Um dos livros mais instrutivos que li em 2025 foi “Troubled”, em que Rob Henderson conta a sua infância disfuncional em vários lares adotivos, até que aos 17 anos alista-se na Força Aérea. Pelo programa GI Bill, entra na Universidade de Yale, com mais alunos do 1% mais rico dos EUA do que do resto da população. E verificou que as posições políticas dos colegas eram essencialmente performáticas. Ou seja, luxury beliefs.
Pondo a carroça à frente dos bois: convicções de luxo correspondem às ideias que a elite usa para simbolizar o seu estatuto social. São noções que só essa gente se pode permitir defender, pois nunca sofrerá as suas consequências negativas (quem paga o pato são as classes desfavorecidas).
Dantes (como Thorstein Veblen mostrou no clássico “The Theory of the Leisure Class”, de 1899), a elite assinalava o seu pedigree comprando bens materiais proibitivos aos outros – os chamados “sinais exteriores de riqueza”. Hoje, em que tudo é “discurso”, a ostentação pelo consumo conspícuo tornou-se parola (só para burgueses burgessos), e foi reciclada pela ostentação da virtude (virtue signaling), que confere uma valiosa pátina moral (da qual os virtuosos gostam quase tanto como do carcanhol – a fama e o proveito). A luxury belief é uma recompensa mais valiosa do que o luxo material, na medida em que é emocional e terapêutica.
O conceito é tão útil que se engastou no léxico público. Constou do discurso do ministro do Interior britânico e tem página na Wikipédia. A definição de convicções de luxo ressoou tão amplamente porque descreve com acuidade os poderosos que tratam como um jogo de salão questões com corolários gravíssimos — só que nunca para eles próprios, que fogem com o rabo à seringa.
Exemplos? Moradores de condomínios com muralhas inexpugnáveis e segurança privada armada até os dentes, que jamais pisam em bairros de lata, exigem a “abolição da polícia” e o “desencarceramento”. Ambientalistas fazem campanha para impedir que nações africanas cultivem alimentos geneticamente modificados, porque não conhecem ninguém que sofra de desnutrição terminal ou de deficiências vitamínicas que causam cegueira. Conservadores abastados rejeitam a ideia de saúde pública, porque eles e os seus entes queridos não perdem consultas médicas por não poder pagá-las. Pacifistas europeus que odeiam os EUA pela “cultura belicista” desfrutam da paz proporcionada há décadas pelo Tio Sam, que dispensa as suas edificantes nações de se armarem e se defenderem.
Com as “luxury beliefs”, o capital económico é “sublimado” em capital cultural. Em ”La Distinction: Critique Sociale du Jugement”, Pierre Bourdieu realça como o “distanciamento da necessidade” caracteriza a elite. Uma vez satisfeitas as necessidades físicas e materiais básicas, há ócio para o cultivo de hábitos sofisticados e dispendiosos que proporcionam distinção – sem o kitsch embaraçoso dos novos ricos ou o miasma fedido das massas.
O biólogo Amotz Zahavi dá o exemplo da cauda do pavão. Somente um macho saudável é capaz de espraiar uma plumagem tão colorida e exuberante, que o impede de voar mas não de escapar de predadores, a quem intimida precisamente pela ostentação contraproducente (além da trazer as pavoas pelo beicinho). Musa al-Garb chamou aquela casta rarefeita “capitalistas simbólicos”: operam em áreas como educação, consultoria, finanças, ciência e tecnologia, artes e entretenimento, media, direito, etc., e hoje nos EUA mandam no partido Democrata, enxotando o eleitorado tradicional.
A elite continua a salivar pelos seus brasões heráldicos. Como notou Émile Durkheim: “Quanto mais se tem, mais se quer, pois as satisfações recebidas, em vez de satisfazer, apenas exacerbam as necessidades”. Só que os tempos mudaram, e andar com 1 quilo de ouro ao pescoço é coisa de parvenu ou traficante. Uma pesquisa da YouGov revelou que os americanos de rendimentos mais altos são, de longe, os que mais apoiam o “desfinanciamento da polícia’. Ricos não correm riscos. Já os americanos mais pobres têm 7 vezes mais probabilidade de serem vítimas de roubo, 8 vezes mais de sofrerem agressões letais e 20 vezes de abuso sexual.
Por que abastados são tão suscetíveis a convicções de luxo? Porque podem comprá-las, e têm tempo para elas. E são os que mais se ralam com o status. Aos poucos, as mercadorias ficam mais baratas e a classe média e quem sabe até alguns pobretanas conseguem adquiri-las (nem que seja em milhentas prestações) – já as luxury beliefs são e serão sempre como as joias da coroa.
