam em sofrimento — físico, mental e emocional”, recorda o capitão Rory Whipple. Tratava-se de 11 cidadãos bahamenses, confirmou Kenneth Romer, diretor de Aviação das Bahamas, numa publicação nas redes sociais.
Foram lançados pacotes com comida, água, ferramentas e outros dois botes para os sobreviventes, o que lhes proporcionou “um grande alívio”, acrescentou. Mesmo antes de Whipple e outros paraquedistas de resgate saltarem para a água e nadarem até aos sobreviventes, já alguns tinham subido para os botes salva-vidas extra.

“Toda a gente estava a celebrar por termos sido salvos, porque pensávamos que íamos morrer“, disse Olympia Outten, uma das passageiras do avião, depois do acidente. “Aquela cena parecia de filme”.
Os socorristas trabalharam contra o tempo para içarem todos os passageiros em segurança antes que o helicóptero precisasse de reabastecer. Tinham sensivelmente cinco minutos de combustível quando abandonaram o local com a última pessoa resgatada, clarificou o tenente-coronel Matt Johnson, comandante do helicóptero da Força Aérea, durante a conferência de imprensa. Contudo, este não era o único risco: a falta de água potável e as condições atmosféricas adversas poderiam ter contribuído para um desastre ainda maior.
Se tivessem esperado mais um minuto que fosse, a tempestade que se seguiu poderia ter perturbado ou mesmo impedido o salvamento de todos. Piowaty corroborou estas declarações e descreveu o momento do resgate, sublinhando que os passageiros estavam cobertos por uma lona para se protegerem da chuva, explica à CBS News.
“Nunca vi ninguém sobreviver a uma amaragem forçada”, disse a major Elizabeth Piowaty, comandante da aeronave que auxiliou no resgate. “E, pelo que vi, o facto de todas aquelas pessoas terem sobrevivido é um verdadeiro milagre.” A equipa de resgate não viu qualquer sinal do avião na água, acrescentou a major.
Todos os 11 ocupantes foram transportados para o Aeroporto Internacional de Melbourne Orlando para receberem tratamento médico de emergência, de acordo com o New York Times. Três sofreram ferimentos ligeiros.
Um C-27 Spartan da Estação Aérea da Guarda Costeira de Clearwater e um HC-130J Combat King II da Base Espacial Patrick também auxiliaram no resgate.
As autoridades das Bahamas estão a investigar a causa do acidente. Como houve uma amaragem de emergência, a área será explorada com base em “dados de satélite e radar para analisar as condições atmosféricas no momento do despiste”, refere Dan DePodwin, vice-presidente de Operações de Previsão da AccuWeather.
Texto editado por Dulce Neto

