ProfJam está de volta com LSD, o álbum prometido há seis anos que agora vê a luz do dia: é lançado esta sexta-feira, 15 de maio. É um disco conceptual em torno do amor, um projeto que acabou por beneficiar do amadurecimento pessoal e artístico de Mário Cotrim, um dos mais populares e influentes rappers portugueses dos últimos 15 anos. Uma década após lançar Mixtakes e co-fundar a decisiva editora Think Music, continua a desbravar terreno pelos caminhos do rap e mais além.
A vontade surgiu depois de em 2019 ter feito #FFFFFF, o seu “álbum branco”, um dos discos mais ouvidos daquele ano no Spotify, que se revelou crucial para redefinir os padrões de qualidade, elevar a fasquia e demonstrar como havia espaço para um trap orelhudo, denso e palavroso, no pódio da música popular em Portugal. Mais do que nunca, tornava-se professor numa vasta escola de discípulos que se mantém até hoje.
HEI, um tema de luxúria co-produzido por Branko e Pedro da Linha, foi o primeiro avanço de LSD, revelado em janeiro de 2020. ProfJam desejava explorar o território sonoro do amor e da paixão, dos prazeres carnais e da sedução. Só que, um par de meses depois, a pandemia da Covid-19 deixou o mundo em suspenso e o disco deixou de fazer sentido naquele momento.
“Acho que tens de ser coerente com o que estás a fazer e a Covid não estava a puxar de todo para aí”, reflete ProfJam em entrevista com o Observador, meia dúzia de anos volvidos. “Não fazia sentido nem sequer poder dar um passeio com a minha namorada e estar a fazer músicas de amor. Senti que não era a época e estava meio revoltado com a situação.”
O resultado foi System, um disco construído a meias com benji price — que hoje usa o nome real João Maia Ferreira, parceiro de rimas, beats e co-fundador da Think Music — onde explora a loucura daqueles tempos, onde questiona o “sistema” e a Matrix, um tema recorrente no imaginário de Mário Cotrim, à base do egotrip de quem tinha operado uma verdadeira revolução no rap e na música portuguesa, escancarando as portas para a geração do trap, enfrentando o conservadorismo da tradição hip hop sem negar as bases.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/0jTTydIhEi4RM75zIYblMS?si=g0QqhRWsQq-RhChyqs43cg
ProfJam foi ainda mais longe no álbum seguinte, Música de Intervenção Divina (MDID), onde se virou para dentro e se fechou “na caverna” para 25 faixas a solo de devaneios filosófico-espirituais, num disco de profeta eremita onde imaginamos o artista a percorrer as paisagens exóticas e futuristas dos desertos de ficção científica de Dune. “Um dia mais tarde vão ver que eu fiz uma proeza/Eu sangrei por ti e pus a pena a escrever sangue/Dei aos alunos a matéria para o exame/E deixei em cada quadra uma cábula que não dê cana/Eles não contavam com isto, não contavam comigo/Porque eu vim cordeiro em pele de lobo”, rima em TUGA, onde se declara à língua portuguesa, mais maleável do que nunca na sua voz, e onde relata as lutas que travou em nome da renovação do rap.
Durante todo este tempo, nunca abandonou a ideia de LSD. “Até porque acho que qualquer artista vai fazendo cenas de amor no estúdio. Nunca deixei de ter essa vertente”, conta, explicando que foi guardando os temas para o ambicionado disco inteiramente dedicado a esta temática. “Fazer um álbum e ter um som de amor lá no meio pode funcionar, mas sempre gostei da ideia de ter um álbum só para isto. É assim que a minha mente funciona, gosto de compartimentar as coisas.”
A escolha original do título, a cuja sigla atribuiu o significado de “Love Songs Die”, pretendia estabelecer um paralelismo com a “trip” psicadélica das drogas alucinogénicas. “Estás apaixonado, tudo é fácil e maravilhoso, é quase uma droga. Mas depois também podes ter a bad trip, não é? Já senti amores que eram vícios, relações tóxicas. Como é que pode ser amor se não nos respeitamos, se fazemos tanta treta um ao outro? Parece que tem de ser um amor intenso, quase doente, louco.” Em Melhor de Mim, um dos novos temas, rima precisamente sobre essa paz encontrada hoje no amor: “Ai pelo que eu passei, tu não tens noção/Tu não me deixas louco, tu deixas-me são/Eu também tive uma vida madrasta/Fiquei cativo em muitos lugares/Antes de ti eu perdi muitos pares”.
