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(A) :: Um café de 16 minutos, intrigas em salões de chá e uma viagem de comboio à Lenine. Keir Starmer tenta sobreviver no meio do caos do Labour

Um café de 16 minutos, intrigas em salões de chá e uma viagem de comboio à Lenine. Keir Starmer tenta sobreviver no meio do caos do Labour

Wes Streeting deu o tiro de partida para contestar a liderança do PM e a sombra do mayor de Manchester, Andy Burnham, vai pairando sobre o Labour. Mas Starmer não está pronto para desistir.

Cátia Bruno
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Dezasseis minutos. Foi esse o tempo exato que durou a reunião desta quarta-feira entre o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e o seu ministro da Saúde, Wes Streeting, que alguns aliados de Starmer descreveram singelamente como “dois homens a tomar um café”. A imprensa britânica divulgou mais tarde os detalhes: os assessores foram convidados a sair, para permitir uma conversa franca entre os dois homens, e Streeting foi direto. O ministro disse ao líder que, depois da derrota estrondosa do Partido Trabalhista nas eleições locais, já não tinha confiança nele para liderar os destinos do Reino Unido.

À altura em que os dois políticos tomavam esse café rápido, quase 90 deputados do Labour já tinham pedido a saída do primeiro-ministro, quatro membros do Governo haviam apresentado a sua demissão e onze sindicatos ligados ao partido tinham pedido um plano para alterar a liderança. A pressão sobre Keir Starmer era imensa e parecia inevitável que, mais tarde ou mais cedo, ou o primeiro-ministro se demitia ou alguém iria tentar substituí-lo — algo inédito dentro do Partido Trabalhista, que nunca teve um primeiro-ministro desafiado pelos seus próprios deputados. Streeting assumia-se como o candidato mais provável.

O ministro da Saúde, contudo, ficou aquém de apresentar a demissão, provavelmente para não desviar os holofotes do Rei Carlos III, que discursaria pouco depois no Parlamento. Mas não foi preciso esperar muito: exatamente um dia depois, esta quinta-feira, Streeting enviou uma carta a Starmer apresentando a sua demissão. “Onde precisamos de visão, temos um vácuo. Onde precisamos de direção, temos deriva”, foi a acusação afiada do membro do Governo, que ainda atacou Starmer por, diz o ministro, não ouvir os membros do próprio partido e atirar outras pessoas para debaixo do autocarro.

Mas depois da demissão não veio o passo seguinte por que todos esperavam: Wes Streeting não anunciou uma candidatura à liderança do Labour. Sinal de que não tem o apoio dos 81 deputados necessários? Ou estamos antes perante uma refinada estratégia para sobreviver dentro de um partido marcado pelos jogos de bastidores?

Streeting, o blairista que fez juras de amor a Starmer num karaoke

Wes Streeting destaca-se entre os putativos candidatos a substituir Keir Starmer por uma razão específica: é o único, entre os nomes ventilados dentro do partido, que se coloca ao centro do espectro ideológico do Labour.

Apoiante da terceira via de Tony Blair (apesar de sempre ter sido um crítico da guerra do Iraque), Streeting tem um passado de pobreza que, no entanto, não o atirou para a ala mais à esquerda do partido. Criado num bairro social, teve um avô e uma avó presos e evitava levar amigos a casa por ter vergonha; considerava-a, disse mais tarde, “nojenta”. Assumidamente gay, não é, contudo, o rosto dos direitos LGBT dentro do partido — até porque é um homem de fé que sempre se debateu para tentar conciliar ambos os aspetos.

Dúvidas houvesse de que Streeting se apresenta como um possível candidato da direita do Labour, basta ler o artigo desta quarta-feira de Allister Heath: “Ele é muito mais carismático do que Starmer ao vivo, muito melhor político e está longe de ser um esquerdista fanático”, escreveu o diretor do The Telegraph. “Diz muitas vezes a coisa certa sobre a reforma do setor público e a responsabilidade fiscal, atacou e bem os médicos que fizeram greve e provavelmente apoiará as políticas de imigração da atual ministra da Administração Interna.”

“Ele leu mal a política do grupo parlamentar do Labour. Eles respeitam ambição, mas só até certo ponto. Não esperam que sejas um idiota.”
Membro do Governo de Starmer ao The Times sobre Wes Streeting

Mas quem Streeting precisa de convencer para ter apoios suficientes para desafiar Starmer não é o The Telegraph, mas sim os deputados do Labour e não é claro se há 81 firmes ao seu lado. Para alguns, a traição do ministro da Saúde — cuja ascensão política se deve sobretudo a Keir Starmer, que lhe deu lugares no Governo-sombra quando ainda era líder da oposição — pode não abonar a favor do seu caráter como líder. Streeting é o homem que, em 2021, cantou a música “Angels” de Robbie Williams num karaoke, adaptando a letra para “Keir won’t forsake me, I’m loving Starmer instead” (“O Keir não me vai desamparar, agora amo o Starmer”). E é o mesmo homem que, quando questionado em novembro sobre se descartava pedir a demissão do primeiro-ministro, declarou ironicamente “sim, e também não assassinei o JFK (…) e acho que os EUA aterraram na Lua.”

