17 de maio de 2025. O Sporting sagrava-se bicampeão nacional de futebol pela primeira vez em mais de 70 anos. Assim que terminou o jogo em Alvalade contra o Vitória Sport Club, centenas de milhares de adeptos do clube foram para a rua celebrar a conquista do campeonato. E muitos deles percorreram o trajeto entre o Estádio José Alvalade XXI até à praça do Marquês de Pombal, ao lado do autocarro da equipa. Bernardo Topa era um deles. Mas os festejos foram subitamente interrompidos. Estava na Praça do Saldanha quando foi atingido no olho com uma bala de borracha disparada por um agente da PSP. O caso está em tribunal e, passado um ano, a advogada de defesa, Sara Macias, garante ter provas de que o que aconteceu é um caso de abuso policial.
“Contrariando as regras e sem avisar que iam fazer manobras de dispersão, [os agentes] começaram a disparar com os braços em ângulo reto. Não há aqui balas perdidas“, atira. Ao lado de Bernardo Topa, diz a advogada, havia vários menores. “Estava uma criança de três anos nos ombros do pai. Poderíamos estar agora a falar de um homicídio”, sublinha em declarações à Rádio Observador, no programa “Onde Pára o Caso”.
https://observador.pt/2025/05/20/adepto-do-sporting-ficou-cego-de-um-olho-depois-de-ser-atingido-por-bala-de-borracha-durante-os-festejos/
Sara Macias lamenta que, ao longo do último ano, a Polícia de Segurança Pública não se tenha retratado do episódio. “Não é só cínico nem hipócrita. É falso”, diz sobre o comunicado da PSP logo após os festejos. Na altura, a polícia garantiu que o evento “decorreu de forma globalmente tranquila, positiva e serena”. A advogada contesta essa ideia e revela ao Observador que Bernardo Topa não terá sido o único afetado pela ação policial: 73 adeptos do Sporting terão sido obrigados a deslocar-se ao hospital naquela noite, para receber tratamento médico depois de serem alvo das balas de borracha disparadas pela PSP.
O processo judicial aberto para apurar responsabilidades sobre os acontecimentos daquela noite está em segredo de justiça, refere a Procuradoria-Geral da República ao Observador. E o inquérito interno que a PSP instaurou para avaliar a operação dos agentes está ainda em fase de instrução na Inspeção-Geral da Administração Interna. A advogada critica o que considera ser uma demora da Inspeção Geral da Administração Interna em concluir os processos sobre os agentes. “A polícia sabe quem indicou, a quem atribuiu aquelas armas. A PSP não pode dizer que não consegue apurar o nome do agente responsável. Já disponibilizámos os números dos capacetes dos sete agentes que estavam na linha da frente”, revela Sara Macias.
https://observador.pt/programas/onde-para-o-caso/adepto-do-sporting-baleado-agentes-da-psp-foram-punidos/
A advogada recorda ainda um caso semelhante e faz um paralelismo. “Não vamos deixar que o processo tenha igual curso ao que teve outro processo quando o Sporting foi campeão na temporada 20/21, em que também houve um adepto que levou um tiro, ficou cego, e o processo foi arquivado. Não vamos deixar que este processo seja arquivado”, garante. A advogada defende que a brigada da PSP envolvida neste caso tem de “ser responsabilizada pela forma como não cumpriu o regulamento do uso e manejo de armas”, mesmo que o agente que disparou a bala não seja castigado individualmente. A advogada admite ainda avançar com uma ação judicial contra o Estado Português, caso o processo não tenha, em breve, novos desenvolvimentos.
Bernardo pediu ajuda à Fundação Sporting, mas ficou sem resposta
Bernardo Topa saiu de casa no dia 17 de maio do ano passado para ir ver o jogo a casa de uns amigos. Estavam num estado de euforia quando viram o Sporting sagrar-se bicampeão. Rapidamente seguiram para a rua, primeiro para se juntarem aos milhares que celebravam em Lisboa, e logo a seguir, em busca do autocarro do plantel leonino, que se dirigia para o centro das celebrações no Marquês de Pombal.
Foi através de uma transmissão em direto no Instagram que se aperceberam de que o autocarro estava a chegar ao Saldanha. Seguiram para lá. Pouco depois de chegarem, o ambiente ficou mais tenso, o fumo das tochas encheu aquela praça da cidade, ao ponto de a visibilidade ficar reduzida a poucos metros de distância. E, então, a polícia interveio. Bernardo recorda ao Observador esses momentos.
“Estava na zona da rotunda e, de repente, vejo uma clareira a abrir-se. As pessoas — famílias, mulheres, crianças — começaram a afastar-se. E quando olho e tento perceber o que está a acontecer, foram cerca de cinco segundos em que vejo agentes a disparar e levei um tiro que me destruiu por completo o olho“, conta.
