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(A) :: O regresso de um velho ódio

O regresso de um velho ódio

Termos outra vez uma minoria, bem integrada nas sociedades ocidentais e nos seus valores, a ser perseguida violentamente pode mudar tudo para todos.

Rui Ramos
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Está a acontecer em França, no Reino Unido, na Austrália ou nos EUA: os judeus são ameaçados online, são assediados nas ruas, vêem as suas escolas, sinagogas e cemitérios vandalizados, são alvo de ataques terroristas como o da praia australiana de Bondi, que fez 15 mortos em Dezembro de 2025. Ser judeu voltou a ser perigoso no Ocidente. É talvez o facto mais importante do nosso tempo. E não, não é uma tendência que afecte da mesma maneira todas as minorias religiosas: nos EUA, segundo o FBI, 69% de todos os crimes em que a religião é um factor têm os judeus como vítimas. Nem é preciso sair de Lisboa para perceber: nenhuma igreja evangélica ou a mesquita precisam da segurança que só rodeia a sinagoga.

O anti-semitismo motivou um dos maiores crimes políticos de sempre na Europa. Desde 1945, o Ocidente investiu muito na sua erradicação. Porque é que, de repente, uma reconstrução cultural de 80 anos parece em risco? Por causa da guerra de Israel contra o Hamas em Gaza? Mas se o que está em causa é a política militar do governo de Israel, porque é que a sua contestação tem de reflectir-se na perseguição de cidadãos franceses, britânicos, ou americanos que praticam a religião judaica? Talvez porque o problema de Israel não é a sua política de defesa, mas o facto de ser um Estado judeu. É por ser um Estado judeu que os radicais islâmicos lhe negam o direito de existir numa parte do mundo que declararam propriedade exclusiva do Islão. E é por ser obra de judeus que Israel serve de pretexto para ataques contra judeus, só por serem judeus, no resto do mundo. A isto, chama-se anti-semitismo.

Algum vandalismo ainda se deve a grupúsculos neo-nazis. Mas quase toda a selvajaria anti-semita nas ruas da Europa tem hoje origem na imigração muçulmana. As autoridades não estão à vontade para lidar com este anti-semitismo importado. Porque teriam de reconhecer as suas responsabilidades. Foi a política de imigração caótica que encheu o Ocidente de populações vindas de países onde o anti-semitismo é oficial. Foi a submissão das autoridades ao wokismo, com a sua incriminação da identidade ocidental, que dificultou a iniciação dessas populações nos valores do Ocidente. Os recém-chegados são agora objecto de um esforço de mobilização que une o islamismo radical, em cujas origens o fascismo europeu foi decisivo, e uma extrema-esquerda desesperada por fazer da imigração muçulmana um reservatório de votos. Por isso, Gaza é a grande bandeira de partidos como La France Insoumise em França, ou o Green Party no Reino Unido. Culpa dos migrantes? Não, culpa de quem permitiu o caos, e de quem explora o separatismo.

Mais importante do que a causa, é compreender as consequências. O anti-semitismo não é um problema só para os judeus. A luta contra o anti-semitismo, sustentada pelo horror do Holocausto, foi decisiva no descrédito de atitudes e filosofias racistas, e no opróbrio de movimentos políticos assentes no racismo, como o nazismo alemão. O retorno do anti-semitismo ameaça essa muralha das democracias liberais. Termos outra vez uma minoria, bem integrada nas sociedades ocidentais e nos seus valores, a ser perseguida violentamente pode mudar tudo para todos. Convida à desestruturação das sociedades ocidentais e à sua reorganização em tribos e em guetos com territórios exclusivos e circuitos sociais separados, os únicos em que cada grupo se sentirá em segurança. Abre outra vez a porta a movimentos decididos a promover o sectarismo e a segregação. Não é apenas um velho ódio que regressa. É todo um tipo de existência que julgávamos ter deixado para trás. Por uns anos, esquecemo-nos que a luta contra o mal nunca tem fim. Anos abençoados, mas anos de ilusão.