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(A) :: Trump, Xi e o Grande Jogo: a nova arquitetura mundial

Trump, Xi e o Grande Jogo: a nova arquitetura mundial

A administração americana tem trabalhado num conceito estratégico que circula em Washington sob o nome de "Core 5",  uma aliança informal entre os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Índia e o Japão.

Jorge Coutinho de Miranda
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A 14 de maio, Donald Trump aterra em Pequim. Para a maioria dos analistas ocidentais, é mais uma jogada errática num tabuleiro caótico. Mas para a história profunda do poder financeiro global e dos seus padrões de comportamento ao longo de dois séculos, esta visita tem uma lógica cristalina. E uma urgência que não é acidental.

O domínio britânico sobre a economia global nunca se exerceu principalmente através de exércitos. Exerceu-se através do controlo do crédito, das moedas, e das regras do comércio internacional, escritas pelos melhores escritórios de advogados de Londres e exportadas para o mundo como se fossem leis naturais e universais.

O chamado “livre comércio” britânico do século XIX nunca foi liberdade. Foi uma arquitetura desenhada para garantir que as nações periféricas exportassem matérias primas baratas e importassem produtos manufaturados caros e que as mais valias ficassem, invariavelmente, nos cofres da Cidade de Londres.

O padrão não desapareceu com o fim do império formal. Reencarnou-se da forma mais dissimulada e com a anuência dos ingénuos americanos saídos da II Guerra Mundial através das instituições criadas em Bretton Woods: FMI, Banco Mundial, e OMC. As colónias tornadas independentes no papel, mantiveram a dependência através destes novos mecanismos.

É importante conhecer a história para perceber como as coisas se ligam ao longo dos anos, e é neste contexto que é importante conhecer a história de Sun Yat-sen que hoje, precisamente por causa desta visita, adquire uma dimensão que vai muito além da curiosidade histórica.

Em 1911, Sun Yat-sen derrubou o último imperador da Dinastia Qing e fundou a República da China. O seu projeto era radicalmente diferente do que viria a seguir-se. Formado no Hawai, onde estudou em escolas cristãs e absorveu os princípios políticos de Washington e Lincoln, Sun queria uma China soberana, industrialmente desenvolvida e economicamente independente. O seu mausoléu em Nanquim foi deliberadamente modelado no Memorial de Lincoln, não sendo de todo um pormenor decorativo mas mais uma declaração de princípios.

O projeto de Sun Yat-sen foi progressivamente minado e substituído, primeiro pela instabilidade, depois pela guerra e finalmente pelo comunismo maoísta, num sistema que manteve a China fechada, atrasada e dependente durante décadas, destruindo precisamente o que Sun tinha tentado construir.

Contudo, Mao nunca apagou totalmente Sun Yat-sen pois não o podia fazer, por  Sun ser o único nome capaz de legitimar a fundação do Estado Chinês moderno e  reconhecido tanto em Pequim como em Taipé. O que o PCC fez foi mais sofisticado: cooptou-o. Manteve a estátua, preservou o mausoléu, celebrou a data esvaziando cuidadosamente o conteúdo, mantendo a simbologia mas silenciando a ideia. Até agora, pois Xi Jinping tem vindo a invocar Sun Yat-sen com uma frequência e uma abertura sem precedentes, que para quem procura ler os sinais, é uma mensagem. A China não esqueceu de onde veio, e o pai fundador reconhecido simultaneamente em Pequim e em Taipé é, talvez, o mais poderoso argumento para uma reunificação que dispense os canhões.

Isto para recordar que ao longo de dois séculos, sempre que uma nação tentou seguir o modelo americano hamiltoniano de desenvolvimento, soberania industrial, banca nacional, proteção tarifária, todas elas acabaram por encontrar resistência organizada, por vezes económica, ora política, ou pela força mais direta das armas, da insurgência, da revolução ou contra revolução.

A América de Hamilton, Lincoln e McKinley era um modelo perigoso para quem controlava o sistema de livre comércio global. Uma nação que financia a sua própria indústria, que protege os seus mercados, que emite crédito soberano para construir infraestruturas, não necessitaria de Londres para o fazer. E quem não precisa de Londres, do ponto de vista da City, acabaria por se tornar uma ameaça existencial.

O comunismo, nesta leitura, não foi apenas uma ideologia revolucionária espontânea. Foi também, em vários contextos históricos documentados, um instrumento útil para destruir exatamente o tipo de capitalismo industrial soberano que Washington e Lincoln representavam, substituindo-o por regimes que, apesar da retórica anti-imperialista, permaneciam dependentes do sistema financeiro internacional.

A visita de Donald John Trump a Pequim ganha aqui a sua verdadeira dimensão na perspetiva de enquadramento da nova ordem Mundial que está a ser estabelecida diante dos nossos olhos.

A administração americana tem trabalhado num conceito estratégico que circula em Washington sob o nome de “Core 5”,  uma aliança informal entre os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Índia e o Japão. Cinco potências com peso demográfico, industrial e militar real. Cinco nações que, juntas, podem definir as regras do século XXI sem passar por Bruxelas, sem passar pela ONU, e sobretudo sem passar pelas instituições financeiras que a Cidade de Londres ainda influencia de forma determinante. Porventura, se as condições políticas o permitirem, o Brasil que é a maior economia da América do Sul e exemplo histórico de tudo o que aqui se descreve, poderá também encontrar o seu lugar nesta nova arquitetura.

Trump conhece o padrão e a sua guerra simultânea contra o globalismo comercial, contra as estruturas da NATO, contra o FMI e contra a OMC não é caos. É uma tentativa de desmantelar, de uma só vez, a arquitetura que durante dois séculos garantiu que o poder real permanecesse concentrado num quadrado de Londres chamado de Cidade.

Xi Jinping sabe que o mundo de 2026 não é o de 2015. O modelo de crescimento chinês assente em exportações baratas e energia subsidiada enfrenta limites reais. E a janela para negociar uma posição favorável numa nova ordem global não estará aberta indefinidamente.

Mas Xi sabe também que a China foi construída, na sua versão mais nobre, sobre princípios que têm mais em comum com Lincoln do que com Marx. E que Sun Yat-sen, o homem que o Partido ainda venera (cada vez mais às claras), sonhou com uma China que se parecia muito mais com o que Trump está agora a propor do que com o que Mao construiu.

A visita de 14 de maio é uma proposta. Dura, estratégica, calculada mas uma proposta. O que Xi responder definirá não apenas a relação bilateral entre as duas maiores economias do mundo. Definirá se o sistema que durante dois séculos se perpetuou a partir de um pequeno bairro financeiro de Londres sobrevive ao século XXI.

Ou se finalmente chega ao fim.

Viva La Libertad Carajo!