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A Europa vive à custa da Ucrânia

A Europa pode continuar a fingir que a guerra está longe ou pode finalmente reconhecer que o seu futuro está, em grande medida, a ser decidido no leste.

Álvaro Rocha
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A guerra na Ucrânia deixou de ser um conflito distante que vemos nos noticiários entre intervalos de banalidade quotidiana. Tornou-se, silenciosamente, o eixo em torno do qual gira a segurança europeia. E, no entanto, continuamos a agir como se fosse um problema alheio, algo que pode ser gerido à distância com declarações políticas, pacotes de ajuda hesitantes e uma confiança quase ingénua na contenção.

A verdade é mais desconfortável. A Europa não está apenas a ajudar a Ucrânia. Está, na prática, a depender dela.

Desde o início da invasão russa, a Ucrânia transformou-se na primeira linha de defesa do continente. Não por escolha, mas por necessidade. Ao resistir, ao absorver o choque militar, ao travar o avanço de Moscovo, Kiev tem desempenhado um papel que, em circunstâncias diferentes, caberia aos próprios países europeus. Cada quilómetro defendido em território ucraniano é um quilómetro que não precisa de ser defendido nas fronteiras da NATO.

E, no entanto, essa realidade não parece totalmente assumida pelos líderes europeus. O apoio existe, mas chega tarde, fragmentado e muitas vezes condicionado por cálculos políticos internos. Há uma Europa que reconhece a ameaça e outra que ainda acredita que o conflito pode ser contido sem custos significativos. Essa divisão não é apenas estratégica; é perigosa.

Porque a Rússia não está a jogar um jogo de curto prazo. Apesar das perdas, mantém capacidade de mobilização, adaptação e persistência. O objetivo não é apenas a Ucrânia. É testar os limites da Europa, explorar as suas fragilidades e, sobretudo, verificar até onde vai a sua determinação. E é aqui que surge a questão essencial: estará a Europa preparada para sustentar esse teste?

A resposta, por agora, é ambígua.

Por um lado, houve avanços importantes: aumento do investimento em defesa, maior coordenação entre países, uma consciência mais clara das ameaças. Por outro, permanece uma dependência estrutural dos Estados Unidos, como se a segurança europeia pudesse continuar a ser garantida por um ator externo indefinidamente. Esse equilíbrio é cada vez mais incerto, sobretudo num contexto internacional volátil.

É neste ponto que a Ucrânia deixa de ser apenas um aliado e passa a ser um ativo estratégico. O seu exército é hoje um dos mais experientes do mundo em guerra convencional moderna. O seu território é o campo onde se testam táticas, tecnologias e resistências. E o seu povo, goste-se ou não, tornou-se o escudo da Europa.

Ignorar isto é um erro. Subestimá-lo é um risco.

A questão não é apenas continuar a apoiar a Ucrânia. É perceber que esse apoio deve ser reforçado, acelerado e enquadrado numa estratégia de longo prazo. Não como um gesto de solidariedade, mas como uma política de sobrevivência. A integração da Ucrânia no espaço europeu não deve ser vista como um problema burocrático ou político, mas como uma necessidade estratégica.

Se a Ucrânia cair, a Europa não ficará mais segura. Ficará mais exposta, mais vulnerável e mais cara de defender. O custo de apoiar Kiev hoje é elevado. O custo de não o fazer amanhã será incomparavelmente maior.

Há momentos na história em que as ilusões deixam de ser sustentáveis. Este é um deles. A Europa pode continuar a fingir que a guerra está longe ou pode finalmente reconhecer que o seu futuro está, em grande medida, a ser decidido no leste.

E talvez a pergunta mais incómoda seja esta: estamos verdadeiramente preparados para viver com as consequências de não fazer o suficiente?