Um arauto das convicções de luxo é o New York Times. Outro, o Prémio Pulitzer. Joseph Pulitzer foi um dos criadores do jornalismo sensacionalista, no fim do século XIX. Morreu rico, e legou um pé-de-meia à Universidade de Columbia para o prémio que hoje foi cooptado pelas luxury beliefs. O de fotografia de 2026 foi para o colaborador do NYT, o palestino Saher Alghorra, por fotos em zonas de Gaza controladas pelos terroristas do Hamas. O jornal admitiu que “o Hamas restringe o jornalismo”, mas não que isso afetou o intrépido Alghorra. Porém, para a Honest Reporting, “as fotos premiadas foram encenadas. Uma delas mostra Yazan Abu al-Foul, de 2 anos, macilenta e cadavérica. Mas Yazan tem quatro irmãos mais velhos, perfeitamente saudáveis, simplesmente porque não sofrem da enfermidade da mais nova, uma patologia triste mas congénita que nada tem a ver com a fome”.
Outra foto é de membros do Hamas a carregarem os restos mortais de um refém israelense – uma pose hierática e épica que implicou cooperação estreita e confiança absoluta do grupo terrorista. O fotógrafo chama aos judeus mortos “prisioneiros de guerra” – o termo orwelliano do Hamas para reféns sequestrados e assassinados, entre eles mulheres, idosos e crianças. No ano passado, o Pulitzer de ensaio foi para o também palestino Mosab Abu Toha, que na “New Yorker” recusou-se a chamar refém à israelita Emily Damari, apesar de ela ter perdido dois dedos no 7 de Outubro e passado um ano e meio no cativeiro. Damari denunciou todo o conselho do Pulitzer: “Toha é o equivalente moderno de um negacionista do Holocausto”.
Nos anos recentes, o afroamericano Colson Whitehead recebeu dois Pulitzers, por um romance de ficção especulativa sobre a escravidão e outro na Flórida da segregação racial. A ojibua (“nação original”) Louise Erdrich conquistou o seu por um romance sobre a luta dos nativos-americanos contra o governo dos EUA. E o afroamericano Percival Everett por uma versão de “Huckleberry Finn”, de Mark Twain, só que contada pelo escravo Jim.
Há dias, o NYT publicou um vídeo de 35 minutos com o podcaster turco-americano Hasan Piker (3,1 milhões de seguidores na Twitch e 1,8 milhão no YouTube) e a redatora da New Yorker Jia Tolentino. A anfitriã foi a editora de opinião do jornal, Nadja Spiegelman. O palco era um loft esmeradamente decorado, que emanava bom gosto e sangue azul. A maquiagem de Tolentino realçava o exotismo felino da sua beleza e as botas Louboutin de salto alto transmitiam elegância cosmopolita. Piker vestia uma camisa Ralph Lauren e ténis Adidas (acusada de trabalho escravo nas suas fábricas na China, Vietname e Indonésia). A Whole Foods é citada 17 vezes na cavaqueira. Trata-se de um supermercado podre de chique, só com produtos “orgânicos”, de qualidade olímpica e preços estratosféricos. Lidl? Como assim?
Pairamos em pleno cenário de “Uma Batalha Após a Outra”, Oscar 2026 de Melhor Filme, em que crime é glamour. Spiegelman pergunta o que os dois acham que devia ser legalizado, mas é proibido. Tolentino sugere “explodir um oleoduto”. E considera “chocante” que a mera “interrupção do fluxo de capital da jornada de trabalho” seja criminalizada. Sim, fofa, mas sem “fluxo de capital” não há “jornada de trabalho”.
Depois, os três da vida airada especulam se o assassínio de Brian Thompson, CEO da United Healthcare, em dezembro de 2024, foi uma “ação política realmente eficaz” ou só uma “pedagogia”. O assassino, Luigi Mangione, foi beatificado por certa esquerda como cruzado contra o vampirismo da saúde privada – e a juíza do caso já afastou a possibilidade do paladino ser condenado à pena de morte.
Spiegelman propôs um novo termo para furto em lojas: “micro-saque”, um “protesto político” vintage. Ah, os entrevistados simplesmente a-do-ra-ram! Piker pavoneou-se (quase como se fosse o rei Leónidas a liderar os 300 de Esparta no desfiladeiro das Termópilas) que sempre pirateou contas alheias da Netflix. Em junho de 2020, durante os tumultos violentos após a morte de George Floyd, a então senadora Kamala Harris pediu doações para pagar a fiança dos vândalos e saqueadores em Minnesota.
Mas quem paga o micro-saque é o dono do negócio. E o consumidor, que vê os preços subirem para cobrir o prejuízo. E o público em geral, na forma de prateleiras vazias, lojas encerradas e redes inteiras abandonando as cidades que mais precisam delas. Se lá estivesse, eu perguntava ao trio: ”O que acham que lhes devia ser roubado?” Prováveis respostas: olhos vítreos ou assobios para o lado. O diabo veste Prada, mas os santos do pau carunchoso continuam a vestir o “Pravda”.
