As rodinhas dos tróleis deslizam pela calçada com o barulho correspondente, enquanto das esplanadas circundantes se levanta um burburinho de vozes misturadas com o som metálico de talheres. Um tuk-tuk silencioso — desde 2017 que todos são elétricos — transporta um casal irrequieto ladeira abaixo, seguido por um camião de transporte de mercadorias que encosta para fazer descargas. Apesar da agitação no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, às onze da manhã de segunda-feira, Liliana Pina aguarda sentada num banco, serena e com um livro de micas de tamanho A3 debaixo do braço. Na outra mão agarra o catálogo da exposição Lisboa de Bordalo, que o museu onde trabalha realizou em 2017.

Liliana juntou-se à equipa do Museu Bordalo Pinheiro, onde integra a divisão educativa, precisamente nesse ano. Situado no Campo Grande, o monumento exibe a coleção de peças de cerâmica, ilustrações e recortes de jornais e periódicos acumulada por Arthur Ernesto Santa Cruz Magalhães (1864-1928) durante a vida. Grande fã de Rafael Bordalo Pinheiro, construiu o museu em sua homenagem, a fim de tornar a obra do artista e jornalista acessível ao público. O espaço abriu portas em 1916, com bilheteira destinada a financiar a atividade da Cruz Vermelha, e, em 1924, foi cedido, juntamente com a coleção, à Câmara Municipal de Lisboa. Assim permanece até hoje.
Os passeios pela capital centrados na vida e obra de Bordalo Pinheiro foram ideia de Liliana, e planeados com base na investigação efetuada para a exposição temporária Lisboa de Bordalo. Existem três percursos disponíveis, que o museu dá a conhecer em visitas organizadas uma vez por mês. O primeiro, focado na Baixa lisboeta e no bairro do Chiado, introduz uma das figuras mais interessantes do século XIX em Portugal. Quem não estiver satisfeito, pode aprofundar o conhecimento sobre a personalidade política de Bordalo Pinheiro no segundo trajeto com início na Assembleia da República, ou num terceiro que celebra os 150 anos da mítica personagem Zé Povinho.

A fim de conhecer melhor a biografia do artista, o Observador decidiu percorrer as mesmas ruas que Bordalo pisou e imortalizou nos seus desenhos, através da participação numa visita organizada pelo museu. O ponto de partida foi afixado no largo que lhe faz homenagem e onde viveu muitos anos. Morou no segundo andar do atual número 29, um edifício pintado de branco que hoje alberga a marisqueira atarefada Mar ao Lago, e nunca pagou renda. Alegadamente, o senhorio considerava uma honra tê-lo como inquilino, motivo pelo qual o poupou à despesa, assim como os proprietários do restaurante Tavares Rico, situado nas imediações, onde jantava todos os dias.
O privilégio, contudo, não o impediu de criticar os preços do mercado de arrendamento e abordar um assunto muito em voga nos dias que correm: a crise da habitação. Se numa caricatura publicada no jornal O António Maria ilustrou “sua majestade o senhorio” com aspeto reptiliano, mastigando os inquilinos sufocados pela cauda serpenteante de jiboia, já antes previra o “futuro dos habitantes de Lisboa”, tornados sem-abrigo num dia de chuva.

Olhando para a praça transformada em atração turística, ninguém diria que há menos de dois séculos alojou um “pardieiro” com todo o género de animais de quinta. “O pardieiro do Largo da Abegoaria [como então se chamava], que por tantos anos fez o desespero dos nossos nervos de artista e ao qual a câmara municipal mandou finalmente deitar abaixo” é a legenda de uma litografia celebratória de Bordalo, na qual se representa ao lado do alter-ego, um gato de tocha na mão e aspeto mariola. Afinal, o artista era apaixonado pelos felinos e chegou a afirmar “ter sido gato noutra reencarnação”.
A cidade como palco
Para os conhecedores da biografia de Bordalo, não surpreendem os momentos de autorepresentação, frequentes na obra que assinou. Nascido numa família privilegiada e interessada nas artes, sobretudo por influência paterna, Rafael Bordalo Pinheiro começou por estudar teatro, antes de se dedicar à ilustração. Matriculou-se na Academia de Belas-Artes de Lisboa, mas depressa o aborreceu a educação artística tradicional, influenciado por novas tendências vindas de França e Inglaterra — como a caricatura e a banda desenhada. A formação dramática passou para segundo plano, mas nunca desapareceu do horizonte do artista visual natural de Lisboa — que sempre pensou a cidade como palco para as suas personagens mais emblemáticas.
