Não tenho nenhuma objecção de princípio à intervenção da Igreja nos grandes temas do país. É um actor com protagonismo, relevância cultural e social e inegável influência na opinião pública.
Isso mesmo aconteceu esta semana, quando o Patriarca de Lisboa, Rui Valério, foi convidado pelos jornalistas a comentar o impasse político do pacote laboral. E comentou.
Pediu humildade aos protagonistas, mostrou esperança num acordo e desejo que este “sirva as necessidades da população e que tire o país da situação de estagnação”.
Dificilmente se conseguirá discordar de Rui Valério sobre isto.
Depois, deixou dúvidas sobre uma eventual aprovação parlamentar que seja feita sem acordo dos representantes dos trabalhadores. Aceita-se o argumento – que, aliás, tem sido muito utilizado no debate partidário -, embora a realidade nos diga que os 230 deputados são mais representativos de mais trabalhadores do que a UGT e a CGTP juntas. Mas a Concertação Social existe e tem um papel próprio que é relevante.
O meu espanto com as declarações de Rui Valério veio a seguir, quando o Patriarca de Lisboa disse o seguinte: “Ainda hoje não compreendo, sinceramente, um trabalhador [português], um mecânico, eletricista, não estar no mesmo nível salarial do que um mecânico espanhol, francês, italiano, quando os níveis de vida [quereria certamente dizer “custo de vida” para fazer sentido] são semelhantes. Para mim, é um dos grandes mistérios”.
Estas declarações foram feitas em Fátima. Perdoem-me a heresia, mas é irónico que um representante da Igreja que se prepara para a celebração da aparição da Nossa Senhora aos três pastorinhos em cima de uma azinheira encontre o grande mistério numa das matérias mais estudadas e explicadas da ciência económica.
Rui Valério sabe certamente que as diferenças salariais entre economias são causadas por uma série de factores estruturais onde encontramos a produtividade, a qualificação de gestores e trabalhadores, a acumulação de capital (máquinas, tecnologia), a dimensão média das empresas ou o nível de abertura da economia ao exterior.
É dos temas mais discutidos em Portugal há décadas, não havendo aqui nenhum mistério. As causas estão bem identificadas, pode é haver divergências – e há – sobre as políticas que devem ser conduzidas para mitigar essas barreiras, abrindo caminho a um crescimento sustentado dos salários que toda a gente certamente deseja. São esses caminhos que são discutidos em momentos como o actual, em que debatemos as regras do trabalho.
Afirmações a de Rui Valério desinformam e alimentam uma suspeita populista tão corrente como enganadora: que só por má vontade de empresários e governantes é que em Portugal não se pagam os salários dos países mais prósperos da Europa.
Se acha que as diferenças salariais entre economias são uma matéria do oculto sem sustentação no contexto concreto do país, Rui Valério tem uma boa oportunidade de o provar dentro de casa. Como? Aumentando os salários dos membros do clérigo portugueses para os níveis que são praticados noutros países.
Os salários praticados em Portugal são diferenciados de acordo com a paróquia. Há referências públicas de um valor próximo do salário mínimo de 920 euros em Lisboa ou de 1.100 euros em Coimbra.
Na Alemanha, a remuneração média dos sacerdotes anda próxima dos 3.000 euros por mês. Este é um mistério que Rui Valério pode resolver já amanhã.
Fernando Pessoa escreveu que Jesus Cristo não sabia nada de finanças. Mas pelo menos neste aspecto não precisamos de o seguir à risca.