Os capitalistas simbólicos querem borlas mas também aplausos dos seus pares. Um ladrão que chama furto aos furtos não passa de um gatuno. Um larápio que salmodia “micro-saque” é um Robin dos Bosques gourmet, um rico que rouba aos remediados para dar a si próprio. Já o funcionário que repõe a prateleira chama a coisa pelo nome: gamanço.
Entretanto, também em Nova York, resplandecia a edição 2026 do MET Gala, patrocinada pelo homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, e a sua mais-que-tudo, Lauren Bezos. Lauren borboleteou no tapete vermelho do MET com um vestido alusivo a um quadro de John Singer Sargent, Madame X, retrato de uma socialite do século XIX. Naquela altura, a tela foi considerada indecente devido à alça única que caía do ombro da senhora. O visual de Lauren no MET apresentava a mesma alça, desenhada para deslizar omoplata fora, e fazê-la sentir-se uma espécie de Frida Kahlo (só que ainda mais sofrida).
Lá fora, na excelsa 5th Avenue, manifestantes chungas protestavam contra as condições de trabalho na Amazon, com frascos de urina com o rosto de Jeff Bezos e a legenda “Boicote ao MET Gala”. Lá dentro, os capitalistas simbólicos, inspirados pelo pintor Sargent, estavam-se nas tintas (com trocadilho). Tartufo tinha muito que aprender com esses pândegos.
Os bilhetes para o evento custaram US$ 100.000 (quase 100 mil euros) por pessoa (mesas, US$ 350.000).Mas era só que faltava esses mártires populares desembolsarem um centavo do seu rico dinheirinho. Marcas suntuosas compram mesas e convidam celebridades, que retribuem fazendo de conta que alta costura é alta cultura. O sarau arrecadou o recorde de 42 milhões de dólares. Evidentemente, só a elite põe os pezinhos lá dentro (nada de Cinderelas neste bailarico). Claro que os happy few professaram solidariedade a rodos ao “povo”, enquanto se banqueteavam com caviar e champanhe.
Os convidados deviam usar fatiotas que destacassem a interseção entre moda, corpo e arte. A cantora Gracie Abrams foi com um vestido dourado da Chanel, inspirado no retrato de Adele Block-Bauer por Gustav Klimt. O invólucro de Anne Hathaway, chez Michael Kors, evocava o poema de Keats, “Ode a uma Urna Grega”. Todas as inúmeras e opulentas Kardashian arquejavam sob corpetes que maximizavam os seus mamilos. Um entrevistador perguntou a Amanda Seyfried se ela bebia o leite de seu bode. Enfim: um cosplay do Halloween.
Como no melhor pano cai a nódoa, o presidente da Câmara de Nova York, o socialista Zohran Mamdani, baldou-se. (Talvez amuado com o déficit municipal de US$ 12 mil milhões em poucos meses no cargo, depois que criou novos impostos sobre imóveis, ampliou a tributação das empresas e priorizou grupos específicos, baseado em critérios de raça, género e orientação sexual. Os investidores pisgaram-se para o Texas e a Flórida, e a arrecadação e a geração de empregos caíram a pique.)
Felizmente, a BFF de Mamdani, a deputada radical Alexandria Ocasio-Cortez (AOC para os íntimos, que estavam todos a bordo), ainda detém o título de “melhor roupa numa gala do MET”. Foi um vestido branco que bradava em letras garrafais vermelhas: “Eat the Rich!”. Sim, o canibalismo pode ser uma luxury belief, até porque era praticado pelos bons selvagens dos Povos Originais.
Mas quem roubou a cena foi a atriz Sarah Paulson, num vestido da coleção “The One Percent”, da maison Matières Fécales, que incluía uma venda nos olhos feita com uma nota de um dólar. Paulson (património pessoal: US$ 12 milhões ) explicou que era “uma crítica ao 1% da sociedade — a sua ganância, corrupção e cegueira à desigualdade.” Só o traje dela custou mais do que o salário anual de um trabalhador médio. Ou seja: um membro do 1% a vociferar contra o 1% numa patuscada exclusiva do 1% e a usar uma roupa da coleção “The One Percent” (vá lá que a grife cult assume-se como matérias fecais).
É verdade que uns pobres despeitados (aliás, uns despeitados obviamente pobres) compararam o vestido de Paulson ao “interior de um aspirador de pó”. Mas esses fascistas não perdem pela demora: se micro-saques e o assassínio de empresários são retaliação pia, o quarto atentado contra Trump será de vez.
Churchill disse um dia: “Podemos sempre contar que os americanos farão a coisa certa – assim que todas as outras alternativas estejam esgotadas”. Tratando-se da elite virtuosa (americana ou não), mais vale esperarmos sentados.