O legado de Bordalo está presente nas canecas com motivos vegetais e travessas inspiradas em folhas de couve lombarda da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, que fundou em 1883, após uma breve passagem pelo Brasil. São poucas as casas do país que não colecionam estes adornos, tidos como tipicamente portugueses, do mesmo modo que o Zé Povinho criado por Rafael em 1875 — uma personificação do português rural e mediano, celebrou o 150.º aniversário no ano passado.
Mas foi no cartoon e na caricatura, utilizados como armas de sátira política, que Bordalo se popularizou e interagiu com a capital. Apesar das fortes convicções antimonárquicas, anticlericais e a favor da igualdade e liberdade de expressão, nunca militou em nenhum partido — divertia-se a satirizar os protagonistas da vida política nas suas ilustrações. Divulgava os desenhos em vários jornais fundados pelo próprio, com destaque para o já mencionado O António Maria (cujo nome ridicularizava o líder do Partido Regenerador, Fontes Pereira de Melo), o Pontos nos ii ou A Paródia — que tem agora uma nova vida, com base precisamente no Museu Bordalo Pinheiro.
A obra publicada vai além da imprensa, com destaque para o livro No Lazareto de Lisboa (1881), uma espécie de novela gráfica primitiva, em que relata o período de quarentena a que foi sujeito à chegada da cidade. Regressava de um Brasil fustigado pela febre amarela e foi entre as quatro paredes à margem do Tejo prostradas (situadas no atual concelho de Almada) que descartou a hipótese de contágio. “Encerrado nas grades da prisão, sonho com Lisboa”, escreve, entre miragens da Casa Havaneza, onde “um [cavalheiro], que quando eu partia para o Brasil acendia majestosamente o seu charuto, acaba mesmo agora de o fumar”. O estabelecimento de venda de tabaco e bebida ainda reside no mesmo número 25 do Largo do Chiado — então o epicentro do comércio e da cultura na capital.

O circo de Lisboa
Liliana folheia a pasta que guarda as fotocópias dos desenhos originais. Explica a ilustração alusiva ao terceiro centenário da morte de Luís de Camões, cuja estátua repousa na praça a poucos metros dali. Entretanto, um grupo de turistas francófonos aproxima-se e pergunta se podemos afastar-nos da fachada oitocentista da boutique Paris em Lisboa. Querem tirar uma foto, dizem, perante uma Liliana surpreendida. Na opinião da guia, a cidade mudou muito desde que começou a efetuar os percursos pelo centro histórico. A profusão de estaleiros de obras foi substituída por “lojas transitórias”, onde “não se ouve falar português”, apesar da abundância de clientela.
Uma travessia pela Rua Garrett no mês de maio é sinónimo de encontrões frequentes, câmaras fotográficas em riste e circulação anormal de tuk-tuks. A imagem que Portugal mais exporta para o estrangeiro é também aquela que cada vez menos portugueses reconhecem, apesar da estátua de Cristiano Ronaldo de braços cruzados e da tradicional carrinha que anuncia “more fado, less price” na Rua do Carmo. Ao lado de tesouros nacionais, como a instalação de Bordalo II (que, curiosamente, não tem nada que ver com o protagonista desta visita) ou o mendigo, sentado atrás de dois cachorros adormecidos, que pede “help with € for the dogs”, turistas de mochila às costas e óculos de sol fotografam o Elevador de Santa Justa.
Mas a febre do turismo em massa na cidade atinge novas alturas na próxima paragem do itinerário. Em plena Praça do Rossio, a Tabacaria Mónaco impressiona pelos azulejos que lhe decoram a fachada — desenhados por Rafael Bordalo Pinheiro —, pelos frescos do teto e a mobília que preserva o aspeto original. O estabelecimento abriu em 1875 e até teve direito a anúncio n’O António Maria, com o texto: “o Sr. Vieira da Cruz, seu simpático proprietário, pode legitimamente orgulhar-se de que a abertura da sua casa foi acontecimento de maior monta do que a abertura do parlamento”.
Afinal, a Tabacaria Mónaco não é um quiosque qualquer, mas uma das poucas pérolas arquitetónicas e artísticas que sobrevivem à ameaça da gentrificação da Baixa lisboeta. Os azulejos decorativos mostram rãs e cegonhas embrenhadas em atividades humanas, de cigarro entre os lábios e dedinhos que exploram caixas de rapé, enquanto, no teto de aspeto celestial, um bando de andorinhas metálicas repousa sobre fios de telefone pendurados. Casa do primeiro aparelho telefónico de uso público disponível na cidade, a loja assume-se como continuação do mundo lá fora, fruto do trabalho minucioso dos artesãos mais prestigiados do século XIX.
