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(A) :: Hannah e outras amigas

Hannah e outras amigas

E eu pensando que não entendia como podia um homem não escolher Hannah, a mulher mais bela que eu já vira: e a melhor condutora.

Djaimilia Pereira de Almeida
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As melhores amigas da minha mãe eram todas mulheres na casa dos trinta, abandonadas de alguma forma: mães solteiras, amantes de homens casados de quem tinham tido filhos, mulheres enganadas ou divorciadas. Eram mulheres independentes e, ainda que sofridas, não precisavam dos homens para levar a vida em diante.

As amigas apareciam em casa da minha mãe em Luanda, durante a tarde, ao fim-de-semana, chamava-se um “miúdo de rua”, que ia à esquina comprar amendoins torrados, cervejas e gasosas, em troca de alguns kwanzas, e conversavam, bebiam e petiscavam sentadas na mesa redonda toda a tarde, enquanto ouviam Anita Baker, Marvin Gaye ou Quincy Jones.

Eram todas bonitas e especiais. Hannah, filha de um jamaicano e de uma inglesa, tinha olhos amendoados, longos dedos e orelhas pequeninas. Pintava as unhas compridas sempre de vermelho e usava bijuteria indiana, argolas de ouro rosa e alianças muito finas em todos os dedos de ambas as mãos. Vestia saris e tinha longos cabelos negros e lisos apanhados num carrapito que prendia com um pau de marfim.

Vinha buscar a minha mãe a casa para lhe dar boleia até ao escritório onde trabalhavam juntas.

Eu ia no banco de trás, a observá-las, à escuta da conversa entre as duas. Falavam de assuntos do escritório e sobre homens.

Os meus olhos não saíam do volante e das mãos e unhas vermelhas de Hannah sobre ele. Ela mexia as mãos com uma beleza e destreza que eu nunca vira numa mulher, enquanto, com a mão esquerda, agarrava o cigarro cujo fumo ia lançando pela janela aberta. Não agarrava o volante com as mãos, fazia-o deslizar sob as mãos abertas. Tinha a aura de uma espia britânica em solo tropical, tratava-me por “My dear”.

Atravessávamos a Baixa de Luanda, escalavrada, o Hotel Turismo, cravejado de balas, o Jornal de Angola, o Teatro Avenida, o Banco Nacional, fachadas decrépitas ou parcialmente destruídas.

O halo de perfume, a sândalo e jasmim, dentro do carro, contrastava com as visões do outro lado do vidro: órfãos abandonados, mais pequenos do que eu, cuja única peça de roupa eram as cuecas sujas que vestiam, e que se chegavam aos vidros do carro para vender bugigangas, quitandeiras nas esquinas dos edifícios, a vender bananas, mangas e abacates, com molhos de dólares nas mãos, aleijados, mutilados de guerra.

Enquanto aguardava que abrisse o semáforo, Hannah comprou a um miúdo um maço de tabaco.

Protegida pelo vidro, eu via as raparigas pela rua, pouco mais velhas do que eu, em minissaias e tops coleantes, sem sutiã, decididas, de pernas lustrosas e musculadas, seios hirtos, mamilos salientes, a pele levemente suada e brilhante.

Hannah era amante de um homem casado, de quem acabara de ter um menino. Ele prometera-lhe que deixaria a mulher há vários anos, mas não havia meio de tal acontecer.

Ela queixava-se à minha mãe, chorava as suas tristezas: o amante andava desaparecido e não tinha aceitado registar o bebé. Tinham respeito pela mulher dele, a mulher traída, não diziam mal dela.

E eu pensando que não entendia como podia um homem não escolher Hannah, a mulher mais bela que eu já vira: e a melhor condutora. Alta e esbelta, tinha o corpo e o pescoço de uma bailarina. Um dia, em casa, pintou-me as unhas de vermelho a meu pedido e fiquei sozinha a um canto, a imaginar que também eu ia ao volante de um carro. Ao pé de Hannah, todas as pessoas pareciam trapalhonas e era assim que eu me sentia.

Hannah cruzava a perna, balançava-a, abanava os ombros ao som da música e eu ficava a ver a pulseira de ouro que ela tinha no calcanhar.