Provavelmente em resultado do período pandémico, as eleições europeias de 2019 parecem hoje incrivelmente distantes. Os resultados eleitorais foram entendidos na altura como uma vitória do movimento ecologista em contexto de apocalipse climático, simbolizado pela figura de António Guterres. Desde então, porém, o peso destes partidos diminuiu transversalmente na Europa, muito pelo impacto que as políticas enérgicas têm tido, em particular, com o aumento do preço da energia.
Pode parecer, por isso, surpreendente que o partido cuja popularidade mais cresceu nos últimos meses no Reino Unido tenha sido o Green Party, que quadruplicou o número de membros e obteve uma importante vitória no círculo eleitoral de “Gorton e Denton”, em Manchester, nas eleições locais de Fevereiro. Nas eleições da semana passada, o crescimento registado nas cidades universitárias e nos bairros londrinos de tendência de esquerda revela que já não se trata de um “movimento de protesto marginal”. E tudo indica que este sucesso seja fruto da estratégia do seu novo líder, Zack Polanski.

Quem é Zack Polanski?
Zack Polanski assumiu a liderança do Green Party no início do mês de setembro de 2025 com uma agenda que o próprio designa como “ecopopulismo”. O seu objetivo passa por tornar o partido num movimento com maior visibilidade pública e apoio popular a partir de uma estratégia combinada de “substância e sensacionalismo [clickbait]”.
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Se atendermos ao crescimento do número de membros do partido nos últimos meses, o propósito parece ter sido cumprido e um percurso não isento de polémicas terá certamente ajudado. O escrutínio gerado pela sua eleição como líder deu a conhecer o seu passado como hipnoterapeuta e a sua convicção de que podia aumentar o peito das mulheres com hipnoterapia; já teve de se desculpar por ter mentido quando disse que trabalhou para a Cruz Vermelha e no Ministério da Justiça; e tem estado envolvido em muitas controvérsias relacionadas com antissemitismo.
Polanski, que é reconhecido por saber navegar bem no admirável mundo digital, sabe que má publicidade é coisa que não existe. Este tipo de polémicas permite que o seu nome se vá popularizando sem grandes impactos políticos e os seus seguidores têm apreciado a forma “honesta” como reconhece os erros e pede desculpa.
Tem sido, por tudo isto, qualificado como “theater kid”, uma expressão que no mundo anglo-americano remete para o tipo de pessoa que assume constantemente protagonismo, na procura por reconhecimento e validação. Curiosamente, Polanski teve mesmo uma breve carreira como ator na sua juventude.