Bernardo perdeu os sentidos e começou por ser assistido por uma enfermeira que estava no local. Esperou cerca de uma hora até ser transportado de ambulância para o Hospital de São José. Foi operado, para remover os fragmentos de bala que ainda tinha no olho, mas não evitou a cegueira total do lado esquerdo. Conta que, à sua volta, houve dezenas de pessoas que ficaram marcadas pelas balas de borracha em várias zonas do corpo. “Foi uma chacina. Tenho amigos que me disseram que foi esta a maneira de atuar da PSP durante o trajeto todo, do Estádio de Alvalade até ao Marquês de Pombal. Descarregar a raiva desta maneira e atingir pessoas inocentes é mesmo muito triste“, diz Bernardo. Hoje, garante que tem outros cuidados quando vai a um estádio de futebol.
A partir desse momento, os dias de Bernardo têm sido uma constante adaptação e aprendizagem. Trabalha como comissário de bordo na TAP e, neste momento, não pode operar voos sozinho. Passou quatro meses com uma pala até fazer uma reconstrução total do olho. Já gastou mais de 16 mil euros só em cirurgias e operações. “Se, por acaso, não tivesse dinheiro, neste momento estava sem olho, sem prótese, nem podia trabalhar”.
https://observador.pt/2025/05/23/adepto-do-sporting-baleado-espera-que-o-agente-da-psp-seja-identificado-e-que-haja-justica/
Passado um ano, o processo judicial não terá avançado e Bernardo tem suportado todos os custos. “Não tive apoio de ninguém. Além de gestos simbólicos e de um convite do Sporting, não me chegou nada, não me ajudaram com nada”, relata. Recebeu uma visita do presidente do clube, Frederico Varandas, quando ainda estava internado no hospital, e ainda teve conhecimento do comunicado dos leões no dia após aquela noite no Saldanha. Mas ficou sem resposta quando pediu ajuda à Fundação Sporting. “Tentei contactá-los, mas responderam-me com uma mensagem automática, que devem enviar a toda a gente. E fico triste porque isto foi um evento ligado ao Sporting. Podiam ter-me ajudado, pelo menos juridicamente“, frisa.
Direção Nacional da PSP recusa comentar o caso. Sindicato recorda “contexto violento” dos festejos
Questionada pelo Observador, a direção nacional da PSP não comenta as acusações da advogada, Sara Macias. Em resposta enviada por escrito, o gabinete de comunicação diz que qualquer reação seria precipitada, uma vez que o inquérito ainda não terminou. Em relação ao inquérito interno aberto depois dos acontecimentos nos festejos do Sporting, a PSP diz apenas que esse processo continua nas mãos da Inspeção-Geral da Administração Interna.
A propósito dessa investigação do IGAI, o presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais de Polícia, Bruno Pereira, diz não compreender o silêncio do organismo, um ano depois. “Estranho que, passado um ano, não tenha já tomado uma posição. Desde logo, assumir a suspensão do próprio polícia ou dos polícias envolvidos”, diz o subintendente da PSP. Bruno Pereira sublinha que, ainda assim, é necessário “alguma cautela” na avaliação da atuação dos agentes da PSP naquela noite.
“Tenho dúvidas de que seja assim tão linear [quanto a descrição da advogada Sara Macias], ou que essas provas sejam tão absolutas e plenas para demonstrar uma culpabilidade clara por parte do polícia”. O sindicalista reitera, no entanto, que o uso da força gratuito é “completamente inadmissível” e que os agentes devem ser castigados caso tenham tido algum comportamento fora das regras.
https://observador.pt/2025/05/21/sporting-investiga-acao-da-psp-que-cegou-adepto-durante-festejos-e-admite-tomar-medidas-adequadas/
O subintendente da PSP lembra, no entanto, o que descreve como “contexto violento” dos festejos do bicampeonato do Sporting. “Não só de um uso desmesurado de pirotecnia, mas atos de vandalismo tremendos. Não sei também se no momento não houve desobediência à ordem pública. É importante saber em que contexto é que este disparo ou disparos foram realizados“, frisa. Bruno Pereira garante que os agentes da polícia têm a devida formação para a utilização de armas de fogo, lembrando que “deve existir sempre alguma tolerância, porque os contextos de extrema agressividade e de extrema violência obrigam a PSP a ter de decidir muitas vezes ao segundo”. O presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais de Polícia diz que é difícil um agente avaliar os prós e os contras quanto à utilização da arma de fogo, reconhecendo que existem “limites que são inultrapassáveis e limites com alguma plasticidade”.