O disco acabou por enveredar por outros caminhos à medida que Mário Cotrim foi crescendo e passando por diferentes experiências pessoais. “Este não é o álbum que eu teria feito há seis anos. Talvez por isso não tenha conseguido fazê-lo até agora. Eu ainda não era a pessoa que poderia fazer este disco, não tinha essa maturidade. Se calhar iria fazer um álbum muito mais carnal.”
Numa era em que observa a “rapidez” e as “relações descartáveis”, numa sociedade onde muitos “veem as outras pessoas como um meio para atingirem um prazer”, argumenta que este disco pretende “nutrir” no sentido contrário. “A missão do álbum acaba por ser alimentar as relações das pessoas, fazer com que se amem com qualidade. Acho que a sociedade nos distrai do amor.”
ProfJam também aponta o dedo à própria cultura hip hop e faz um certo mea culpa. “Comportei-me de certa maneira e fui por certos caminhos porque também fui influenciado. As músicas que ouvia, o homem que eu achava que tinha de ser… Pela minha própria falência humana de não me querer entregar, de querer mais usar do que amar. Isso até é muito contra a pessoa que sou. Nunca fui um rapaz de me fazer às miúdas e de querer estar com elas só porque sim. Sempre fui muito mais de me apaixonar. Então existem diferentes responsabilidades aqui. Qual é a dieta cultural que estamos a produzir? Há a responsabilidade de quem consome, porque existe o McDonald’s e tu é que decides consumir. Mas depois existe o lado de haver um deserto de nutrição. E tu próprio és influenciado enquanto produtor, achas que é assim que fica fixe, e é um problema do hip hop. Não de todo o hip hop, porque ele tem muitas facetas, e existe hip hop mais consciente ou com letras de amor, mas muitas vezes apresenta como fixes cenas que não são assim tão fixes. Desde o crime às drogas… Uma coisa é retratar, outra é tornar fixe e de algum modo desencaminhar. Hoje, assumo mais essa responsabilidade de não querer pregar uma coisa que não pratico ou que me faz mal. Porque eu também me vou tornar aquilo que cantar. Descobri as consequências do que é fazer música a dizer que sou um poeta louco… Tu tornas-te aquilo”, diz, aludindo ao conhecido episódio em 2019 em que, depois de consumir estupefacientes, sofreu um surto psicótico e teve de ser internado no Hospital Amadora-Sintra.
https://www.youtube.com/watch?v=v-K40hciG0c
Nesse sentido, ProfJam construiu LSD como manifestação daquilo em que deseja cada vez mais tornar a sua vida. “Fiz este álbum porque é nisto que me quero tornar”, assume. “Tenho que walk the talk. Se for uma boa talk, será melhor para mim. Porque depois vais para o palco cantar as letras e tornas-te essa pessoa, ou então crias uma grande divisão entre quem és e aquilo que fazes. Vives num conflito esquisito. Estás a proclamar coisas que não batem certo, a manifestar coisas que não são saudáveis. O [rapper norte-americano] Future, se calhar, já não consome “lean” [droga feita à base de opiáceos e xarope medicinal], mas continua a fazer música a falar sobre isso. Porque é o que as pessoas esperam dele. E isso também é uma prisão, tornas-te refém de ti mesmo e das expetativas. A direção é ser cada vez mais coerente com o que quero para a minha vida, o que também é bom para o meu papel enquanto artista. Quero que o Mário e o ProfJam cada vez mais se encontrem, que a minha carreira também sirva para melhorar enquanto pessoa. Tens de te respeitar a ti mesmo e tentar que a arte cresça contigo, levando as pessoas nessa viagem.”
Embora ainda se reveja na sua obra anterior — composta pelas mixtapes The Big Banger Theory (2014) e Mixtakes (2016), e os álbuns #FFFFFF (2019) e MDID (2023), além dos projetos colaborativos System (2020), com benji price, e London LP, com Lon3r Johny (2025) — e reconheça que cada disco representa a fase da vida por que estava a passar, hoje revela que de forma espontânea altera detalhes em certas letras quando leva algumas dessas canções para o palco. “Já não sou a pessoa que fez aqueles discos, mas foi o fazer esses discos que me fez a pessoa que sou agora. Há um certo contrassenso, no sentido em que algo deu muito certo no errado que fiz.”

É impossível dissociar o novo disco da fé católica de Mário Cotrim, que se tem vindo a intensificar publicamente nos últimos anos. Ainda que este não seja um disco religioso, com uma mensagem doutrinária — ProfJam diz que não queria “ser moralista” — há referências evidentes ao conceito de Paraíso e à sua visão do mundo — e todo o imaginário de um amor moral vem assumidamente da religião.