Mas serão as suas polémicas piores do que as suas ideias políticas? Como diz Brendan O’Neill, ele pode já não acreditar que a hipnoterapia aumenta o peito de uma mulher, mas continua a acreditar que um homem se pode tornar uma mulher por mera declaração. E leva a interseccionalidade woke a um novo nível quando mistura tudo no mesmo compromisso político:
Os nossos irmãos e irmãs LGBTIQA+ enfrentam frequentemente desigualdades ainda mais graves decorrentes da crise climática. Seja na luta contra os magnatas dos combustíveis fósseis ou contra o ódio anti-LGBTIQA+, são os mesmos sistemas de violência e exploração que temos de combater.”
No programa “Question Time” da BBC News, ficamos a conhecer o modo ingénuo como olha para a imigração, e em entrevista para o podcast “The rest is politics” fica clara a sua ignorância quanto aos aspetos mais básicos do funcionamento da economia e do mercado.
Polanski tenta compatibilizar tudo isto na sua plataforma ecopopulista, juntando as preocupações ambientais tradicionais do partido (e a exigente meta de net zero até 2040) com uma agenda de luta às desigualdade económicas e a outras formas de injustiça. Em suma, promete “trabalhar todos os dias para promover justiça ambiental, social, racial e económica”.
Uma agenda ecopopulista
Nos últimos anos, a palavra “populismo” tem sido utilizada no espaço público para referir os partidos antissistema que se colocam à direita do espectro político, geralmente de cariz nacionalista. Mas o trabalho académico revela que, na verdade, o movimento populista apresenta uma tradição muito mais vasta à esquerda, em particular no mundo sul-americano. E, nesse plano, o termo não aparece com uma carga negativa, apresentando-se antes como uma abordagem que permite reacender o antagonismo político e questionar o poder das elites por forma a que os explorados ou oprimidos recuperem poder e dignidade.
Teoricamente, encontramos estas ideias em Ernesto Laclau e Chantal Mouffe; já no plano político, elas inspiraram o Podemos em Espanha, Zohran Mamdani nos Estados Unidos e, claro, a mensagem de “esperança” de Zack Polanski.
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Polanski explora a promessa populista de igualdade e poder e apresenta-se como o verdadeiro populista que está disposto a desafiar a riqueza e o poder das elites – ao contrário do que afirma Nigel Farage. Esta abordagem populista permite redefinir as prioridades do partido: como as dificuldades económicas impedem que as pessoas se envolvam devidamente no combate à crise climática e como as medidas ambientais tendem a ter um impacto mais prejudicial junto das pessoas mais desfavorecidas, o primeiro passo seria resolver as desigualdades económicas e o atual problema do “custo de vida”, que se tem expandido nos países ocidentais.
Concilia-se, assim, ecologia e populismo de esquerda, com a defesa de subida de impostos para os mais ricos, renacionalização dos serviços essenciais (como a gestão da água), maior regulação das atividades económicas e empresariais e a defesa, para cada empresa, de um limite máximo de salário em função do salário mais baixo.
Polanski acredita que esta estratégia permitirá chegar à classe trabalhadora que se sente frustrada com o Partido Trabalhista e representa, neste sentido, uma aproximação a Jeremy Corbyn, que, depois de afastado do Labour, se juntou a Zarah Sultana para formar um movimento que nunca arrancou verdadeiramente: o Your Party. O aviso está lá desde o início: “Estamos aqui para substituir o Labour”.
Uma estratégia de sectarismo
É, provavelmente, uma das razões que torna a política tão fascinante: não há fim da História. O que significa que o sucesso ou insucesso das ideias não depende necessariamente do mérito intrínseco dessas ideias, mas do facto de aparecerem no momento certo. Partidos, figuras e conceitos podem, assim, parecer proscritos a dada altura e reaparecer, mais tarde, com êxito e novo sentido. E é o que parece ter acontecido com as ideias de Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista entre 2015 e 2020.
A plataforma de Polanski está muito próxima da agenda política de Corbyn, ao ponto de o Green Party estar a absorver a ala “corbynite” do Labour e os votos do Your Party. Mas também se tem envolvido no mesmo tipo de polémicas sobre antissemitismo que rodeava Corbyn e determinou o seu afastamento do Partido Trabalhista. Basta pensar na proposta de moção, dentro do Green Party, para considerar o sionismo como “um tipo de racismo” e nos comentários feitos por membros do partido no espaço público. Contudo, o contexto agora é outro e o facto de Polanski ser judeu tem servido como uma espécie de para-raios que permite tornar este assunto delicado numa vantagem política.
A “questão da Palestina” é verdadeiramente divisiva no contexto inglês, não só em resultado de um tradicional posicionamento anti-Israel por parte de uma certa esquerda, mas também pela crescente comunidade muçulmana em território britânico. O ataque de 7 de Outubro e a resposta de Israel em Gaza tornaram-se temas de disputa nas universidades inglesas e traduziram-se em manifestações recorrentes no espaço público – situação que foi agravada após o início do conflito com o Irão, que conduziu a atos violentos e arbitrários contra a comunidade judaica.

