Estados Unidos da América e China estão longe de ser países aliados, muito menos amigos. Mas a rivalidade entre as duas maiores potências mundiais não transpareceu nas interações entre Xi Jinping e Donald Trump ao longo desta quinta-feira, durante a visita oficial do Presidente norte-americano a Pequim. Os dois chefes de Estado trocaram sorrisos, elogios e acenos à multidão na capital chinesa, num ambiente descrito de forma unânime pelos correspondentes internacionais como “caloroso”.
Apesar de a postura dos dois líderes ter sido semelhante ao longo das aparições públicas, na receção formal a Trump e numa visita guiada pelo Templo do Céu, as suas declarações permitem destrinçar motivações muito distintas para esta cordialidade. O líder dos EUA salientou, como habitualmente, a sua boa relação pessoal com o homólogo chinês, que classificou como “um amigo“. “Sempre nos demos bem, quando há dificuldades nós resolvemo-las. Eu ligo-te e tu ligas-me. As pessoas não sabem, [mas] sempre que tivemos um problema, resolvemo-lo muito rápido”, afirmou Trump, em declarações antes do primeiro ponto de agenda desta quinta-feira, uma reunião à porta fechada entre as delegações dos dois países.
No mesmo momento, Xi Jinping deixou claro que as motivações chinesas para apostar nesta relação são muito mais racionais. “Uma relação bilateral estável é melhor para o mundo. A China e os EUA têm mais a ganhar com a cooperação e a perder com confrontações”, afirmou o líder chinês. “Devemos ser parceiros e não rivais e devíamos ajudar-nos mutuamente a ser bem-sucedidos e prósperos e encontrar uma forma de as grandes potências se relacionaram numa nova era”, continuou.

Definindo a busca por estabilidade como prioridade, os dois países parecem ter chegado a um acordo no campo económico. Mas a mesma harmonia não ficou visível nas outras áreas de discussão. Os comunicados de Pequim e Washington sobre a reunião da manhã desta quinta-feira pintam duas imagens opostas do diálogo sobre geopolítica: o comunicado chinês salienta a questão de Taiwan e não utiliza uma única vez a palavra Irão, enquanto o comunicado norte-americano destaca a discussão sobre a guerra no Irão e não faz qualquer referência a Taiwan.
O “abrir de portas” nas entrelinhas das palavras e ações de Xi Jinping
Nas redes sociais chinesas, a visita oficial ficou marcada por um vídeo partilhado em massa esta quinta-feira de manhã. No vídeo, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio aprecia o teto do salão faustoso onde as delegações estão reunidas. Este foi o momento que ficou viral, mas Rubio não foi o único norte-americano a ficar impressionado com a capacidade chinesa de organizar uma receção formal. Apesar de, ao contrário de Rubio, Trump já ter visitado a China no passado, o Presidente não escondeu a sua apreciação.
https://twitter.com/SprinterPress/status/2054834684626932047
Ao chegar ao Templo do Céu, Trump parou por duas vezes para cumprimentar as crianças que recebiam os dois chefes de Estado, utilizou repetidas vezes a palavra “lindo” para descrever os locais, o país e o povo chinês e verbalizou mesmo a sua admiração, mesmo nas áreas em que a China desafia os Estados Unidos. “O Exército, como é óbvio, não podia ser melhor”, afirmou enquanto fazia a revista às tropas.
A pompa e circunstância impressas pela China na receção têm um duplo significado. Por um lado, servem como forma de lisonja ao Presidente norte-americano. Por outro, o estender de uma carpete vermelha (literal e metafórica) ao líder dos Estados Unidos também transmite a imagem de uma China de portas abertas ao mundo, como salienta a correspondente da BBC no país. Esta mesma ideia de abertura foi sublinhada por Xi durante a reunião, segundo o comunicado oficial. “2026 é um ano histórico que abre um novo capítulo nas relações China-EUA”, pode ler-se nas declarações atribuídas a Xi.
Na mesma intervenção, o líder chinês mencionou ainda outras duas realidades que diz que acontecem num “mundo à beira de uma encruzilhada”: “uma transformação que só acontece uma vez num século” e a “armadilha de Tucídides“. Tratam-se de dois conceitos teóricos que guiam a relação entre as duas potências. O primeiro, de origem chinesa, ressalva a necessidade de a China se projetar num mundo em mudança, desafiando a hegemonia das potências ocidentais (neste caso, os Estados Unidos). O segundo, de origem norte-americana, sugere que uma potência em ascensão irá entrar em rota de colisão com uma potência hegemónica.
Ora, Xi questionou precisamente se Pequim e Washington serão capazes de ultrapassar esta “armadilha e estabelecer um novo paradigma para as relações entre grandes potências”. Nas entrelinhas do seu discurso diplomático, o Presidente chinês estabeleceu assim o desafio para os próximos anos: manter a estabilidade que os dois países conseguiram alcançar. “Porque os Estados Unidos não são um parceiro e muito menos um aliado, mas, posto isto, não queremos que sejam um inimigo e não queremos que isto resulte num conflito”, ponderou Da Wai, professor de relações internacionais na Universidade Tsinghua, em Pequim, sobre estas palavras de Xi à CNN.
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O machado de guerra (comercial) foi enterrado? China e EUA concordam em aprofundar cooperação económica
Entre palavras e fausto, Xi Jinping jogou as suas cartas. Mas o verdadeiro resultado da reunião surgiu só depois, durante a reunião entre as duas delegações. O encontro, que estava previsto durar uma hora acabou por se estender ao longo de duas horas e meia — à semelhança do que tinha acontecido na última reunião entre os dois líderes, em novembro do ano passado, na Coreia do Sul. À saída da reunião, ambas as partes concordaram que tinha sido positiva.
Xi colocou um título à relação que procura: “estabilidade construtiva estratégica”, que deve ser “positiva, saudável, constante e duradoura”. Na prática, isto exige “cooperação em áreas como economia, comércio, saúde, agricultura, turismo, laços pessoais e autoridades”, elaborou a China, em comunicado. Com este objetivo em mente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou que foram “alcançados resultados equilibrados e positivos” nas reuniões de preparação — sem apresentar detalhes sobre que resultados foram esses.

