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(A) :: Portugal não tem um problema de imigração. Tem um problema consigo próprio

Portugal não tem um problema de imigração. Tem um problema consigo próprio

Uma economia que depende de trabalho barato importado para funcionar não resolveu os seus problemas – adiou-os e externalizou-os.

Tiago Silvério Marques
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Portugal tem 9,2 milhões de portugueses em território nacional, 1,8 milhões de portugueses lá fora, e 1,5 milhões de estrangeiros a viver cá dentro. Alguém está a sair. Alguém está a entrar. E o país continua a fingir que não percebe porquê.

Somos um dos povos com maior história de emigração da Europa. O avô que foi apanhar uvas para França nos anos 60, o filho que foi para a Suíça nos anos 80, o neto que hoje trabalha em Londres – são a mesma história que o nepalês conta quando chega a Lisboa. Muda o passaporte. A razão é exactamente a mesma. Quase metade da população do Luxemburgo é estrangeira – e a maior comunidade, de longe, são os portugueses, com cerca de 14,5% de toda a população do país, quase o dobro da segunda maior comunidade. O luxemburguês que olha para o português na construção vê exactamente o que o português vê no nepalês na agricultura. A conversa é a mesma. Muda apenas o sotaque.

Enquanto Portugal não criar condições para que os seus próprios cidadãos queiram ficar – salários, habitação, perspectivas de futuro – continuará a exportar portugueses e a importar imigrantes. Não porque alguém o decida. Porque a aritmética assim o impõe.

A questão não é se precisamos de imigrantes. Precisamos – demograficamente, economicamente, estruturalmente. A questão é que tipo de sociedade queremos ser quando os recebemos. O Luxemburgo não existe sem os portugueses. Portugal não existe, na sua forma actual, sem os bangladeshis, os nepaleses, os brasileiros, os indianos. A diferença entre um país que funciona e um país que apenas reclama é saber honrar essa dependência – e ter a honestidade de olhar para o espelho antes de apontar o dedo.

Ofereço esta reflexão com conhecimento de causa. Tanto eu como o meu filho somos imigrantes desde 2022 – em dois países completamente diferentes um do outro. Se algum dia voltaremos a fazer da nossa vida principal em Portugal é uma questão que me preocupa genuinamente. Não escrevo isto como observador distante.

Ninguém emigra por prazer

Emigra-se porque as condições em casa não permitem uma vida digna. O bangladeshi que serve às mesas em Lisboa, o nepalês que apanha tomate no Alentejo, o brasileiro que entrega pizza à meia-noite – foram porque não havia outra saída. Há um custo que nenhum ordenado compensa completamente: adormecer e acordar num sítio que não é o teu, sem as pessoas que são as tuas. É o mesmo cálculo que faz o trabalhador nepalês quando embarca para Lisboa. A escala financeira é diferente. O custo humano é o mesmo.

A cadeia que ninguém vê

O bangladeshi que trabalha como ajudante de cozinha não está a tirar nada a ninguém. Está a permitir que o dono do restaurante – normalmente português – mantenha o negócio aberto, pague fornecedores, pague IVA, empregue mais pessoas. O brasileiro que faz entregas no Glovo não concorre com nenhum emprego existente – há um mercado novo onde o restaurante que antes só vendia com mesa livre passa a vender para toda a cidade às 23h de uma segunda-feira. Sem estes trabalhadores, os negócios fecham. Não por falta de clientes. Por falta de quem trabalhe.

Portugal decidiu que o turismo seria o seu principal modelo económico. Em 2024, o sector contribuiu com cerca de 34 mil milhões de euros – aproximadamente 12% do PIB – sustentando quase um em cada quatro postos de trabalho, segundo dados do Turismo de Portugal. O sector paga abaixo da média nacional. Portugal construiu o seu principal motor económico sobre trabalho estruturalmente mal pago – e depois estranhou que os portugueses não queiram trabalhar nele. Reclamar dos imigrantes que servem os turistas é reclamar do combustível que mantém o motor a funcionar.

Mas porquê salários tão baixos? Em parte porque a arquitectura fiscal o impõe. Tendo em conta a TSU e os 14 meses, um empregador desembolsa bem acima dos mil euros mensais por trabalhador, mesmo ao salário mínimo, antes de qualquer outro custo. E o consumidor português faz o resto: a esmagadora maioria compara preços e privilegia o mais barato – nos supermercados, nos hotéis, nas viagens. Somos nós que criamos as condições que depois criticamos.

