No texto “Dar voz ao silêncio: viver a alienação parental como madrasta (I)” (08 maio 2026), conhecemos a história de Inês enquanto “boadrasta”, primeiro como namorada e, mais tarde, como esposa do pai de Lourenço, o filho alienado, acompanhando os desafios, dúvidas e aprendizagens associados à construção da sua relação familiar.
A história de Inês começou quando o Lourenço ainda era bebé. Antes de ser esposa do pai de Lourenço, Inês era a namorada deste homem que, no momento estava também a aprender a ser pai. Desde cedo, a sua presença constituiu um apoio através de uma participação cuidada numa dinâmica familiar ainda muito frágil. Inês contou-nos que quando conheceu Lourenço: “Ele era bebé. Na altura, eu namorava com aquele que é hoje o meu marido e, quando ele conseguia estar com o Lourenço durante alguns momentos, era também eu quem estava ali a apoiar nesta inexperiência do meu marido, por ser o primeiro filho e por ainda estar a aprender a cuidar de um bebé”. Este início mostra que o vínculo de Inês com Lourenço não nasceu de forma repentina. Foi-se construindo nos pequenos gestos, numa presença junto do pai, apoiando-o.
Nos primeiros tempos da relação, Inês ainda não tinha consciência plena daquilo que estava a viver. Muitas situações eram sentidas como difíceis, confusas e desgastantes, mas só mais tarde conseguiu reconhecê-las como parte de uma dinâmica de alienação parental: “Mas, de facto, nos primeiros tempos passámos por várias situações que hoje consigo reconhecer como formas de alienação parental. Na altura, eu não conseguia dar-lhes esse nome, nem identificar claramente que comportamentos eram aqueles”. Este testemunho mostra como a alienação parental nem sempre é imediatamente identificada por quem a vive. Muitas vezes, começa por surgir através de pequenos obstáculos, alterações e impedimentos que, isoladamente, podem parecer apenas conflitos ou dificuldades de organização, mas que ao longo do tempo têm um impacto profundo nas crianças e nos pais alienados.
Inês descreveu que uma das dificuldades mais marcantes era a constante imprevisibilidade relativamente aos momentos combinados para estarem com o Lourenço. Planos previamente acordados acabavam, frequentemente, por serem alterados à última hora, criando um clima de instabilidade afetiva e frustração contínua: “Havia situações em que estava tudo combinado para irmos buscar o Lourenço ou para estarmos com ele e, mesmo em cima da hora, às vezes já nós estávamos no próprio local, e éramos informados de que afinal já não seria possível. Ora porque ele estava a dormir, ora porque tinha sido decidido fazer as coisas de outra maneira, ou até porque tinham ido para o Algarve sem avisar. Existia muito esta sensação constante de nos trocarem as voltas”. A incerteza constante, a dificuldade em planear os momentos de vida familiar e o sentimento de impotência perante decisões inesperadas são experiências frequentemente descritas por famílias que vivem em contexto de alienação parental.
Ao refletir sobre esse período, Inês reconhece hoje o impacto profundo que estas dinâmicas tiveram, não apenas na relação com o Lourenço, mas também na construção da própria relação conjugal. A instabilidade constante, as alterações inesperadas e a tensão emocional acabaram inevitavelmente por atravessar o quotidiano do casal, uma realidade muitas vezes invisível nas situações de alienação parental e que a Inês nos testemunhou da seguinte forma: “Hoje percebo o impacto que tudo isso teve. Estas situações tiveram implicações muito grandes, inclusive na nossa própria relação enquanto casal. Demorámos tempo a conseguir estabilizar-nos, porque este tipo de dinâmica acaba por afetar profundamente não só a relação com a criança, mas também a relação entre os adultos”. Com efeito, nas situações de alienação parental, o medo constante de perder contacto com o filho, a imprevisibilidade das decisões e a dificuldade em construir uma estabilidade familiar acabam, frequentemente, por fragilizar também a relação amorosa. Mais do que afetar apenas o vínculo entre pais e filhos, estas dinâmicas atravessam todo o sistema familiar, exigindo do casal uma enorme capacidade de adaptação, comunicação e perseverança.
O testemunho de Inês, madrasta de um filho alienado, evidencia como os processos de alienação podem começar de forma subtil, manifestando-se através de alterações constantes de planos, impedimentos de contacto e de uma imprevisibilidade permanente, e como, ao longo do tempo, estas situações acabam por ter um impacto profundo não apenas na relação com o filho, mas também na estabilidade emocional e relacional do próprio casal.