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A inflação das estatísticas e a inflação da vida real

A inflação é de 3%, confirma o INE. Mas o gasóleo subiu 31%, o peixe fresco 27%, os legumes 30%, as rendas mais de 5%...

Diana Moura
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Há uma frase que se ouviu muito nos últimos dias nos telejornais: “A inflação está nos 3%.” Parece pouco. Parece quase controlado. O problema é que depois a peixeira olha para o preço da pescada, vê um aumento de 27%, e pensa — com toda a legitimidade — que alguém anda a brincar com ela. E, na verdade, percebe-se porquê.

A inflação é uma média. E o problema das médias é que, muitas vezes, servem mais para produzir manchetes do que para explicar a vida real das pessoas. Se eu comer um frango inteiro e o meu vizinho não comer nada, em média comemos meio frango cada um. Mas o meu vizinho continua cheio de fome.
É exatamente isso que acontece quando se fala de inflação.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou recentemente os dados de abril e confirmou uma inflação de 3,3%. À primeira vista, nada de dramático. O número até parece razoável comparado com os sustos dos últimos tempos. Mas depois começamos a olhar para os detalhes e percebemos porque é que tanta gente sente que o custo de vida sobe muito mais do que esses 3%.
O gasóleo disparou 31,6%. A gasolina subiu 12,4%. O peixe fresco aumentou 27%. Os legumes quase 30%. As leguminosas mais de 35%. A fruta perto de 29%. As rendas continuam a subir acima dos 5%.

Ora, para uma família comum, estas não são despesas ocasionais. Não estamos a falar de iates ou relógios suíços. Estamos a falar de coisas pequenas e banais: ir trabalhar, fazer sopa, comprar peixe para o jantar ou pagar a renda ao fim do mês. É aqui que a inflação se torna emocional. Porque as pessoas não vivem dentro da “média do cabaz do consumidor”. Vivem dentro do supermercado.
E há outro problema: a forma como comunicamos economia em Portugal continua excessivamente técnica. Dizemos às pessoas que “a inflação subjacente excluindo alimentares não transformados e energia foi de 2,2%”, como se isso ajudasse alguém a pagar a conta no fim do mês. A maioria das pessoas não quer saber a diferença entre inflação geral e inflação subjacente. Quer perceber porque é que antes saía do supermercado com dois sacos cheios e agora sai com um saco e meio — e a carteira vazia na mesma.

A literacia financeira começa precisamente aqui: na capacidade de traduzir conceitos económicos para a vida real.
Porque inflação não significa que “tudo sobe 3,3%”. Significa apenas que, em média, os preços estão 3,3% acima do ano passado. Só que ninguém consome “a média”. Há quem gaste grande parte do salário em combustível e alimentação e, para essas pessoas, a inflação sentida pode ser muito superior ao número oficial.
Aliás, basta pensar em duas famílias diferentes. Uma vive no centro de Lisboa, trabalha remotamente e quase não usa carro. Outra vive na periferia, faz 40 quilómetros por dia para trabalhar e tem três filhos adolescentes que parecem capazes de consumir um frigorífico inteiro em dois dias. A inflação destas duas famílias não é a mesma, mesmo que o INE apresente um único número.
Talvez esteja na altura de aceitarmos que a economia não falha apenas nos números. Falha também na linguagem.

Quando se fala de juros, inflação ou poder de compra, há demasiada tendência para comunicar “para dentro” — para especialistas, comentadores e ministros — em vez de comunicar para quem sente as consequências dessas decisões no quotidiano. E isso é perigoso. Porque quando as pessoas deixam de compreender os números, deixam também de confiar neles.
No fundo, a peixeira talvez perceba mais de inflação do que muitos economistas de televisão. Ela sabe que se o peixe sobe 27%, mas o salário sobe 3%, há uma coisa que inevitavelmente diminui: a sua margem para viver descansada.