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(A) :: Um fantasma em carne e osso 

Um fantasma em carne e osso 

Este texto podia ser ficção, mas é sobre a realidade em forma de charada oferecida ao(à) leitor(a).

Paulo Vila Maior
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Um fantasma em carne e osso. Esvoaça sobre as fundações do futuro, agarrado ao passado que não conseguiu cumprir. Ele dirá, ainda ungido do ressentimento que não consegue disfarçar, que esse foi um futuro que ilegitimamente não o deixaram concretizar. Assombra os sucessores com pose de catedrático (de aviário) e cobre-os com a humilhação da improficiência.

É um fantasma a cores que já não se esconde atrás de silêncios e exerce o direito de falar (que a todos assiste). Diz coisas e muitas. Ajuíza, e muito, também – a ele deve pertencer um estatuto de superioridade moral. Beneficia de uma incorrigível propensão para o sebastianismo que é apanágio de sucessivas gerações gastas pela usura do passado. Dizem que é a centelha que desponta no horizonte de um numeroso séquito que se dividiu em variegadas propostas que concorreram a eleições. Os que se excitam de cada vez que o fantasma de carne e osso assoma à superfície, afirmam que só ele pode federar os que se dividem em diversas fações dentro da mesma família de ideias.

(Considerar que essas fações pertencem à mesma família de ideias é um abuso que dissipa diferenças irreconciliáveis.)

Este é um fantasma que não esconde o rancor, pela pose corporal que transpira agressividade por todos os poros, no tom belicoso com que encena a oratória, ainda sem a digestão feita de um casamento de conveniência que o depôs do poder. No verso do rancor avultará a mal-escondida intenção de federar as diversas sensibilidades que se reúnem sob a sua saia protetora, mesmo que se proponha a aceitar o apoio de radicais e não recuse a reprodução, com exata simetria, do casamento de conveniência que tanto o indispôs.

Para além dos adeptos que se agarram às messiânicas tábuas de salvação tão do agrado de uma portugalidade fatalmente incorrigível, o fantasma andante tornou-se o idiota útil ao serviço dos que se alistaram no casamento de conveniência que o condenou ao desterro. O trunfo nem precisa de ser atirado para cima da mesa pelos próprios; o seu adversário, em forma de vulto consubstanciado, joga o trunfo a favor daqueles que outrora se mobilizaram para o depor do poder. Desse modo, valida-se a teoria dos anticorpos: o cimento de alianças improváveis é provido por personagens que mobilizam a união dos seus detratores.

O fantasma não esconde o rosto e anda com febre de protagonismo, atiçando uma retórica combustível que funciona como um arsenal impiedoso sobre o afinal adversário que foi seu delfim no passado. A oposição já não é feita pela oposição; é tecida pelo fantasma extraído da hibernação, que já não se limita a gerir silêncios e a atestar as esperanças de uma vasta audiência que não se entusiasma com aqueles em quem votaram. O fantasma continua a povoar muito espaço público para perorar, diagnosticar e criticar sem critério, enredando-se na ambiguidade de quem se limita a falar no exercício da cidadania, mas fundeando as esperanças dos que não escondem uma certa orfandade.

De um lado da trincheira, o aplauso aquece a reabilitação do cadáver político. Alimentando um sebastianismo sacramental, pois o futuro é sempre a promessa que corrige as fragilidades dos diversos passados – mesmo que este futuro seja apenas um passado inteiro como proposta de reciclagem. Do outro lado da trincheira também se aplaude a ressuscitação do fantasma, mas em silêncio. Saberão que a subida do fantasma a palco, já despido da condição de vulto oferecido em promessa, pode ser o gatilho de que precisam para saírem do entorpecimento a que os últimos concursos eleitorais os condenaram. Ser-lhes-ia oferecido o trunfo máximo se o fantasma abrigasse sob a sua asa as várias sensibilidades que agora aparecem divididas. Para se mobilizarem, precisam que seja confirmada a radicalização em curso dos seus adversários. E depois há aquelas verrinosas personagens que se sentam na plateia, exercendo a sua suposta imparcialidade, e que chegam lume à fogueira de um protagonismo em que se procura reabilitar um fantasma saído dos claustros.

A política parece confirmar a teoria da reencarnação, que a ciência não pode atestar. No caso vertente, uma reencarnação materializada numa versão requentada da mesma pessoa. Os gatos têm sete vidas, segundo a sabedoria popular. E os fantasmas, quantas vidas têm? Mas talvez a interrogação mais lúcida seja a seguinte: que serventia tem um fantasma de carne e osso, senão trazer o passado de volta ao futuro, condenando-o a ser uma mera intermitência do passado?