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(A) :: Epicteto, literacia financeira e o problema do paternalismo em Portugal 

Epicteto, literacia financeira e o problema do paternalismo em Portugal 

É simples observar quem se opôs à literacia financeira como disciplina escolar. Todos os  partidos de esquerda chumbaram esta proposta. Porquê? 

Duarte Martins Caetano
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Se queremos um Portugal mais próspero, é necessário questionar os dogmas ideológicos  e os interesses partidários que perpetuam o atraso estrutural do país. Só através do  conhecimento e da verdadeira liberdade individual será possível romper com esse ciclo.

Portugal é um dos países da UE com menor literacia financeira.

No mundo clássico, acreditava-se que só quem tinha conhecimento, razão e domínio de  si próprio poderia ser verdadeiramente livre. “Só os cultos são livres” era esta uma das  premissas basilares que Epicteto, um filósofo estoico grego que terá vivido entre os  séculos I-II d.C., defendia.

Ora, se a ignorância impera num país pouco consciente e mal informado, a falta de  conhecimento financeiro limita a liberdade de escolha das pessoas. Grande parte da  população portuguesa vive exclusivamente de uma fonte de rendimento: o seu salário, o  que gera várias adversidades, pois uma sociedade desinformada não tem meios para se  desenvolver.

Em Portugal, para além do constante apelo ao consumo, a estagnação da economia e a  sobredimensão do aparelho estatal fazem com que não exista apoio à poupança, ao  investimento e que se olhe com ceticismo para a iniciativa privada. Surge aqui o  verdadeiro problema: a desinformação gera vulnerabilidade e esta conduz à dependência.  Quando a autonomia individual é enfraquecida, o indivíduo deixa de ser verdadeiramente  livre e passa a depender do Estado.

Nesta ótica, consolidou-se em Portugal a ideia de que “o Estado deve-me algo”, uma  mentalidade com raízes profundas, quase comparável a uma doença crónica. A atual  conjuntura económica tende a perpetuá-la, pois o agravamento da crise aumenta a  insegurança económica e reforça essa dependência.

Tendo estes argumentos como mote, importa questionar: por que é que nos querem  desinformados e quem beneficia com isso?

Em Portugal observa-se uma tendência para o imediatismo, privilegiando-se respostas  pontuais em vez de planeamento estratégico sustentado. Isto cria um fosso na sociedade,  já que problemas antigos continuam por resolver, impedindo reformas estruturais.

Somos ainda um dos países mais socialistas da Europa. Fruto do tipo de governação,  tornámo-numa sociedade que propaga uma cultura de subsidiodependência, desde o  Estado ao indivíduo carenciado (ou não). Passo a explicar.

Primeiramente, somos um país fortemente dependente de fundos europeus que, embora  aparentemente benéficos, acabam por adiar reformas estruturais fundamentais que talvez  já tivessem sido concretizadas se a classe política não tivesse constantemente o “cheque  europeu” à disposição.

Em segundo lugar, as empresas. Sufocadas por uma elevada carga fiscal e por excessiva  burocracia, muitas acabam por depender do Estado para investir, inovar e expandir a sua  atividade.

Por último, o indivíduo. Quando o Estado promove políticas que desvalorizam o mérito  e incentivam a dependência, transmite-se à sociedade a ideia de que a estabilidade deve  resultar do apoio estatal e não da iniciativa individual. Consequentemente, enfraquece-se  o espírito empreendedor e consolida-se, em certos setores da sociedade portuguesa, uma  visão hostil em relação à criação de riqueza e ao sucesso económico.

Isto cria um ciclo vicioso, pois o Estado passa a focar-se apenas na distribuição de riqueza.  Sem criação de riqueza, apenas se distribui miséria, aumentando o atraso económico.

Por sua vez, perante uma posição de vulnerabilidade, o indivíduo vê-se limitado a recorrer  à figura do Estado, que, repetindo este processo, torna os cidadãos cada vez mais pobres.

No entanto, o Estado, ao prometer políticas distributivas utópicas, perpetua o seu controlo  sobre as massas. Isto faz com que quem queira governar o país formule a sua proposta  política em medidas populistas, que manipulam uma população em desespero. Por sua  vez, ignora-se qualquer estratégia de longo prazo, reduzindo o país ao atraso estrutural.

Apesar de esta cultura fracassar ao gerar pobreza, beneficia quem a promove para manter  o poder.

Neste contexto, coloca-se a questão: quem nos quer desinformados?

É simples observar quem se opôs à literacia financeira como disciplina escolar. Todos os  partidos de esquerda chumbaram esta proposta. Porquê?

Ora, se práticas como endividamento, créditos de consumo e desconhecimento sobre  impostos e juros são mais prováveis com menor literacia financeira, então erros de gestão  tornam os indivíduos mais vulneráveis e dependentes do Estado. Isto remete novamente  para partidos que defendem um Estado paternalista, pesado e controlador. Com estes  mecanismos, limitam o poder do indivíduo, mas aumentam a sua dependência do aparelho  estatal, garantindo assim a continuidade da sua governação ao favorecerem-se com um  discurso distributivo.

Se sistemas que não promovem mobilidade social e criação de capital reproduzem baixos  rendimentos, podemos concluir que esta cultura enfraquece a mentalidade empreendedora  de que Portugal carece.

O sistema está viciado. Não pretendo confundir ideologia com fatores estruturais da  economia para justificar o atraso português. Mas não será necessária uma análise  aprofundada para compreender que causas como a baixa produtividade, baixos salários e  excessiva carga fiscal devem-se também às decisões político-ideológicas exercidas por  esses mesmos partidos. Aqui, merece especial repreensão o PS, partido que mais tempo  governou em plena democracia.

Isso verifica-se, pois, os partidos de esquerda em Portugal não discutem a criação de  riqueza, apenas a sua distribuição. Logo, numa análise de longa duração, isso terá como  consequência o aumento da pobreza generalizada, pois, reafirmo, quem semeia pobreza  colhe pobreza. Por outro lado, ao gerar-se esta mentalidade “anti-meritocracia”, em que  o excessivo paternalismo estatal espezinha a capacidade individual de criação e evolução  de cada um de nós, o Estado, ao abdicar de políticas que promovam quem gera e produz  riqueza, entrega o seu mote político à distribuição de riqueza em nome da igualdade.

O problema é que, ao propagandear na sociedade uma mentalidade que odeia quem cria  riqueza, troca-se um sistema em que a desigualdade existente agrega ricos e pobres, que  beneficiam mutuamente uns dos outros, por um modelo que eliminaria os ricos em nome da  igualdade, deixando-nos a todos igualmente pobres!

Se desejamos um Portugal mais próspero, é imperativo eliminar dogmas ideológicos e  interesses partidários, pois só com conhecimento e liberdade se poderá combater o atraso  estrutural de que sofremos há demasiado tempo.