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(A) :: Novo RJIES*: a Universidade para além do grau ou a "executive education"

Novo RJIES*: a Universidade para além do grau ou a "executive education"

A universidade que fica presa à ortodoxia perde velocidade. A que abandona a exigência perde identidade. A solução está no meio: estruturas de executive education autónomas.

José Crespo de Carvalho
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(Nota: *RJIES – Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, aprovado em 8 de Maio de 2026.)

Durante demasiado tempo a universidade foi vista como se ela mesma só existisse, com sentido, no caminho convencional do grau: licenciatura, mestrado, doutoramento. Esse caminho continua talvez essencial, embora eu tenha as maiores reservas quanto ao seu futuro se permanecer fechado sobre si próprio. Uma coisa é clara para mim: já não chega. Desde há muito. A velocidade da economia, a pressão das empresas, a transformação tecnológica, a inteligência artificial e a rápida obsolescência das competências exigem outra camada universitária: mais flexível, mais próxima do mercado, mais experimental e mais rápida. É aí que as unidades de executive education se tornam cada vez mais essenciais.

Estas estruturas não são apêndices da universidade. São, ou devem ser, um dos seus braços mais vivos. Conseguem mover-se com agilidade, desenhar programas em tempo útil, responder a falhas evidentes de mercado no momento certo e criar soluções formativas adaptadas a empresas, sectores, profissões e pessoas concretas. Onde a estrutura universitária tradicional demora, estas unidades podem encurtar o time to market, testar, ajustar, aprender e (re)lançar. De forma verdadeiramente “agile”.

A sua força está no equilíbrio entre autonomia e pertença. Devem ter gestão autónoma, capacidade de decisão, margem para contratar, inovar, internacionalizar e construir oferta. Mas essa autonomia não pode significar desalinhamento. Pelo contrário: deve estar ligada à missão da universidade-mãe, caucionada pela sua exigência científica e pedagógica e orientada para reforçar a sua marca institucional.

A executive education enobrece a universidade junto do mercado de trabalho. Leva a universidade às empresas, aos gestores, aos hospitais, à administração pública, às organizações sociais, aos alumni e aos profissionais que já estão a decidir. Cria impacto onde a decisão acontece. E esse impacto regressa à universidade sob a forma de reputação, rankings, receitas, conhecimento aplicado, novas parcerias, novos formatos de aprendizagem e reconhecimento institucional.

Há aqui uma mudança profunda. A universidade do futuro não pode limitar-se a transmitir conhecimento de forma unidireccional. Tem de criar contextos de aprendizagem co-construídos com os participantes. Tem de colocar o participante no centro do processo, não como consumidor passivo, mas como profissional que traz problemas, dados, experiência, dúvidas, erros e decisões. A formação executiva deve trabalhar autonomia, capacidade de decisão, responsabilização e acção. Deve trabalhar com a vida real.

Estas unidades são também laboratórios pedagógicos. Podem incorporar IA mais depressa, experimentar formatos, envolver empresas na concepção de programas, trazer antigos participantes como mentores, convidar profissionais de mercado como coordenadores ou professores e cruzar docentes universitários com desafios concretos. Esta mistura, quando bem governada, é poderosa: reforça a universidade e aproxima-a da realidade.

Há ainda uma dimensão financeira que não deve ser escondida. Estas unidades podem e devem gerar receitas próprias. Mas, sobretudo, devem usá-las para ganhar músculo: talento, tecnologia, internacionalização, qualidade pedagógica e crescimento próprios. Minha opinião, tudo isto para crescimento próprio. Quando funcionam bem, tornam-se centros de inovação prática ao serviço da missão universitária por excelência.

A universidade que fica presa à ortodoxia perde velocidade. A que abandona a exigência perde identidade. A solução está no meio: estruturas de executive education autónomas, ágeis, supervisionadas, exigentes e alinhadas. Não são alternativas menores ao grau. São uma resposta contemporânea a uma sociedade que já não aprende apenas uma vez na vida. Aprende sempre. Aprende em movimento. Aprende para decidir melhor hoje, não daqui a uns tempos.

Nota: O novo RJIES parece aprofundar esta necessidade, reafirmando a importância da executive education (das unidades participadas) e dando-lhe maior reconhecimento. Poderia ir mais longe. Mas parece-me que melhora a lei anterior.