“Ele leu mal a política do grupo parlamentar do Labour”, comentou um membro do Governo, que classificou Streeting como “imaturo”, ao The Times.  “Eles respeitam ambição, mas só até certo ponto. Não esperam que sejas um idiota.”

Talvez seja a necessidade de ainda convencer alguns colegas de bancada que levou Streeting a não anunciar já uma candidatura. Oficialmente, um dos seus aliados justificou a decisão à editora de Política da Sky News Beth Rigby não com a falta de apoios, mas sim porque “não seria a coisa certa para o partido”. “O Keir precisa de anunciar um calendário e permitir a corrida mais ampla possível. Só assim podemos reconstruir depois desta trapalhada”, declarou a fonte.

“Estes gajos que se lixem”. Starmer está pronto para a luta

Do outro lado da barricada, Keir Starmer mantém-se firmemente agarrado ao lugar.

Na véspera do café com Streeting, o primeiro-ministro deixou-o claro no Conselho de Ministros de terça-feira. “O Partido Trabalhista tem um processo para desafiar um líder que não foi ativado”, disse. “O país espera que voltemos à governação. É isso que estou a fazer e é isso que devemos fazer enquanto Governo.” Um aliado resumiu assim à Spectator a atitude de Starmer: “O primeiro-ministro entrou no Conselho de Ministros e pensou ‘Sabem que mais? Estes gajos que se lixem. Não vai acontecer. Vou lutar.’

À saída da reunião, os seus ministros mais leais — que o Telegraph apelida de “Starmtroopers” — desfizeram-se em declarações que vão no mesmo sentido. “Ele vai continuar o seu trabalho, como deve fazer e como as pessoas esperam”, disse o ministro do Trabalho. “Há um processo para desafiar o primeiro-ministro e ninguém fez esse desafio”, reforçou a ministra da Tecnologia. Horas depois, era publicada uma carta assinada por mais de 100 deputados do Labour que dizia “não ser altura de ter uma corrida à liderança”.

Terça e quarta-feira foram dias preenchidos por movimentações dos mais próximos do primeiro-ministro. Vários membros do Governo passaram horas nos salões de chá do Parlamento a conversar com deputados do Labour, reforçando a mensagem de que uma corrida à liderança “mergulharia o país no caos”. Foi precisamente isso que Starmer repetiu na tarde de quarta-feira, em várias reuniões com membros do seu Governo. Alguns, como o secretário de Estado da Educação Josh MacAlister, resistiram ao argumentário. “O primeiro-ministro tem de tomar o controlo da situação e definir um calendário [para eleições internas]”, diz o The Times.

Aos jornais, os políticos próximos de Starmer iam construindo outra narrativa: “A equipa do Wes [Streeting] andou desesperada pelos bares [de Westminster] a tentar reunir apoios na noite passada”, comentou um deputado ao The Guardian. “Se eles venderem a banha da cobra ao partido, não serão perdoados por esta instabilidade.”

Andy Burnham, o Dom Sebastião vindo de Manchester

Mas desengane-se quem pensa que isto é um duelo Streeting/Starmer.

À mesma hora em que o Conselho de Ministros estava reunido na terça-feira, um homem apanhava um comboio para Londres. “A sua chegada à capital foi recebida por alguns deputados como se fosse Lenine a chegar à Estação Finlândia em 1917”, notou a Spectator. O homem é Andy Burnham, presidente da Câmara de Manchester que é, para muitos dentro do partido, o Dom Sebastião que pode vir salvar o Labour. “O Andy aparece reforçado sem fazer nada a não ser entrar num comboio”, lamentava-se à revista um membro do Governo.

A sua omnipresença é tal que, no dia seguinte, foi invocado durante a sessão no Parlamento que contou com a presença do Rei: no cerimonial que inclui o bater à porta da Câmara dos Comuns, um deputado gritou em tom de piada “Agora não, Andy!”

https://twitter.com/JoshGafson1/status/2054517704057405882

As sondagens dão conta de que Burnham é uma das figuras mais populares do Partido Trabalhista e, por isso, na bancada parlamentar do Labour muitos suspiram pela perspetiva de ser ele a substituir Starmer. Só que o caminho para o mayor lá chegar não é simples: as regras do partido ditam que apenas podem concorrer à liderança deputados. Isso significa que, se Burnham está disposto a desafiar o primeiro-ministro, precisa primeiro de ser eleito para a Câmara dos Comuns em tempo recorde.