Ainda que mais benéfica na leitura dos Estados Unidos — a reunião foi “extremamente positiva” e “ótima” nas palavras de Donald Trump — a análise da reunião feita pela Casa Branca parece estar, de um modo geral, em linha com a que foi feita pela China. “Os dois lados discutiram formas de melhorar a cooperação económica entre os nossos dois países, incluindo a expansão do mercado para empresas americanas na China e o aumento do investimento chinês nas nossas indústrias”, salientaram os EUA, em comunicado, apontando ainda a presença dos “líderes de muitas das maiores empresas dos Estados Unidos” durante uma parte da reunião.
A presença dos CEO também foi salientada pelo primeiro-ministro chinês, Li Qiang, que se reuniu com estes empresários, a quem pediu que se responsabilizem, ao lado dos respetivos Governos, pela aproximação económica entre Pequim e Washington. “De olhos no futuro, a China e os EUA são totalmente capazes de continuarem amigos e parceiros, alcançando sucesso mútuo e prosperidade partilhada”, afirmou.
Este resultado é exatamente aquele que os especialistas tinham antecipado como mais provável para a visita de Trump a Pequim. “Assinala um período de ‘estabilidade controlada’ que se poderá manter durante algum tempo. Vai haver uma proteção e as coisas não vão sair fora de controlo, como quase aconteceu em 2025”, simplifica Tianchen Xu, economista na Economist Intelligence Unit, à CNBC.

O assunto que pode pôr a “relação em risco”: ameaças sobre Taiwan “não devem ser subestimadas”
Em poucas horas, Xi Jinping e Donald Trump encontraram dois acordos: China e EUA são duas potências que têm de ser capazes de gerir a sua relação — “a mais importante do mundo”, como classificou Xi Jinping no banquete da noite desta quinta-feira — e uma das ferramentas para alcançar esse resultado é a cooperação económica. Mas a viagem não se fez sem fricções.
Ao sair da reunião, enquanto os dois líderes posavam para fotografias, Trump foi questionado repetidas vezes sobre aquele que a China definiu como “o tema mais importante das relações China-EUA”: a “questão de Taiwan”. Apesar da insistência, o Presidente norte-americano recusou responder aos jornalistas, permanecendo em silêncio e olhando em frente. O mesmo silêncio repete-se no comunicado norte-americano, que não menciona Taiwan uma única vez. Em vez disso, os Estados Unidos dizem que “ambas as partes concordaram que o Estreito de Ormuz tem de permanecer aberto para apoiar o livre fluxo de energia”, focados no conflito no Irão.
https://twitter.com/RapidResponse47/status/2054792834272690235
Inversamente, o tema não é referido diretamente no comunicado chinês, que menciona apenas que os dois líderes “trocaram visões sobre os grandes assuntos regionais e internacionais, como a situação no Médio Oriente”. Mas é mesmo Taiwan que cria o maior ponto de fricção entre as duas partes. Ainda mais quando Xi Jinping o utiliza para deixar ameaças aos restantes acordos cordiais que conseguiram alcançar. “Se a questão for gerida de forma adequada, a relação bilateral gozará de uma estabilidade geral. Caso contrário, os dois países terão confrontos e até mesmo conflitos, colocando toda a relação em grande risco“, pode ler-se no comunicado.
Xi utilizou uma palavra em mandarim que não significa necessariamente conflito militar, mas a ameaça chinesa ficou bem clara. “Basicamente, Xi quer que Trump saiba que Taiwan é o tema decisivo nas relações EUA-China e o apelo a Trump para que exerça ‘muita cautela’ não deve ser subestimado”, alerta William Yang, analista do think tank Crisis Group, à CNN.