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(A) :: Está tudo bem assim. E não podia ser de outra forma

Está tudo bem assim. E não podia ser de outra forma

Camus escreveu que é preciso “imaginar Sísifo feliz”. Nós passamos da imaginação à concretização. Já não empurramos a rocha até ao cimo do monte com desespero.

P. João Basto
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Vivemos num ciclo vicioso. Pedalamos. Vemos que a corrente da bicicleta está solta. Como estamos atrasados, pedalamos com mais força. Não dá resultado. Não saímos do sítio. Por compaixão, repetimos o processo todos os dias. Seria um desperdício deitar fora a bicicleta.

Camus escreveu que é preciso “imaginar Sísifo feliz”. Nós passamos da imaginação à concretização. Já não empurramos a rocha até ao cimo do monte com desespero. Já não entendemos esse momento como absurdo. Aceitamos a tarefa com a mesma determinação daqueles que correm mais rápido “apenas para permanecer no mesmo lugar”. Aprendemos a tirar algum contentamento do castigo. O expediente é mais seguro; dá para controlar. Afinal de contas, tem repartições, taxas, dossiês, guichés, senhas de admissão, rubricas, portarias, diretivas. O futuro, esse, ainda é capaz de nos fazer mal. Nós até abatíamos toda a frota de carros elétricos para, em fidelidade à identidade nacional, a substituir, na íntegra, por caravelas do séc. XVI, mas no impresso do Imposto do Selo, na zona onde é preciso referir o tipo de transporte, o nome caravela não cabe, e isso invalida — como é óbvio — o preenchimento do formulário.

É normal que, diante deste estado de indecisão, se considere que o mundo só avança “se tiver à frente um capataz”, mas porque é que o “nosso populista” seria melhor do que todos os outros? Se ao longo da história, e ao longo deste século, o populismo, dos vários hemisférios, trouxe os resultados conhecidos, porque é que connosco seria diferente?

Mas isto não é só sobre o país. É também sobre a Igreja. Em Portugal, particularmente entalada entre uma geração que já não sabe quem é o filho pródigo ou quem foram os pastorinhos — numa aula do secundário, desta semana, disseram-me que se chamavam Gaspar, Baltasar e Melchior — e outra que considera que o Cristianismo é intelectualmente pouco estimulante e vivencialmente desinteressante.

Temos perdido tempo a defender o indefensável. Temos perdido horizonte ao falar mais de tudo e menos de Deus. Temos perdido atenção com diagnósticos bipolares e simplistas do nosso tempo.

O Cristianismo, que sempre foi plural e intrinsecamente estrangeiro, até em certo sentido evolutivo, parece complexado. O Cristianismo, que sempre se transformou, parece carecer da liberdade de que usufruiu noutros tempos. O Cristianismo, que foi sempre precário, parece que não se recorda de que Jesus é maior do que ele.

No Estado, na Igreja, a gestão do dia-a-dia tem consequências. Não adianta achar que dar número de processo à rocha carregada por Sísifo, ou aprovar um regulamento interno para a proteção ambiental da montanha que ele sobe, o protegerá. Sem reformas — a História da Igreja prova-o — emerge uma epidemia de conflitos e impotências. A contestação que se pretende evitar não agindo sobre a realidade, sob o pretexto de pacificar a sociedade, virá mais pesada e violenta anos depois, imersa em raiva, desilusão ou como promessa de pureza. Pelo meio, tendem a emergir os interesses particulares, disfarçados de bem comum. Afinal de contas, foi Salazar quem disse: “Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma”.