Hoje, o espaço é cobiçado pelos olhinhos curiosos dos estrangeiros que passam, sempre prontos a disparar flashes que danificam a pintura do interior e aborrecem os proprietários. “Estamos saturados disto”, conta Carlos Oliveira, de cenho franzido atrás do balcão. Não quer mais fotos, “é cansativo” e “falta de educação” — no espaço de duas semanas contabilizou um total de 1.506 viajantes que entraram no estabelecimento só para ver o interior, sem consumir ou respeitar os anúncios afixados por toda a parte, onde se pode ler “Proibido fotografar”.
Vendedor na tabacaria há 56 anos, Carlos herdou o negócio do anterior proprietário e testemunhou em primeira mão as mudanças que Lisboa sofreu nas últimas décadas. “A cidade está irreconhecível”, admite, apoiado pela mulher já reformada, Maria Luísa, que, se continua ali, é por amor ao marido. Além do Café Nicola, a tabacaria Mónaco é o único vestígio da antiga Lisboa na Praça do Rossio, e dos poucos ainda ativos na Baixa— depois do fecho do café centenário Beira-Gare (ao largo da Estação do Rossio) e da ameaça de encerramento do bar Ginjinha Sem Rival (na Rua das Portas de Santo Antão), que trava uma batalha judicial com o senhorio.
Um estreito corredor ensanduichado por duas esplanadas pujantes, a Tabacaria Mónaco também expande os seus tímidos tentáculos para a rua, onde um mostrador com postais coloridos seduz os turistas mais atentos. 400 euros por ano é quanto custa essa invasão da via pública, menos insinuante agora que a Junta de Freguesia reclamou do espaço que ocupava no passeio. Pior do que isso são as rendas praticadas no bairro, confessa Carlos — o próprio recorda-se de um negócio da vizinhança cujo pagamento ao senhorio aumentou de 350 para 8000 euros mensais quando o prédio mudou de proprietário.
Enquanto der, o casal Oliveira prevê aguentar o negócio — depois de tantos anos atrás do balcão, uma pessoa afeiçoa-se ao toque do jornal e à variedade de tabaco dentro das vitrines iluminadas. Na juventude, Carlos acordava às três da manhã todos os dias para entregar as publicações matutinas ao Palácio de Belém e à Assembleia da República, à sede da GNR e à PIDE (antes da revolução). Conheceu Jorge Sampaio e foi íntimo de Mário Soares, que sempre o cumprimentava quando passava no Rossio. “É a vida dele”, desabafa Maria Luísa, com o olhar terno pousado no marido, que se desfaz em desculpas pela rigidez com que nos recebeu e despede com um “até à vista” emocionado.
Cronista do quotidiano ou visionário?
Há coisas que nunca mudam e os cartoons de Bordalo Pinheiro são testemunha disso: se até muito recentemente, o bipartidarismo foi o standard na política portuguesa, o mesmo acontecia durante a monarquia constitucional que o artista satirizou. A disputa entre os Progressistas de Anselmo Braancamp e os Regeneradores de Fontes Pereira de Melo arrastou-se até à data da Implantação da República, em 1910, e aparece retratada de forma alegórica num desenho inspirado no monumento a D. Pedro IV da Praça do Rossio.
Outro alvo de crítica igualmente atual: os americanos — que aqui não se refere aos naturais dos EUA, mas aos veículos de transporte público que circulavam por Lisboa no final do século XIX. O nome, derivado da sua origem nova-iorquina, popularizou-se como forma de descrever as viaturas movidas a tração animal, que se deslocavam sobre carris. A evolução tecnológica trouxe automóveis a vapor, eletricidade ou combustível mais acessíveis e eficientes, mas com o problema de sempre, que já incomodava os passageiros contemporâneos de Bordalo Pinheiro: os atrasos são tão recorrentes que o menino “Zézinho” do seu cartoon envelhece vários anos enquanto espera pelo transporte.
A experiência é vagamente familiar, mas não tanto como a imagem de um elétrico em queda livre, que instantaneamente faz soar alarmes na cabeça de qualquer português que se preze. Bordalo utilizou a imagem como metáfora para os confrontos partidários já referidos, que antecipam um “desastre iminente” muito diferente do descarrilamento do Elevador da Glória do dia 3 de setembro de 2025. Mas as coincidências vão mais além: afinal, o acidente no desenho foi provocado pela “substituição do cabo metálico… por cabos de papel”.

Perto do fim, a visita recorda os problemas de Bordalo com a justiça — pois ninguém pense que levar humoristas a tribunal só acontece no século XXI! O artista era bastante inconveniente, dadas as suas convicções republicanas num país onde vigorava um regime monárquico. Foram várias as ocasiões em que sofreu as consequências de pisar o risco, quase tantas como os estratagemas que encontrou para contornar o crivo da censura. Quando a lei que proibia a representação caricatural do rei foi aprovada, o ilustrador começou a desenhar o monarca de costas e sem os traços de identificação mais óbvios. Bem-sucedido, foi convidado a sentar-se no lugar do réu por outro motivo, que também teve ecos na História recente.
