Num contexto em que as organizações enfrentam uma pressão crescente sobre a produtividade, a transformação digital, a retenção de talento e a adaptação de competências, a formação deixou de ser periférica e passou a ser um instrumento central de competitividade do negócio.
Para isso é preciso abandonar a lógica de “fazer formação” e adotar uma lógica de “construir competências”. A diferença parece subtil, mas é profunda. Fazer formação é escolher cursos. Construir competências é desenhar uma arquitetura de desenvolvimento que liga pessoas, funções, objetivos e futuro do negócio.
Em 2026, existem dois instrumentos financeiros, com data-limite, que ainda vai a tempo de utilizar e mobilizar para formação. Trata-se do Fundo de Compensação do Trabalho (FCT) e do Cheque Formação + Digital, dois mecanismos financeiros disponíveis para acelerar a qualificação dos trabalhadores e preparar as empresas para os desafios dos próximos anos.
O FCT foi criado originalmente como um mecanismo associado à compensação por cessação dos contratos de trabalho. Um fundo contabilisticamente fechado, que, em 2023, foi reconvertido, permitindo às empresas mobilizar os saldos acumulados para finalidades como habitação, creches, cantinas e, de forma particularmente relevante, a qualificação e formação certificada dos colaboradores.
Esta alteração transformou um fundo, que estava associado ao risco laboral, num instrumento de investimento em pessoas e isso muda tudo. As empresas que contribuíram para o FCT podem agora utilizar valores já acumulados para financiar formação certificada dos seus colaboradores, sem necessariamente criar um esforço adicional de tesouraria. O que antes era uma reserva passiva passa a ser uma alavanca ativa para o desenvolvimento das equipas e dos colaboradores.
Mas há uma dimensão crítica: o prazo. Os saldos do FCT só podem ser mobilizados até 31 de dezembro de 2026. Saldos inferiores a 400 mil euros podem ser mobilizados até duas vezes; os superiores a esse montante, até quatro vezes. Os valores não mobilizados dentro do prazo legal revertem para o Fundo de Garantia de Compensação do Trabalho, deixando de estar disponíveis para as empresas nos mesmos termos. Isto significa que o FCT é uma oportunidade com prazo e adiar esta decisão pode levar a sua empresa a perder o momento.
Ao lado do FCT, ainda em 2026, existe outro instrumento que reforça esta lógica de investimento em competências, mas, neste caso, digitais.
O Cheque Formação + Digital, integrado no Programa Emprego + Digital 2025, visa apoiar o desenvolvimento de competências digitais dos colaboradores, preparando-os para disrupção digital que já está a acontecer em diferentes setores de atividade. A medida, promovida pelo IEFP, termina em 30 de junho de 2026 e abrange trabalhadores por conta de outrem, trabalhadores independentes, empresários em nome individual, sócios de sociedades unipessoais por quotas e trabalhadores em funções públicas.
O apoio máximo previsto no Cheque Formação + Digital é de 750 euros por destinatário e por ano, sendo a candidatura submetida eletronicamente através do portal iefponline. A formação pode decorrer em formato presencial, misto ou totalmente a distância, desde que, com términus até 30 de junho. Deve ser assegurada por entidade formadora certificada pela DGERT ou por entidade legalmente dispensada dessa certificação, desde que habilitada para desenvolver formação, como as Universidades.
Estes instrumentos não têm todos a mesma escala nem o mesmo objetivo, mas podem ser complementares. O FCT pode apoiar programas de formação certificada mais estruturantes dentro das empresas ou em programas de portefólio. O Cheque Formação + Digital pode acelerar a aquisição de competências digitais por colaboradores que, a título pessoal, se queiram preparar para as novas exigências digitais e tecnológicas.
A questão central é perceber como integrar estes instrumentos numa estratégia coerente de desenvolvimento de talento, até porque muitas empresas continuam a olhar para estes mecanismos de forma fragmentada: usam o FCT porque têm saldo, recorrem ao Cheque Formação + Digital porque existe financiamento, cumprem horas de formação porque a lei obriga. Mas esta abordagem é curta, porque a verdadeira oportunidade está em ligar financiamento, a diagnóstico de competências e a prioridades estratégicas de formação.
Assim, antes de mobilizar qualquer apoio, as empresas devem fazer três perguntas simples:
- que competências são críticas para o negócio nos próximos dois a três anos?
- que equipas estão mais expostas a obsolescência de competências?
- que formação terá impacto real na produtividade, na retenção de talento e na capacidade de transformação do negócio?
Sem este diagnóstico, o risco é transformar os apoios à formação em mera execução administrativa e legal. Com o diagnóstico, os mesmos apoios podem tornar-se num plano estratégico de competitividade e valorização do talento da sua organização. O FCT, por exemplo, pode ser usado para desenvolver competências de liderança, gestão, sustentabilidade, inovação, finanças, marketing, operações ou outras áreas críticas para o negócio. O Cheque Formação + Digital poderá alavancar competências em transformação digital, inteligência artificial, marketing digital, análise e gestão de dados, e-commerce, entre muitas outras competências digitais impreteríveis para a transição digital das empresas e dos seus colaboradores.
A formação não deve ser vista apenas como forma de cumprir obrigações legais, mas como oportunidade para preparar colaboradores para novas responsabilidades, apoiar mobilidade interna e reduzir dependência de contratação externa num mercado de talento cada vez mais competitivo e, também, cada vez mais envelhecido. O FCT e o Cheque Formação + Digital podem reduzir essa barreira financeira e, em conjunto, estes instrumentos podem tornar a formação mais acessível, mais distribuída e mais alinhada com necessidades concretas da sua organização. Este ponto é particularmente relevante para as PME, que, muitas vezes, reconhecem a necessidade de formar as suas equipas, mas adiam a decisão por falta de tempo, orçamento ou capacidade de planeamento.
As empresas que melhor utilizarem estes apoios serão aquelas que irão percecionar a formação como investimento e não como custo, que vão olhar para os saldos do FCT não como dinheiro a recuperar, mas como capital a transformar e que reconhecerão o Cheque Formação + Digital não como um pequeno apoio individual, mas como um sinal claro de que é obrigatório investir nas novas competências digitais para garantir a sustentabilidade do emprego e dos negócios.
Até junho e dezembro de 2026, as empresas e os profissionais devem definir prioridades, envolver as áreas de recursos humanos e liderança, obter mais informação e apoio, escolher entidades formadoras certificadas e construir planos de formação com impacto mensurável. Estes prazos representam uma oportunidade (e não uma pressão) para recentrar a formação na estratégia da empresa, para transformar verbas acumuladas em competências úteis, preparar equipas para novos desafios e reforçar a competitividade das organizações.
Num tempo em que a competitividade depende cada vez mais da capacidade de aprender, desaprender e reaprender, os apoios à formação devem ser usados com intenção e não para cumprir calendário, não para gastar saldo, não para acrescentar mais uma linha ao plano anual e obrigatório de formação. Devem ser usados para preparar pessoas e, através delas, preparar as empresas e economia.
O verdadeiro valor destes apoios não está no financiamento em si, está no que as organizações forem capazes de fazer com ele para uma estratégia séria de desenvolvimento de pessoas e talento.