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(A) :: A ditadura da opinião

A ditadura da opinião

A ditadura da opinião não precisa de censurar ninguém. Basta obrigar-nos a falar sempre. Resistir, hoje, pode ser ficar calado. Deixar que os factos cheguem inteiros.

Carlos Vinhal Silva
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Há uma fome de falar que nos tomou a boca. Uma fome nervosa, aflita, quase sem pensamento. Acordamos e o mundo já grita. As notícias entram pela casa como vento sujo, as redes sociais pedem-nos uma frase, os debates erguem o dedo, as vozes multiplicam-se até parecerem uma só máquina. E nós, para não ficarmos fora da máquina, dizemos qualquer coisa. Uma sentença curta. Um juízo ainda quente, ainda sem ossos. Falamos antes de saber. Falamos antes de sentir. Falamos porque o silêncio passou a parecer culpa. Há acontecimentos que ainda nem acabaram de acontecer e já estão cercados por opiniões. Vêm de todos os lados, com a pressa dos insetos sobre a luz. Ninguém esperou pelos factos. Ninguém deixou a verdade respirar. Basta uma notícia fragmentada, uma imagem sem corpo, uma frase arrancada ao seu lugar, e logo se forma uma multidão de certezas. Cada um levanta a sua pequena bandeira e chama-lhe pensamento. Mas o pensamento, quando existe, não corre assim. Anda devagar. Tropeça. Volta atrás. Hesita. Precisa de sombra.

E talvez eu devesse calar-me aqui. Talvez este texto seja já uma pequena traição ao que defende. Porque estou a escrever contra a necessidade de dizer e, ao escrevê-lo, cedo também ao impulso de dizer. Ergo a minha opinião contra a ditadura das opiniões e, ainda que o faça com mais demora, com mais pudor, com uma espécie de cuidado, continuo dentro da mesma sala cheia de vozes. Talvez apenas fale mais baixo. Talvez apenas tenha escolhido uma cadeira mais afastada da mesa. Mas continuo aqui, a acrescentar palavras ao ruído que condeno. Não digo isto para me absolver. Digo-o porque há uma vaidade subtil em criticar o barulho como se estivéssemos fora dele. Não estamos. Ninguém está. Até o silêncio, quando exibido, pode tornar-se uma forma de teatro. Até a prudência pode querer aplauso. Há em nós uma vontade pequena de parecermos mais lúcidos do que a multidão, mais serenos do que a febre, mais limpos do que o pó que respiramos. E esse desejo também suja.

Regresso. A velocidade tornou-se um tirano. Exige reação, presença, prova de vida. Quem não fala parece ausente. Quem não comenta parece indiferente. Quem se cala é acusado de estar do lado errado, mesmo quando o seu silêncio é cuidado ou luto ou recusa de acrescentar lenha a uma casa já em chamas. O mundo deixou de perguntar o que pensamos. Pergunta apenas de que lado gritamos. Talvez falemos tanto por medo. Medo de não pertencer. Medo de sermos esquecidos na grande corrente onde todos fingem saber para não confessarem a sua perplexidade. Há qualquer coisa de tribal nesta urgência. O grupo fala, então falamos. O grupo indigna-se, então erguemos também a nossa indignação, ainda que venha emprestada, ainda que nos fique mal no rosto. Há quem confunda participação com barulho, consciência com reação, coragem com a prontidão de ferir.

A política aprendeu depressa este teatro. Os seus atores correm atrás do dia, atrás da câmara, atrás do incêndio mais recente. Dizem frases para não perderem lugar na febre. Prometem, acusam, corrigem, desmentem. Há palavras que saem deles antes de terem encontrado um pensamento onde morar. E os media, com as suas mesas iluminadas e a sua sede de permanência, chamam vozes para preencher o vazio. Analistas, comentadores, especialistas de tudo e de coisa nenhuma. Falam para que nada pareça vazio. Mas às vezes o vazio era o que havia de mais honesto. Assim se constrói o grande ruído. Uma casa sem janelas, cheia de bocas. Cada palavra perde peso porque nasce sem silêncio. Cada frase morre depressa porque foi feita para chegar primeiro, não para chegar mais fundo. E no meio de tanta opinião, a verdade fica pequena, quase envergonhada, sentada num canto, à espera de que alguém a trate com menos pressa.

Precisamos de devolver dignidade ao silêncio. Não o silêncio cobarde, não o silêncio dos que se escondem para não responder pelo que fazem, mas o silêncio limpo de quem não quer trair a complexidade das coisas. Calar pode ser uma forma de atenção. Pode ser respeito. Pode ser o modo mais sério de dizer: ainda não sei. E dizer ainda não sei talvez seja hoje uma das frases mais corajosas que restam. Há uma beleza triste nas palavras que demoraram a nascer. Vêm com marcas, com peso, com a humildade de quem atravessou a dúvida. Não entram no mundo para vencer uma discussão, mas para tocar algum centro. Talvez devêssemos falar menos para que cada palavra voltasse a ter corpo. Talvez devêssemos escutar até doer um pouco. Talvez a inteligência comece nesse intervalo em que a boca se fecha e o mundo, por um instante, deixa de nos usar. A ditadura da opinião não precisa de censurar ninguém. Basta obrigar-nos a falar sempre. Basta convencer-nos de que existir é comentar, que pensar é reagir, que o silêncio é uma falha pública. E assim nos tornamos servos de uma urgência sem rosto, repetindo frases que não nos pertencem, entregando ao instante a nossa parte mais funda.

Talvez este texto devesse terminar antes. Talvez já tenha dito mais do que devia. Mas há palavras que só encontram alguma decência quando confessam a sua própria contradição. Esta é uma delas. Não quer vencer o ruído. Não pode. Quer apenas reconhecê-lo dentro de si. Quer dizer que, mesmo quando falamos com critério e serenidade, continuamos a correr o risco de transformar a lucidez em vaidade.

Resistir, hoje, pode ser ficar calado. Deixar que os factos cheguem inteiros. Deixar que a dor dos outros não seja transformada em palco. Deixar que a verdade encontre o seu caminho antes de a empurrarmos para a nossa necessidade de parecer conscientes. Só então a palavra volta a merecer ser dita. Só então falar deixa de ser ruído e se torna presença. Porque há frases que salvam. Mas há silêncios que impedem a alma de se perder.