“Fico feliz por não ser super latente, mas que se entenda que há essa direção. Acho que só entendi mesmo o que é amar agora, recentemente, quando voltei a procurar Deus de uma maneira mais sã. Porque antes procurava-o através da arte e de certos consumos, achava que essas elevações, o estar high, aproximava-me de Deus. Mas porque é que te estás a sujar e a estragar desta forma? Percebi que não precisava disso. E que o amor não é uma questão daquilo que eu quero. Há uma entrega, um serviço, não é só termos uma pessoa que nos satisfaz. Isto é mais do que sobre ti, não é sobre o indivíduo, é sobre a família. Aí é que está a verdadeira felicidade. Às vezes parece que somos educados para, quando fica difícil, é porque está errado e entra a tal lógica descartável. Mas essa dificuldade, se calhar, é o amor. Não dormiste nada, tens o teu filho aos berros, estás com este e aquele problema e decides ficar e enfrentares os problemas. Vai doer, mas isso é o amor. E isto coincidiu com a fase da vida em que sinto que estou na altura de casar, de pensar nessas coisas, já tenho essa estabilidade mental e emocional.”
Construir o novo álbum, conta, também foi uma forma de refletir sobre experiências passadas, admitir erros cometidos, dar passos em frente na (auto)descoberta constante da vida. “Escrever sobre amor acaba por ser algo mais concreto, mexe mais contigo, porque é a tua vida, é a pessoa X ou Y. Nesse sentido, é um álbum muito pessoal. Mesmo que a minha maneira de escrever seja mais à volta de ideias, não é storytelling.”
Um disco menos pesado
Não foi pensado nem planeado, mas LSD também é marcado por uma série de diferentes incursões sónicas que ainda não tínhamos ouvido no universo de ProfJam. Não é um ponto de viragem revolucionário — mantém-se o registo trap, o auto-tune abundante que eleva a voz de Mário Cotrim ao transcendente e confere verticalidade ao som, as rimas aparentemente perfeitas entre palavras e sílabas que de facto não rimam, tal é a maneira como o rapper as distorce, parte e une para fazerem sentido no seu puzzle idiomático.
Porém, as temáticas em torno do amor — muitas vezes o sentimento está na frente, ainda que também se explore a paixão física ou a mágoa, em determinados momentos — levaram-no naturalmente a abordar instrumentais mais suaves ou ligeiramente mais dançáveis, pelo menos quando comparados com o peso e a intensidade de MDID. A batida quente de Baby Vem Comigo aproxima-o de África; Príncipe tem o balanço de uma pista de dança; o single Sozinho apresenta nuances mais eletrónicas. Mas Bounça ou Lado Negro mantêm-no no abismo trap que o MC escavou para si próprio.
“Não queria fazer um álbum de amor que fosse super pesadão, não fazia sentido. A ideia sempre foi ter vários estilos, um espectro maior de cores, porque vim de um álbum mais pesado de 25 malhas sem feats”, conta. Este é, de longe, o disco de ProfJam com mais convidados. O alinhamento de luxo junta-o pela primeira vez a nomes como Ana Moura, Plutonio e Ivandro, mas também há colaborações com os mais habituais Lon3r Johny e Sippinpurpp, afiliados desde os tempos da Think Music. O gesto de Melhor de Mim, com Lon3r Johny — a única faixa que é iniciada pelo convidado — dialoga indiretamente com o Interlúdio que ProfJam gravou recentemente para o álbum do amigo, 94, editado no passado mês de abril.
https://www.youtube.com/watch?v=UmRvocd0Ugw
De fora ficaram as faixas que fizeram o caminho para LSD, desde a fundacional HEI a temas como Alguém Como Tu (com Agir), passando pela experimentação reggaeton de RGTN ou a mais introspetiva NR6. “Queria 16 malhas novas, mais para provocar surpresa — como o LSD, não sabes o que vai acontecer. Nunca demorei tanto tempo a lançar um álbum, então meio que me fez confusão, senti que as estaria a enfiar na tracklist, porque já se passou tanto tempo. Talvez acabem por entrar numa versão deluxe.”
A “equipa de sonho” na produção foi essencialmente composta por duas duplas de músicos, compositores e produtores. Os 2LO, duo de Gonçalo Lemos e Leonardo Pinto que já tinham assumido a produção executiva de MDID e acompanham ProfJam em palco; mas também Ariel e Migz, a dupla sensação que tem sido uma das mais requisitadas no país, somando mais de 40 singles de platina nos primeiros quatro anos de trabalho em conjunto. Outros produtores reputados deram os seus contributos para LSD, como é o caso de Fumaxa, também um nome recorrente nos créditos de muitos discos.
