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Os polícias do Rato e a história da direita

O escândalo da esquadra do Rato é um problema para quem defende a autoridade e a polícia, como têm sido casos semelhantes nos últimos duzentos anos. Mas não tem de ser.

Carlos Maria Bobone
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É um escândalo, e um escândalo é mais do que um horror. A palavra vem do vocabulário teológico, para definir um pecado especialmente grave: aquele que corrompe não só a nossa natureza, mas a dos outros.

O que se passou no Rato (e que é próprio deles, não de homens) é especialmente perverso, porque torna carrascos os que deviam ser protectores, e isso mina uma sociedade inteira. A violência e o poder de coerção, dentro da política, são o problema central. O homem percebe que não pode viver sem eles e entrega-os. Repare-se bem no feito civilizacional que isto significa: nós damos a alguém o poder de nos prender, de nos coagir, de nos tirar a liberdade. Damo-lo porque percebemos que é necessário, sim, mas abdicamos da nossa protecção própria, da possibilidade de sermos nós próprios violentos, e depositamos a nossa defesa em alguém. Que alguém use esse poder, que nos torna a todos vulneráveis, para fins tão perversos como os do Rato é de uma maldade absolutamente corrosiva.

Infelizmente, no entanto, não se trata de caso único. Mais, não será o último. O poder tem esta capacidade destruidora, e um dos perigos da liberdade está na dificuldade em não a usar. A possibilidade de usar a violência torna-a tentadora, mesmo quando ela não se justifica, e mais ainda quando estamos em posição de a usar desproporcionalmente. O autocontrolo de quem, a partir de cima, se irrita com quem está em baixo tem de ser treinado e nem sempre é fácil, o que significa que casos destes aparecerão sempre.

O que não precisava de acontecer sempre, contudo, era a transformação destes casos em golpes mortais nas bandeiras e na reputação das direitas. Por um lado, percebe-se: é especialmente difícil defender a autoridade de uns sobre outros quando quem tem poder pratica coisas destas. Claro que não são todos, claro que são excepções, mas aplica-se aqui o mesmo princípio que preside à presunção de inocência: mais vale soltar um culpado do que prender um inocente, como mais vale tirar poder a um justo que dá-lo a um tirano. A ideia de que polícias destes são uma excepção é, portanto, insuficiente para quem quer defender o reforço de poderes na polícia ou a autoridade, e a direita que o quer tem grande dificuldade em sair de casos destes.

Não é de agora: desde pelo menos o caso Dreyfus que a esquerda descobriu a utilidade de casos destes para fazer valer a sua agenda. Basta lembrar, em anos recentes, que foi depois do caso dos agentes que mataram um pobre homem que se destruiu o SEF. E, de facto, a direita não sabe reagir a estas situações. Quando não se põe em defesas insensatas de culpados e a montar teias de condicionantes que desculpem o indesculpável, quando não lança suspeitas alarves e insensíveis sobre as vítimas, o máximo que tem para dar é o argumento inútil da excepção – não é uma excepção se é uma possibilidade real e sempre presente; acontece pouco, sim, mas acontece sempre, e continuará a acontecer enquanto uns puderem ter uma pistola à cintura diante de outros que não a têm.

Quer isto dizer que a autoridade é indefensável e que desarmar polícias e desactivar serviços de fronteiras contribui para um mundo mais justo e mais seguro? Obviamente que não.

O ponto importante, que escapa a estas teses, é que os polícias não fazem isto por serem polícias; fazem-no por serem homens. Há um extraordinário opúsculo de Joseph de Maistre, sobre os carrascos, que explica isto muito bem. O facto de delegarmos em alguém a função da violência exime-nos a nós de a cometermos e de andarmos carregados com a culpa da coerção. Esta possibilidade que se oferece aos polícias, de serem agentes de um horror, nós conseguimos tirá-la da nossa frente. Se a tivessem, quantos mais não cairiam nela? A autoridade não é precisa só por ser boa, é precisa sobretudo para que nós não possamos ser piores. Há violência na polícia? Sim, claro. Mas o que a polícia garante é que há menos violência desta fora dela. Não por ter grandes farejadores de criminosos, que apanham todos os vilões antes de estes perpetrarem os seus crimes – simplesmente porque a concentração dos meios violentos tira ao homem normal a possibilidade de se descontrolar e tornar a sua ira num crime, num destes crimes que só a polícia tem as condições para cometer. É horrível que a polícia seja capaz disto, mas é melhor que só a polícia seja capaz disto. Porque o problema não está no distintivo – está no Homem.