Na tarde desta quinta-feira, essa perspetiva ganhou força. Josh Simons, deputado do partido por Makerfield (um círculo eleitoral de Manchester, terra liderada por Burnham), decidiu demitir-se para abrir o caminho para o autarca. Mas Burnham ainda tem muito caminho pela frente: primeiro precisa que os órgãos do partido (controlados por Starmer) autorizem que seja candidato na eleição especial para Makerfield; depois precisa de vencer a eleição; por fim, tem de garantir que o Labour não arranca para uma corrida à liderança antes de tudo isto acontecer.

Sabendo destas dificuldades, a ala esquerda do partido vai considerando outros nomes que se podem chegar à frente para desafiar Starmer em vez de Burnham. Uma possibilidade é o antigo líder Ed Miliband — que continua a negar em público qualquer vontade de regressar ao poder, ao mesmo tempo que fontes próximas dizem aos media o contrário —, outra é Angela Rayner. A antiga vice-primeira-ministra demitiu-se por causa de um escândalo fiscal, mas regressou esta quinta-feira à política com uma entrevista onde diz que as suas dívidas ao fisco estão resolvidas e onde não exclui uma candidatura à liderança do partido.

Starmer, porém, ainda tem cartas na manga. Uma foi levantada pelo jornalista Robert Peston, sugerindo que o primeiro-ministro pode precisamente oferecer a Rayner a vaga que abriu no Ministério da Saúde com a saída de Streeting. “Ela representa uma grande parte do grupo parlamentar do Labour que quer a saída dele. Por isso, se ela lhe estender uma tábua de salvação, eles talvez façam o mesmo”, escreveu no X.

Outra pode ser sinalizar ao partido que está disponível para permitir a Andy Burnham saltar de Manchester para Westminster, como nota o Financial Times. Com isso, Starmer pode conseguir convencer os deputados mais à esquerda a apoiá-lo contra Streeting por agora, mantendo no horizonte a perspetiva de poderem votar em Burnham mais tarde. Seria uma forma de ganhar tempo — e quem sabe o que irá acontecer entretanto?

Tudo em aberto no “circo” do Labour

Durante os últimos anos, o Partido Conservador foi despedaçado por guerras fratricidas, com sucessivos primeiros-ministros a serem empurrados graças a maquinações na sombra. Agora na liderança do Governo, o mesmo fenómeno parece estar a atingir os trabalhistas, que equacionam todas as possibilidades para afastar Keir Starmer, na esperança de que o Labour consiga assim perpetuar-se no poder.

Daí que todas as opções estejam em cima da mesa: incluindo até uma possível aliança entre Wes Streeting e Andy Burnham. O que une alguns deputados é, sobretudo, a oposição a Starmer: “Se for mais tarde, eu escolho o Andy, mas, se for agora, é o Wes”, resumiu um parlamentar ao The Guardian.

O facto de Streeting se ter demitido sem anunciar de imediato a candidatura à liderança leva alguns a especular que pode estar a manter opções em aberto. Na sua carta de demissão, Streeting disse ser a favor de uma corrida “ampla”, num sinal de que parece desejar mais adversários. Dentro do Número 10 de Downing Street, a equipa de Starmer não exclui a possibilidade de Streeting e Burnham unirem forças (com um possível apoio de um deles ao outro em troca de um lugar no novo Governo, por exemplo).

Qualquer previsão sobre o futuro do Labour neste momento corre o risco de sair furada, tendo em conta o clima fluido dentro do partido. Há deputados que assinaram a carta a favor de Starmer, por exemplo, que admitem vir a virar-se contra ele — “Quando chegar uma mudança, o Andy tem de ser uma hipótese”, comentou um com a Spectator.

Mas quem disser que Starmer tem os dias contados também pode vir a enganar-se. O seu potencial adversário mais ameaçador, Burnham, está longe de conseguir agir agora; e tudo indica que Streeting não tenha, para já, apoio suficiente para lhe tirar o tapete. O insuspeito conservador Charles Moore, jornalista e biógrafo de Margaret Thatcher, invocou o exemplo da antiga primeira-ministra, que se demitiu apenas um dia depois de ter garantido estar a lutar pela vitória: “O sir Keir não está, de longe, nessa fase. A sua posição é mais forte do que a dela.”

Dilacerado pelas derrotas autárquicas e impopularidade do primeiro-ministro, o Labour vai-se movimentando freneticamente na busca pela sobrevivência. O retrato, como notou um membro do Governo, não é bonito: “Se as pessoas de fora acham que isto é um circo… Dentro da tenda é muito, muito pior.”

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