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(A) :: A nova cartilha de André Ventura já resultou lá fora

A nova cartilha de André Ventura já resultou lá fora

Se em tempos António Costa convenceu os portugueses de que as vacas conseguem voar, então muito provavelmente André Ventura conseguirá convencê-los de que dois mais dois são cinco.

Miguel Pinheiro
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Nas últimas semanas, com a defesa de uma redução da idade da reforma, André Ventura deixou o PSD, o CDS e a IL perplexos, num estado de choque e espanto. A direita portuguesa não teria agarrado o colar de pérolas com mais força se um homem tivesse irrompido nu e a fazer o pino pelo palco do teatro de São Carlos a meio de uma apresentação de “Tristão e Isolda”. O choque é este: a redução da idade da reforma não é uma exigência que hoje em dia só se encontra na esquerda mais radical? O espanto é este: não era suposto o Chega ser de direita? A resposta a cada uma destas perguntas é, respetivamente, “sim” e “sim”.

Mas o problema não está nas respostas; está nas perguntas. Elas pressupõem que a grande aspiração do Chega é preencher os requisitos daquilo a que as pessoas bem comportadas consideram ser “a direita”. Mas não é: a grande aspiração do Chega é, simplesmente, governar. Para isso, como se perceberá com facilidade, precisa de votos da direita, mas fatalmente também da esquerda, porque não lhe basta ficar em primeiro lugar numas eleições — precisa de uma maioria sólida que o proteja de um Parlamento hostil.

Há uma velha frase usada pelos professores mais severos e que durante décadas fez o terror dos alunos da Faculdade de Direito de Lisboa: “O senhor tem ideias boas e tem ideias originais. Mas as boas não são originais e as originais não são boas”. Felizmente para ele, André Ventura não precisa de sofrer como os pobres aspirantes a juristas. Basta-lhe ter ideias boas, mesmo que não sejam originais, porque, no caso dele, a inventividade não é uma exigência — pelo contrário. Na verdade, a prudência e a experiência aconselham-no a seguir a cartilha dos seus partidos-irmãos. É isso que tem feito com sucesso até ao momento e, por isso, não há motivo algum para mudar de estratégia.

Para decifrar os últimos dias na política portuguesa, basta olhar para Nigel Farage, um dos totens de Ventura. Há dias, o Reform UK dizimou o Partido Trabalhista nas eleições locais e tomou de assalto a chamada “Muralha Vermelha”, que percorre as regiões que votam Labour desde o tempo dos tetravós. O partido-irmão do Chega conseguiu 1.372 representantes em autarquias e os trabalhistas perderam 1.229. Na noite da vitória, enquanto preparava o charuto e tirava o champanhe do frio, Farage proclamou: “Esqueçam a divisão entre a esquerda e a direita. Isso foi deitado pela janela, acabou.” Antes, já tinha anunciado, de forma insistente, que o Reform é o novo “partido dos trabalhadores”.

Isto não é apenas retórica vazia. Nigel Farage tem pedido, por exemplo, a nacionalização da British Steel, para garantir que o Estado controla a produção de aço no país; tem exigido o regresso dos subsídios aos pensionistas para o pagamento do aquecimento no inverno, que foi cancelado pelo governo trabalhista por preocupações de equilíbrio orçamental; e tem defendido uma política de reindustrialização protegida pelo Estado. Da mesma forma, André Ventura pede a diminuição da idade da reforma, clama pela manutenção do Estado na TAP e equivale a reforma laboral do governo a um regresso da escravatura.

O Reform e o Chega querem apresentar-se como de direita e, ao mesmo tempo, querem ser economicamente nacionalistas e estatistas. Isto, inevitavelmente, empurra-os para um pântano de contradições. No Reino Unido, Nigel Farage não consegue explicar como é que pretende aumentar ciclopicamente as despesas do Estado e, num mesmo movimento, protagonizar uma redução de impostos homérica. Por mais que chicoteemos a matemática, ela tem tendência para ser teimosa. Mas não foi isso que travou Farage nas eleições e, provavelmente, não será isso a travar Ventura quando for novamente pedir votos.

Stephen Daisley escreveu na Spectator a melhor definição destas incoerências: “O problema dos trabalhistas é que não acreditam em nada, o problema do Reform é que acredita em tudo.” Em Portugal, a adaptação seria assim: “O problema dos partidos do regime é que não acreditam em nada, o problema do Chega é que acredita em tudo.” André Ventura acredita que é possível ser de direita e de esquerda ao mesmo tempo; acredita que é possível descer a idade da reforma e, simultaneamente, descer os impostos; acredita que é possível ter mais despesas com menos receitas, ou com receitas imaginárias. Olhando para a distribuição de votos no Reino Unido, e olhando para a distribuição de votos em Portugal, se calhar tem razão ao apresentar essas convicções aos eleitores. Se em tempos António Costa convenceu os portugueses de que as vacas conseguem voar, então muito provavelmente André Ventura conseguirá convencê-los de que dois mais dois são cinco. A dada altura, se calhar, estamos por tudo e passamos a aceitar que, como se costuma dizer, pior não fica.