10 anos de uma revolução chamada Think Music
Uma década após a fundação da Think Music, ProfJam mantém-se como figura de proa no rap nacional. A editora independente e coletivo artístico foi uma das maiores responsáveis pelo ponto de viragem que aconteceu naquela época e hoje os frutos são bem visíveis — tanto para vários dos artistas que protagonizaram aquele movimento, desde a ascensão de Lon3r Johny ao culto em torno de nomes como xtinto ou João Maia Ferreira; como para os muitos herdeiros que foram inspirados e beneficiaram do legado.
“Se não fôssemos nós, iria acontecer na mesma, porque foi um movimento global, não é? Eu também estava a ser influenciado esteticamente pelo que se fazia lá fora”, contextualiza ProfJam. “Foi motivante porque era fresco e diferente. É como o Sam [The Kid] dizia sempre: não tragam arroz doce para a mesa, já há arroz doce. E houve uma altura em que toda a gente queria ser o Sam ou o Valete. Essa ideia entrou em mim, deu-me escola. Como digo na [música de reação às ondas de choque] Auto:Boom, eu estudei as regras do jogo. Queres fazer uma cena tua que seja única, porque é isso que inspira, essa coragem e identidade. As coisas que eu digo, boas e menos boas, sei que vieram de mim. E isso foi uma coisa boa, acho que as pessoas começaram a experimentar muito mais, abriram-se muitas barreiras musicais no hip hop”, reflete.
Se os artistas da Think Music deram o corpo às balas num movimento de rutura, ProfJam constata que os padrões mudaram tanto que hoje “já nada choca ninguém” esteticamente. “Se fizeres um rap num trance, as pessoas já não vão ficar chocadas. Antes não o podias fazer, era mais revolucionário. Agora podes fazer tudo, mas tem que ser bom, não é só porque fazes um rap em cima de um trance que vai ser bom. Não é o romper pelo romper. E agora aquilo que é fresh até pode ser ser um álbum boom bap, porque isto está sempre a mudar.”
Ao longo dos últimos anos, com a ascensão definitiva do hip hop ao mainstream e a profunda industrialização do rap — que antes vivia à margem das grandes editoras e da indústria da música, num circuito paralelo — a própria música também influenciou a pop, até por o rap se ter tornado mais melódico com a explosão do trap. A confluência entre o hip hop, a nova vaga de R&B e as frequentes influências das músicas africanas (desde a proximidade cultural aos PALOP aos afrobeats globais de Burna Boy ou WizKid) acabou por gerar o termo “música urbana”, tão em voga nos dias que correm.

“Uma das principais influências que eu noto que o rap teve na pop foi na caneta. Hoje em dia, ouves uma música pop portuguesa e há brio na caneta, notas que há wordplay”, sublinha ProfJam. “Claro que antes já havia grandes letras em muitos estilos, tenho de fazer essa ressalva, mas houve esta marca do rap na música portuguesa. O consumidor da música pop já espera uma letra mais fixe. E também se nota nalgumas produções, nos baixos e nos bombos.”
Em sentido inverso, o próprio rap, naturalmente, também adquiriu nuances da música pop e em muitos casos alcançou uma dimensão totalmente pop — coexistindo, ao mesmo tempo, com diferentes circuitos underground ainda assentes numa lógica de contracultura. “Acho que é fixe um rapper ter o lado pop no sentido em que o teu produto ganha ao ser polido e bem tratado, bem produzido. Mas acho que não nos devemos pensar como artistas pop, no sentido de termos de nos encaixar numa moldura. O hip hop tem um espírito inconformado e certas temáticas que não vão ser pop. O desafio é tornar-se popular com boas mensagens. O artista também serve para incomodar e há muitos que estão polidos no mau sentido, não tocam nos assuntos verdadeiramente importantes. É só estético. Também é válido, mas é fixe haver uma mensagem.”
Mais do que nunca, ProfJam acredita nesse propósito, que a missão não é simplesmente “ser o artista mais badalado” ou “ter um hit na rádio”. “Porque, se não, estou só a fazer música para me sustentar, para lançar e ter concertos. Há quem goste de jogar esse jogo e joga-o bem. Mas não é para isso que eu estou aqui. Eu já fazia isto antes de isto ser o meu trabalho. Quero que aconteça como uma consequência, por ter desempenhado bem um papel. Se alguém ouvir este álbum e pedir a namorada em casamento… É disso que estou à procura. Mais do que uma corrida pelo sucesso, de coisas que não servem para nada. Muitas vezes estamos a caminhar para sermos mais individualizados, para estarmos divididos, mas temos de nos ajudar uns aos outros.”