Há uma crítica mais funda que este artigo não pode esquivar. Uma economia que depende de trabalho barato importado para funcionar não resolveu os seus problemas – adiou-os e externalizou-os para as costas de quem chegou mais vulnerável. Criticar quem chega sem criticar o modelo que os chama é fazer metade da análise. Portugal não integra mal os imigrantes apesar do modelo económico que construiu. Integra mal por causa dele.

Segundo projeções do INE, a população activa portuguesa poderá diminuir de 6,8 para 4,2 milhões de pessoas até 2100. O argumento “pagando bem, os portugueses fariam esses trabalhos” parte do princípio de que há portugueses disponíveis. Os dados dizem que não.

Portugal não foi invadido. Foi apanhado desprevenido – o que é diferente e muito mais difícil de defender politicamente. O país passou de pouco mais de 420 mil estrangeiros residentes em 2017 para 1,54 milhões em 2024, segundo dados da AIMA – quase quadruplicou em sete anos. Nenhum dos países aqui comparados teve uma aceleração desta velocidade neste espaço de tempo. A velocidade não é o problema em si – é o revelador. Mostra que Portugal não tinha infraestrutura de integração antes do choque, durante o choque, nem depois. A solução não é abrandar a chegada. É construir o que devia ter sido construído há dez anos.

Dois modelos. Uma lição

Nos Emiratos Árabes Unidos, onde 89% da população é imigrante – apenas 11% são cidadãos emiratis. O dado mais revelador é a composição: indianos (38%), paquistaneses (12,5%) e bangladeshis (9,5%) representam sozinhos 60% de toda a população. Os mesmos bangladeshis que servem às mesas em Lisboa são quase 10% de um dos países mais ricos do mundo. Os expatriados ocidentais – o perfil com que nos identificamos – são apenas 8,5%. Funciona porque as regras são claras e há uma categoria de visto para quase qualquer perfil. Um visto de trabalho é aprovado em 5 dias úteis. Nos Emiratos Árabes Unidos, a carta de condução é impressa e entregue num quiosque na hora.

O meu filho está na Dinamarca, onde 14% da população é imigrante – exactamente igual a Portugal. A diferença é o modelo. Como cidadão europeu que trabalha, tem direito ao SU – a bolsa estatal de 915 euros mensais para estudantes, sem necessidade de reembolso. As propinas são gratuitas para estudantes da UE. Pode trabalhar enquanto estuda até um limite de rendimento definido. A integração não é passiva – é estruturada, financiada e exigida. Se tivesse o sol de Portugal e um par de amigos de infância em Copenhaga, provavelmente não voltava. É difícil argumentar contra isso com os números na mão.

Portugal tem a mesma percentagem de imigrantes que a Dinamarca e não tem modelo nenhum. Recebe imigrantes porque a aritmética o obriga – e depois não sabe o que fazer com eles. A taxa de desemprego entre estrangeiros em Portugal é de 14%, o dobro da média nacional. Isso não é um problema deles. É um problema nosso.

O problema que nenhum governo resolve

As políticas que resolveriam esta equação não cabem num programa de governo. Tal como na educação – onde os resultados de uma reforma só se medem quinze anos depois – também aqui estamos a falar de decisões cujos efeitos só se sentem após dois ou três ciclos eleitorais. Nenhum político é eleito prometendo resultados para 2040. Cada governo herda o problema, anuncia medidas, e deixa-o para o seguinte.

Há também uma resistência legítima que este artigo não pode ignorar. Quem não consegue médico de família, vaga na escola ou casa a preço acessível não está errado em estar frustrado. Está errado na causa – a consulta já não existia antes de os imigrantes chegarem, a escola já estava sobrelotada, a habitação já era inacessível. A frustração é real. O alvo está errado.

Portugal não tem um problema de imigração. Tem um problema de integração – e tem uma conversa que se recusa a ter consigo próprio. O Luxemburgo não existe sem os portugueses. Portugal não existe, na sua forma actual, sem os bangladeshis, os nepaleses, os brasileiros, os indianos. A diferença entre um país que funciona e um país que apenas reclama é saber honrar essa dependência – com regras claras, processos eficientes, e a honestidade de olhar para o espelho antes de apontar o dedo.