As mais recentes vicissitudes do activismo anti-semita, incluído o institucional, vêm provar, mais uma e cansativa vez, a existência do pacto mediático e tácito, sem que haja aqui contradição, entre o islamofascismo e o esquerdismo antiocidental. Além dos atentados contra judeus, já praticamente ignorados nas notícias, como os que se têm sucedido no Reino Unido (aqui, aqui, aqui e aqui) e também na Bélgica (aqui e aqui), na Alemanha (aqui) e nos Países Baixos (aqui, aqui e aqui) , o regresso da flotilha e as polémicas em torno do festival da Eurovisão e da bienal de Veneza demonstram a duplicidade de critérios. A falsa equivalência entre a guerra da Rússia contra a Ucrânia e o conflito israelo-palestiniano, invocada para boicotar a participação de Israel, não deixa margem para dúvidas. O primeiro conflito não passa do expediente usado pelo parasita que se introduz no hospedeiro onde viverá até à morte deste. Esse hospedeiro são a paz e os bons sentimentos, e morrerá logo de seguida, quando, perante o segundo conflito, se transfigurar na condenação cega, irracional e violenta de Israel. O simulacro de imparcialidade é acolhido por grande parte da opinião pública ocidental com boas razões.
A deslegitimação da cultura ocidental, sobretudo – e não por acidente mas por essência – do capitalismo e da técnica arrasta-se há quase 200 anos, no quadro da generalização e compreensão científica de formas de vida que lhe são radicalmente estranhas. No século XX, o exotismo universalizou-se praticamente em toda a cultura, da etnologia e do turismo massificado à outrance até formas sofisticadas e com pedigree filosófico, a saber, o proletário como o bárbaro interior – o diferente que tem a chave da salvação para o igual tecnicamente homogeneizado – das sociedades ocidentais ou a mitificação histórico-ontológica do «outro começo» heideggeriano – o concubinato de Marx e Heidegger era uma inevitabilidade. Excepto na adolescência, em que faz parte de um processo de crescimento, o exotismo, a xenomania foi e é uma resposta à auto-fobia. Tal como a xenofobia é um medo do estrangeiro, que se pode revestir de formas agressivas hetero-dirigidas, também a auto-fobia é susceptível de seguir um caminho semelhante. Neste último caso, a ambivalência afectiva traduz-se, por um lado, na designação do bode expiatório dos sentimentos negativos respeitantes a si mesmo. É por isso que Israel é a súmula insigne dos pecados próprios, reais e imaginários: colonialismo, apartheid, genocídio, mas também capitalismo no seio de sociedades outras, diferentes, exóticas. Por outro lado, os sentimentos positivos são investidos de modo especular mas descarnado nas alteridades redentoras. Como a auto-fobia se tem a si mesma como referência primária, lê nas alteridades o que lhe serve para uma auto-acusação encenada como superioridade moral – fingindo que sente a dor que deveras não sente. Dá-se em espectáculo a si mesma, fazendo do sambenito glória. Por essa razão a auto-fobia não pode ver o conteúdo próprio das alteridades, com que mantém desse modo relações intrinsecamente falsas, muitas vezes, quase sempre, em contradição com a forma de vida confortável dos sedentos de exotismo – as férias num all inclusive resort e o very typical da autenticidade programada e projectada do hippie mais ou menos chique nascem, crescem, reproduzem-se, e talvez venham a morrer, num solo comum. Decorre daí que quanto mais indignados, mais seguros e confortáveis se sentem, e vice-versa. O seu apoio à causa palestiniana é mais um dos caminhos tortuosos da auto-fobia. O diagnóstico não é de hoje, e é aí que precisamente reside o problema. A consciência histórica deveria anular grande parte dos efeitos – deixando de lado a lunatic fringe – de uma tal patologia espiritual, e denunciar que, ao contrário dos anabaptistas da sociedade consumo, o islamofascismo conhece muito bem o conteúdo do diferente a instituir nas sociedades ocidentais, pela simples razão que, para ele, esse conteúdo é o não exótico. Pelo contrário, é o próprio mais próprio. Só o pânico surdo de si mesmo se deixa embalar no berço do diferencialismo e dos «saberes locais», ambos, de resto, produtos ideológicos do ocidente. A causa palestiniana com que o islamofascismo molda laboratorialmente as opiniões públicas ocidentais é tudo menos inocente. Passados tantos anos, quem, do lado do esquerdismo antiocidental, se cega a ponto de não ver os seis sétimos submersos do iceberg islamofascista perdeu a dignidade do cavalo, não passa de um burro de Tróia.