Polanski tem sabido explorar habilmente este contexto conflituoso, colocando a questão de Gaza, Palestina e Israel no centro do discurso político do partido: em entrevista à BBC a propósito das eleições locais, disse que a Palestina era um dos temas que estava no boletim de voto e os seus candidatos apresentam mensagens que apelam “à punição do Labour”.
Esta estratégia tem sido cunhada no Reino Unido como sectarismo por promover a divisão social apelando a identidades étnicas e religiosas específicas. O resultado é que não só o Green Party multiplicou os seus candidatos com origem paquistanesa, que não se preocupam em fazer campanha em inglês, como conseguiu o apoio de movimentos que se organizam para mobilizar o voto destas comunidades (numa espécie de “voto comunitário”). E na eleição de Gorton e Denton, a ONG independente, Democracy Volunteers, emitiu um relatório em que expressava preocupações com o “voto familiar”.
A verdade é que a estratégia do Green Party parece estar a produzir frutos. Embora seja sempre difícil determinar por que razão as pessoas votam como votam, a análise dos resultados eleitorais indica uma tendência concreta: os eleitores muçulmanos têm transferido a sua inclinação de voto do Labour para o Green Party. Como a líder do Partido Conservador observou a propósito da eleição em Gorton e Denton, “o Labour criou o monstro da angariação de votos em bloco da comunidade muçulmana e, ontem, esse monstro voltou para se vingar deles”.
Que futuro?
A estratégia de sectarismo é reveladora da transformação do Green Party, que tem abandonado o seu passado monotemático. E com sucesso: de acordo com um inquérito da YouGov, publicada no início de abril,
A percentagem de eleitores que consideram votar no Green Party e que afirmam que a posição do partido em relação às alterações climáticas é o que mais os atrai diminuiu de 49% para 22% ao longo do último ano”.
A consequência desta transformação são as inevitáveis contradições políticas.
É verdade que elas são naturais num contexto partidário que se pretende competitivo. Uma forte coerência ideológica traduz-se na incapacidade de crescer eleitoralmente, pois os eleitores constituem um universo muito diverso. Mas se os partidos tradicionais tentam gerir com alguma delicadeza essas contradições, os partidos populistas tendem a retirar delas o maior proveito possível, considerando que muitos eleitores estão dispostos a ignorar algo que não lhes convém desde que consigam obter algo que entendem ser mais importante.
No caso do Green Party, encontramos esse tipo de equilíbrio precário em muitas frentes: defendem simultaneamente um estado social forte e a inexistência de fronteiras; políticas de net zero e redução de energia nuclear; subida de impostos para os mais ricos e fronteiras abertas; a reversão do Brexit e a crítica à economia de mercado; o combate ao racismo e a tolerância com o antissemitismo; a solução dos “dois Estados” e o cântico “From the river to the sea”; os “direitos LGBT” e o “voto muçulmano”.

Contudo, a contradição mais evidente parece encontrar-se no grupo eleitoral que mais apoio tem dado ao partido. De acordo com a YouGov, 44% das mulheres entre os 18 e os 24 anos pretendem votar no Green Party, em comparação com 30 % dos homens da mesma faixa etária, e quase um quarto das mulheres entre os 25 e os 49 anos têm o mesmo sentido de voto.
A dificuldade em compatibilizar valores feministas com o apoio à agenda trans coloca o partido perante a mesma quadratura do círculo enfrentada por muitos partidos de esquerda nos últimos anos. Mas esta inclinação feminina é sobretudo surpreendente se considerarmos a estratégia de Polanski de conquistar votos nas comunidades muçulmanas, uma aliança que tem sido designada como “islamoesquerdismo” e é marcada por campanhas onde as mulheres são praticamente inexistentes.
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Ainda assim, o sucesso do Green Party revela que, ao contrário dos prognósticos mais radicais, a esquerda não desaparecerá simplesmente do panorama político atual. Mas o seu espaço de afirmação parece estar a deslocar-se para uma faixa mais radical do espectro político, muito alimentada por movimentos que aliam as questões progressistas às preocupações com o custo de vida e a crítica ao capitalismo e por setores jovens e privilegiados da população, cuja motivação para o voto parece residir numa mistura entre convicções de luxo, sinalização de virtude e descontentamento com expectativas futuras (como já foi estudado a propósito da eleição de Zohran Mamdani como mayor de Nova Iorque).
Uma agenda tão radical e tão repleta de contradições dificilmente terá espaço para vitórias eleitorais significativas. Embora o partido possa ambicionar conquistar uma parte do eleitorado do Labour, dificilmente chegará à grande base de apoio que constituiu a força do partido trabalhista desde a sua formação: a “working class” tem transitado e transitará muito mais facilmente para uma direita antissistema, que fazendo uso de uma linguagem populista, não renuncia às funções sociais do Estado e apresenta a vantagem de apelar à identidade e à soberania nacionais.

Saber se o Reform será capaz de cumprir a sua agenda constitui um outro assunto — mas não há dúvidas de que o problema migratório com que a Europa se confronta determinará, nos próximos anos, o seu sucesso e o sucesso dos partidos nacionalistas. Já a proximidade dessa direita com a agenda social e económica do populismo de esquerda parece indiciar uma espécie de neo-socialismo, cujo espectro paira sobre a Europa e silencia os fundamentos mais liberais das democracias ocidentais.