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(A) :: O incrível caso da bola animista

O incrível caso da bola animista

Não era o árbitro, nem a trave, nem os jogadores, nem o vento: era a bola, uma bola conspirativa. Uma bola com um plano, desde o início.

Alexandre Borges
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Eu sei que, à primeira vista, coisas mais importantes se passariam no mundo, mas julgo que acabará por concordar comigo. A notícia, chamemos-lhe assim, titulava o seguinte: “A bola que teve duas vontades”. Não era o meu órgão de imprensa de referência, nem sequer era a manchete, mas, caramba, nem sempre directores e editorias têm sensibilidade para estes casos. Arrumam com a ciência, a cultura, a religião, lá para as últimas páginas, a fazer de flores que descomprimam das coisas “sérias”: a economia, a política, o internacional, a convocatória para o amigável da selecção. Por vezes, nem os maiores escritores! Lembremos a célebre entrada no diário de Kafka, estava a Primeira Guerra Mundial a rebentar: “Hoje, a Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar”. Nada na posição secundária na página beliscava, portanto, a grandeza do fenómeno ali descrito: “A bola que teve duas vontades”. Não bastava a descoberta de que o objecto, outrora tido por inanimado, tinha, afinal, alma, personalidade, vontade, desejos, sonhos – quem sabe? Era, também, bipolar. Ainda agora tinha sido promovido à condição humana, já padecia de distúrbio mental.

Debrucei-me com mais atenção. Verdade que não era bem um jornal: era a newsletter do meu clube, depois de mais um mau resultado e de ver mais um objectivo, o último, praticamente perdido, lá para os confins dum canudo. Certo que, noutro tempo, quem queria saber das coisas com relativa imparcialidade, nunca compraria um jornal de clube, mas isso era antes das redes sociais, quando tínhamos aquela mania dos factos, em vez do acesso directo às “fontes”. E depois, uma newsletter não é bem um jornal; é-nos impingida quando subscrevemos qualquer coisa, chega-nos ao correio sem pagar ou sequer pedir, e tem, claramente, muito menos letters (news, enfim, nunca foi o forte, nem duma nem doutro). Mas, bolas (no pun intended), desta vez, era preciso abrir uma excepção: estávamos perante um dos mais formidáveis acontecimentos do século, senão mesmo da semana.

A nossa equipa, dizia o artigo, tinha rematado “24 vezes à baliza”, ao passo que os outros “fizeram-no apenas em cinco ocasiões,” tendo terminado, no entanto, “com o mesmo número de golos”. A injustiça lógico-matemática evidente, ali, a estalar. Então, mas isto não conta a tentativa? Só vale se for lá dentro? Será que se podia pensar numa espécie de câmbio? Duas tentativas valiam um golo. Cinco tentativas. Vá, recebíamos ao menos um daqueles cartões dos restaurantes de centro comercial: ao 10.º carimbo, tínhamos direito a uma refeição grátis e não se fala mais nisso.

E não falava mesmo. Não se descrevia se os nossos remates tinham passado rente à baliza ou colocado em perigo a vida da passarada circunstancialmente sobrevoando o estádio. Se tinham sido fortes ou fracos, surpreendentes ou previsíveis, enfim, melhores ou piores do que os cinco do adversário. Como quem diz: nós chutámos a bola, colocámos um dos nossos membros inferiores em contacto com a dita, aplicando-lhe indeterminada quantidade de força/energia – a bola é que não fez a parte dela. Ou pior: só fez quando lhe apeteceu. Quando lhe deu na gana.

É sabido que, nestas coisas, a culpa nunca foi nossa. Nunca, em vez alguma, sucedeu teremos jogado mal, ou insuficientemente. Não errámos a contratação de um só jogador, muito menos do técnico. O dito também nunca errou a táctica, nem sequer a técnica, nem a palestra motivacional ou a falta dela. De alto a baixo da “estrutura”, tudo fizemos nos tempos absolutamente certos. Definimos, com eficiência máxima, um programa directivo, uma estratégia desportiva e defendemos, é claro, com notável bravura, os nossos interesses, dentro e fora das quatro linhas. Por isso, se e quando as coisas, porventura, não correm bem, a culpa só pode ter sido doutro. Outro qualquer. Geralmente com um apito.

Mas aqui não se falava nem de postes mágicos que se tivessem substituído ao guarda-redes, traves teimosas, fortes ventos contrários, sequer de relva maltratada que tivesse desviado o esférico do caminho do bem. O próprio árbitro passava praticamente incólume, apenas com ligeiras insinuações: um “desvio no braço”, umas reticências aqui e ali, uma adjectivação curta: “Controverso”. Como quem se cansou, já, de apelar para essa instância. Nada mais. Nem uma queixa de uma lesão do jogador-chave, do fresquinho no estádio, do preparador físico que recebeu uma mensagem perturbadora da ex-namorada mesmo antes do começo da segunda parte. O motivo do desaire era outro e estava bem identificado desde o título da peça: a bola. A sonsa da redondinha. Aquele factor imponderável com que ninguém tinha contado.

Claro que já tinha ouvido falar de casos de uma ou outra bola que descrevera “um efeito caprichoso” ou que “caprichosamente, não quis entrar”, mas este era diferente. Bem observado, uma vez lido todo o artigo, nem era bipolaridade – não havia no texto sinal de empatia para com ela, não solicitava apoio especializado, pausas na partida para a toma de medicação. O que ficava nas entrelinhas era, das duas uma: ou estávamos perante uma bola que não sabia o que queria ou diante de um perigoso caso de bola conspirativa. Uma bola com um plano, desde o início. Que tinha uma vontade quando era chutada por uns e mais vontade quando era chutada por outros. Nunca visto.

Desconheço, por agora, os desenvolvimentos, mas estarei atento. Terá a perturbada agitadora sido levada no final pelas autoridades de saúde para estudos? Ou pela polícia, para averiguação? Se a coisa for séria e a suspeita se reproduzir, podemos estar perante a repetição daquele momento mágico em que o nosso antepassado comum passou de macaco a coisa pensante, bípede e capaz de palavreado múltiplo. E nesse caso, quem sabe?, suspendam os vossos juízos sobre esta ter sido ou não mais uma temporada falhada e pensemos, seriamente, em contratar a bola. Uma vez alinhadas as vontades dela com a nossa, poderá fazer a diferença em muitos campos dessa Europa, quiçá mesmo país. Pode, um dia, chegar a treinadora. Inclusivamente Presidente. Tivesse bracinhos e até vos dizia: era menina para fazer grandes newsletters.