A acusação partiu da gravura A Ceia de Zé, inspirada no fresco de Leonardo Da Vinci sobre a última refeição de Cristo. Com Zé Povinho no lugar do Messias, rodeado de dirigentes políticos e pessoas com exposição pública, Bordalo Pinheiro critica os conluios interpartidários que têm sempre o mesmo efeito nos membros do povo: uma bela dose de impostos servidos de bandeja. O cartoon ofendeu uma sociedade beata onde a Igreja permanecia ligada ao Estado — e que, pelos vistos, não mudou muito, apesar da laicização formalizada em 1911. Recorde-se o episódio do sketch de Herman José da Última Ceia, exibido pela RTP em 1996, que escandalizou a opinião pública e o então líder do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, por ser portador de “mensagens que podem ser consideradas ofensivas de valores partilhados pela maioria dos portugueses”.
Mas também no século XIX havia finais felizes e, como no processo que opôs Joana Marques à dupla musical Anjos, o autor da sátira acabou por sair vitorioso e foi absolvido das acusações de uso indevido e profanação de imagens religiosas. Mais do que isso, conseguiu tirar lucro da situação, pois não hesitou em caricaturar e ridicularizar o sucedido. Não só propôs a criação de um quiosque destinado a informar a imprensa das decisões judiciais, como celebrou a absolvição com uma nova gravura intitulada Ceia de António (a primeira fora publicado n’O António Maria), desta vez com Bordalo Pinheiro no centro da mesa. “Declaramos solenemente que esta ceia não é cópia nem da tela de Leonardo Da Vinci nem da casa de pasto do Pinxa; é simplesmente cópia da Boa Hora [tribunal onde foi julgado, na Rua Nova do Almada]”, lê-se na legenda.
Uma “Ideia luminosa”
Última paragem: Praça do Comércio, onde o rei D. José I monta um cavalo voltado para o rio e para as terras de África sob domínio português durante séculos. Domínio esse que perdia influência em finais do século XIX, ao mesmo tempo que a coroa se submetia aos interesses britânicos.
O Ultimato inglês, como ficou conhecido o episódio, contestou a iniciativa portuguesa de unir os territórios de Angola e Moçambique (consagrada no Mapa-cor-de-rosa), onde o governo da Rainha Vitória desejava construir uma linha férrea contínua que ligasse as colónias do Egito à África do Sul — ou o Cairo ao Cabo, de forma mais poética. A cedência de Portugal às pretensões do seu aliado mais antigo foi alvo de duras críticas entre a opinião pública e promoveu a descrença no regime monárquico. Bordalo Pinheiro foi um dos seus censores mais ativos e não poupou esforços na sátira à servidão portuguesa e despotismo britânico.

Pôs a rainha Vitória a cavalgar no corcel de D. José, transformado em burro, e desenhou um penico estilizado com o corpo de John Bull — a figura-tipo do homem inglês, uma espécie de Zé Povinho mais burguês e britânico —, que, na opinião de Liliana, se assemelha de forma gritante ao político americano mais influente da atualidade. As qualidades visionárias de Bordalo não ficam por aqui, pois na sua “Ideia luminosa” propõe um cenário estranhamente parecido à realidade de Lisboa nos dias que correm.
“Haverá nos teatros mágicas inglesas, operetas francesas, danças austríacas, […] cascata e montanhas russas debaixo do arco da Rua Augusta, corridas de cavalos, regatas, galeotas alugáveis à hora para passeios no Tejo”, escreve. Para além disso, “a língua oficial deste éden à beira-mar plantado, passaria a ser francesa ou inglesa, ficando para todo o sempre, abolida a língua nacional”. “Não seria este um meio de fácil e rápida execução para se ganhar muito dinheiro com pouco trabalho?” Uma hipótese escrita com o habitual humor bordaliano é o dia-a-dia do Sr. Carlos da Tabacaria Mónaco, dos poucos residentes da Baixa Pombalina.
A visita pela Lisboa de Bordalo mostra uma cidade pouco diferente da Lisboa contemporânea e o trabalho de um artista português que merece reconhecimento — cronista do quotidiano, retratou a identidade portuguesa com uma mestria singular, mas também a moldou à sua imagem. Com duração de duas horas e por um preço amigável de cinco euros, a reserva de um lugar nos próximos passeios pode ser efetuada através de contacto telefónico ou por e-mail endereçado ao Museu Bordalo Pinheiro.














