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(A) :: Escolas sem fronteiras

Escolas sem fronteiras

Quem não sabe dizer “isto não entra” mostra já não saber o que está lá dentro para proteger.

Margarida Bentes Penedo
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Terça-feira, 28 de Abril, Assembleia Municipal de Lisboa. No rasto do escândalo – finalmente, o escândalo – sobre a promoção nas escolas dos chamados “influencers” da internet com conteúdos pornográficos, o CDS apresentou uma moção para impedir esta gente de entrar em escolas de Lisboa. Logo o PS se viu aflito, não fossem as coisas passar sem o enquadramento apropriado. Respondeu apresentando outra moção, esta última alarmada com conteúdos “sexuais, pornográficos e misóginos” junto de crianças e adolescentes. E esmerou-se a exibir o seu espanto moral súbito, como se o problema tivesse começado agora. Não começou. Muito antes dos “influenciadores digitais” ousarem a sua vez, a própria escola deixou de saber justificar claramente porque certas pessoas entram nela e em nome de quê. Há anos e anos que as crianças nas nossas escolas são zelosamente acometidas por campanhas, activismos, “sensibilizações”, associações, dinamizadores disto e daquilo, e toda a tralha de instrumentos de “cidadania”, “inclusão” ou “combate ao preconceito”. A surpresa do PS é muito mais espantosa do que a presença dos ditos “influencers”.

A velha duplicidade do PS. Os mesmos responsáveis políticos que hoje se afligem com determinados excessos foram os que passaram décadas a dissolver as fronteiras institucionais das escolas. Causas protegidas por eles foram-se a pouco e pouco instalando desde que viessem embrulhadas na linguagem certa: “diversidade”, “inclusão”, “cidadania democrática”, “educação sexual”, “abertura da escola à comunidade”, “combate à discriminação”. A litania completa vinha estampada na moção do PS que, de resto, enroupava estas ambições benfazejas em camadas impenetráveis de burocracia. O que não vinha era o reconhecimento de que, em parte pela sua mão, e pela vontade de agradar às franjas da esquerda radical, a legitimidade deixou de vir da autoridade pedagógica ou do conhecimento transmitido e passou a vir da causa progressista. A escola habituou-se a aceitar e receber nas suas instalações criaturas externas à formalidade educativa, desde que devidamente habilitadas para sensibilizar, mobilizar, influenciar e produzir identificação emocional. Depois da escola transformada em plataforma moral, dificilmente se conserva autoridade – ou, sequer, claridade – para distinguir entre activistas aceitáveis e “influencers” pornográficos. Até porque eles fazem esforços para se assemelhar entre si.

O problema profundo é institucional. Uma escola segura da sua função não precisa de importar legitimidade mediática nem proximidade geracional para se tornar relevante perante os alunos. Mas a escola contemporânea aprendeu a desconsiderar a ideia de autoridade própria. Desconfiou da hierarquia, da transmissão vertical, da disciplina, da distância entre professor e aluno, da noção de fronteira institucional. Em contrapartida, glorificou a informalidade, a fantasia da igualdade, a linguagem dos miúdos, os testemunhos pessoais, os criadores de conteúdos e a pedagogia narcisista da emoção. Com este caminho preparado, a figura do “influencer” entra com toda a naturalidade nas escolas como continuação lógica do método que “o progresso” estabilizou. Não há qualquer ruptura. Num tempo em que a influência substituiu a autoridade, o “influencer” tornou-se o modelo. Porque haveria de ser visto como um intruso?

Em bom rigor, o problema das escolas não é terem recebido os “influencers” errados. Mais digitais, menos digitais, mais ou menos mediáticos, mais ou menos baptizados na língua de pau típica dos deslumbrados “pelo digital”, toda esta gente que tem entrado nas escolas com o propósito de influenciar é gente errada. Democraticamente errada. Sem distinção. Pensando bem, o problema das escolas é terem deixado de possuir critérios sólidos para impedir a entrada de qualquer “influencer”: quem não sabe dizer “isto não entra” mostra já não saber o que está lá dentro para proteger.